Brasil revive clima de Copa 2026 com figurinhas e expectativa pela Seleção
Na saída de uma escola em Goiânia, um grupo de crianças se reúne em volta de um álbum de figurinhas enquanto discute qual jogador merece ser titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026.
“Eu quero achar o Neymar raro.”
“Meu primo já completou a página do Vinícius Júnior.”
“Meu pai falou que essa Seleção voltou a ter cara de Brasil.”
A cena parece simples, mas revela uma transformação que começa a ganhar força em diferentes partes do país: o Brasil voltou a entrar em clima de Copa do Mundo.
A Seleção Brasileira está no Grupo C do Mundial de 2026, ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia. A estreia será em 13 de junho contra os marroquinos. Depois, o Brasil enfrenta o Haiti em 19 de junho e encerra a fase de grupos diante da Escócia no dia 24.
Os horários considerados favoráveis ao público brasileiro reacenderam um movimento que vai além do futebol e começa a impactar escolas, bancas de jornal, famílias e o comércio ligado ao Mundial.
Em bancas e papelarias, o álbum oficial da Copa voltou a movimentar trocas de figurinhas e procura por pacotes. Segundo dados da Panini, responsável mundial pela coleção oficial do torneio, o Brasil permanece entre os maiores mercados consumidores de álbuns da Copa do Mundo.
Para o jornaleiro Antônio Carlos, de 58 anos, o movimento lembra os períodos mais fortes do futebol brasileiro.
“Tem criança vindo quase todo dia trocar figurinha. Pai comprando pacote fechado. Fazia tempo que eu não via esse entusiasmo”, afirma.
Especialistas em comportamento afirmam que o álbum da Copa representa mais do que um produto infantil.
“A figurinha funciona como ritual coletivo”, explica o antropólogo Marcelo Vieira, pesquisador de cultura popular.
“Ela cria pertencimento social, memória afetiva e aproxima diferentes gerações em torno do mesmo evento.”
Nos últimos anos, a relação emocional entre torcida e Seleção sofreu desgaste. Parte da população passou a enxergar a camisa da equipe nacional associada a disputas políticas e polarização social, o que afastou torcedores históricos do ambiente da Seleção.
Agora, a chegada de Carlo Ancelotti, a expectativa pela convocação final e o surgimento de uma nova geração de jogadores ajudam a reconstruir parte dessa conexão.
“A Copa sempre funcionou como um raro momento de identidade coletiva brasileira”, afirma o sociólogo Rafael Menezes.
“Mesmo em períodos de crise política ou econômica, ela reorganiza temporariamente o imaginário social do país.”
Embora o torneio ainda não tenha começado, bares, restaurantes e lojas esportivas já acompanham o aumento gradual da expectativa em torno da competição. Empresários do setor afirmam que a proximidade da Copa costuma impulsionar vendas de televisores, camisas, decoração temática e reservas para transmissões dos jogos.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), grandes eventos esportivos historicamente movimentam setores ligados a alimentação, turismo, vestuário e entretenimento.
Mas talvez o impacto mais profundo da Copa continue sendo emocional.
Porque no Brasil, o Mundial altera rotina, ocupa conversas, cria memória coletiva e transforma o humor social do país por algumas semanas.
Para muitas crianças, inclusive, esta será a primeira Copa vivida com consciência plena depois da pandemia.
“Meu filho nunca tinha vivido esse clima de trocar figurinha na escola”, conta a auxiliar administrativa Juliana Freitas, mãe de um menino de oito anos.
“Agora ele chega em casa falando da Seleção todos os dias.”
Enquanto crianças disputam figurinhas repetidas nos corredores das escolas e famílias começam a organizar a rotina para acompanhar os jogos da Seleção, o Brasil volta lentamente a experimentar um dos poucos rituais coletivos capazes de unir diferentes gerações em torno da mesma emoção.