Ebola volta ao radar global e hantavírus assusta passageiros: o Brasil corre risco?

Ebola volta ao radar global e hantavírus assusta passageiros: o Brasil corre risco?
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 19 de maio de 2026 0

O anúncio da Organização Mundial da Saúde (OMS) reacendeu um medo que marcou o imaginário global na última década: o Ebola voltou a preocupar autoridades sanitárias internacionais. O alerta foi emitido após novos casos da variante Bundibugyo serem registrados na República Democrática do Congo e em Uganda, com mortes confirmadas, casos suspeitos e ausência de vacina específica aprovada para essa cepa.

Ao mesmo tempo, outro vírus menos conhecido entrou no radar brasileiro após casos ligados a um cruzeiro turístico na América do Sul: o hantavírus. Apesar da repercussão, o Ministério da Saúde informou que o episódio não representa risco de disseminação em massa no país. Em 2026, o Brasil registrou até agora sete casos de hantavirose e um óbito.

A combinação dos dois episódios reacendeu um fenômeno já conhecido por especialistas em saúde pública:
o medo coletivo de novas pandemias.

Principalmente após a Covid-19.

“O trauma social da pandemia ainda está muito vivo”, explica a infectologista Ana Paula Ribeiro.

“Hoje qualquer notícia envolvendo vírus graves produz reação imediata porque a população passou a enxergar surtos internacionais de outra forma.”

Mas especialistas afirmam que, apesar do alerta internacional, o cenário atual está longe de representar uma pandemia global.

A própria OMS classificou o episódio envolvendo o Ebola como emergência sanitária internacional, mas não como pandemia.

A diferença é importante.

Uma emergência internacional significa que existe risco relevante de disseminação e necessidade de coordenação global entre países. Já a pandemia ocorre quando há transmissão sustentada em diversos continentes simultaneamente.

No caso do Ebola, o principal fator de preocupação é a alta taxa de mortalidade da doença, que pode chegar a 50% em alguns surtos, segundo dados históricos da OMS. O vírus é transmitido por contato direto com fluidos corporais contaminados, o que dificulta disseminação aérea em larga escala, como ocorreu com a Covid-19.

Além disso, o atual surto envolve a variante Bundibugyo, que ainda não possui vacina específica aprovada internacionalmente.

Mesmo assim, especialistas brasileiros avaliam que o risco imediato para a população do país é considerado baixo.

“O Brasil possui protocolos sanitários, vigilância epidemiológica e capacidade de monitoramento muito superiores aos observados em países com sistemas frágeis de saúde”, afirma o epidemiologista Marcelo Siqueira.

Segundo ele, o principal desafio não é gerar pânico, mas manter vigilância.

“O maior erro em momentos como esse é tanto minimizar quanto exagerar o cenário.”

Enquanto isso, o hantavírus desperta outro tipo de preocupação.

Muito menos conhecido do público, o vírus é transmitido principalmente pelo contato com fezes, urina ou saliva de roedores contaminados. A infecção pode ocorrer quando partículas contaminadas se espalham no ar em ambientes fechados, galpões, áreas rurais ou locais sem ventilação adequada.

No Brasil, os casos permanecem considerados raros. Dados do Ministério da Saúde apontam sete registros confirmados em 2026 até agora, com um óbito.

A doença, porém, chama atenção pela gravidade. Em muitos pacientes, a hantavirose pode provocar insuficiência respiratória aguda e evolução rápida do quadro clínico.

“O hantavírus não possui potencial pandêmico semelhante ao coronavírus”, explica a médica sanitarista Luciana Prado.

“Mas ele exige atenção porque apresenta alta letalidade e costuma ser subdiagnosticado.”

Especialistas afirmam que a sociedade atual passou a viver em estado permanente de alerta sanitário desde 2020. O impacto psicológico da Covid-19 alterou a percepção coletiva sobre doenças infecciosas, viagens internacionais e surtos epidemiológicos.

Hoje, palavras como “surto”, “emergência sanitária” e “vírus” produzem reações emocionais imediatas nas redes sociais e no consumo de informação.

A velocidade digital também acelera o medo.

Vídeos alarmistas, cortes fora de contexto e informações sem confirmação científica frequentemente circulam antes mesmo das orientações oficiais de autoridades sanitárias.

Por isso, infectologistas reforçam a necessidade de diferenciar vigilância de pânico.

No caso do Ebola, a recomendação internacional é monitoramento de viajantes, fortalecimento da vigilância sanitária e acompanhamento de possíveis sintomas em pessoas vindas de áreas afetadas.

Já no caso do hantavírus, especialistas orientam evitar contato com fezes de roedores, manter ambientes ventilados e redobrar cuidados em áreas rurais ou locais fechados por longos períodos.

“O mundo pós-pandemia ficou mais atento aos riscos sanitários, e isso é positivo”, afirma Ana Paula Ribeiro.

“O problema começa quando medo substitui informação.”

Para especialistas, o cenário atual ainda está distante de uma nova crise sanitária global. Mas ele revela uma transformação importante da sociedade contemporânea:
depois da Covid-19, o planeta passou a viver permanentemente atento à possibilidade da próxima emergência epidemiológica.

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