O Brasil começa a rediscutir o papel do pai dentro de casa — e isso pode mudar o comportamento de uma geração

O Brasil começa a rediscutir o papel do pai dentro de casa — e isso pode mudar o comportamento de uma geração
Nova lei amplia licença-paternidade e reacende debate sobre masculinidade, cuidado emocional e divisão de responsabilidades dentro das famílias brasileiras. Especialistas apontam que mudança pode transformar comportamento social das próximas gerações.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 19 de maio de 2026 0

Às 3h17 da madrugada, o administrador Rafael Mendes, de 32 anos, caminhava pela sala do apartamento segurando a filha recém-nascida nos braços enquanto tentava entender por que ela não parava de chorar.

Na cozinha, mamadeiras ainda estavam espalhadas sobre a pia. A esposa dormia pela primeira vez em quase vinte horas depois de um parto exausto. Do lado de fora, Goiânia seguia silenciosa.Por décadas, a cena provavelmente terminaria da mesma forma para milhões de homens brasileiros: o pai voltaria ao trabalho poucos dias depois do nascimento da criança, enquanto a mulher permaneceria quase sozinha administrando exaustão, medo, recuperação física e maternidade.

Mas naquela madrugada, Rafael sabia que alguma coisa havia mudado.“Meu pai saiu para trabalhar praticamente no dia seguinte ao meu nascimento. Ele sempre dizia que precisava cumprir o papel dele. Eu cresci achando que pai era isso: alguém que provia, mas não necessariamente alguém que estava ali”, conta.

Agora, com a regulamentação da Lei 15.371/2026, o Brasil começa a reorganizar oficialmente uma das estruturas mais silenciosas da sociedade brasileira: a ideia do que significa ser pai. A nova legislação ampliou gradualmente a licença-paternidade, criou o salário-paternidade e estabeleceu garantias trabalhistas para pais biológicos, adotivos e famílias em situação de vulnerabilidade social. A licença, que historicamente era de apenas cinco dias para trabalhadores formais, poderá chegar gradualmente a 20 dias, com remuneração integral e estabilidade provisória no emprego.

A mudança parece pequena no papel. Mas especialistas afirmam que ela atinge diretamente uma das maiores transformações comportamentais da sociedade brasileira nas últimas décadas: a reconstrução da masculinidade.

“A licença-paternidade de cinco dias sempre foi um símbolo muito forte da cultura brasileira”, explica a socióloga Helena Duarte, pesquisadora de relações familiares.

“O Estado dizia implicitamente que a mãe era indispensável para o cuidado. O pai, não.”

Os números ajudam a entender o tamanho da mudança.Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados da casa e de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Entre mães de crianças pequenas, a diferença aumenta ainda mais.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui mais de 11 milhões de mães solo, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), realidade que expõe uma cultura histórica de ausência paterna emocional e estrutural.

Mas a transformação das famílias brasileiras começou a acelerar nos últimos anos.

Dados do IBGE mostram crescimento da participação masculina nas tarefas domésticas, aumento da presença de pais em consultas pediátricas e maior envolvimento masculino na rotina infantil. Em paralelo, pesquisas do Datafolha apontam que homens entre 25 e 40 anos demonstram maior preocupação com saúde mental, vínculo afetivo familiar e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Para o psicólogo social Renato Tavares, a mudança não acontece apenas na legislação. Ela acontece dentro da percepção masculina.“Existe uma geração inteira de homens que aprendeu que amar significava sustentar”, afirma.“Só que as novas gerações começaram a questionar isso.”O debate ganhou força justamente em um momento em que o Brasil vive uma epidemia silenciosa de exaustão emocional.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) colocam o Brasil entre os países com maiores índices de ansiedade do mundo. Ao mesmo tempo, o ambiente digital intensificou pressões ligadas à produtividade, desempenho profissional e validação social constante.

Especialistas afirmam que isso atingiu diretamente o comportamento masculino.

“O homem brasileiro foi historicamente treinado para performar força emocional o tempo inteiro”, explica Helena Duarte.

“Mas a sociedade começou a exigir presença emocional além da capacidade financeira.”

A mudança acompanha movimentos internacionais.

Na Suécia, pais possuem até 240 dias de licença compartilhada garantida pelo Estado. Na Islândia, parte da licença parental obrigatoriamente pertence ao pai. Estudos europeus apontam redução de depressão pós-parto materna, fortalecimento do vínculo infantil e melhora nos indicadores de saúde emocional familiar quando existe participação paterna contínua nos primeiros meses de vida.

No Brasil, porém, a discussão carrega uma camada cultural própria.

Isso porque o país ainda convive com uma estrutura emocional profundamente desigual dentro das famílias.

Por décadas, maternidade significou:
trabalho,
cuidado doméstico,
gestão emocional da casa
e responsabilidade quase integral pelos filhos.

Agora, especialistas avaliam que a nova licença-paternidade pode iniciar uma mudança simbólica importante: a ideia de que cuidado também é responsabilidade masculina.

Mas eles alertam que leis mudam mais rápido do que comportamento.

“A legislação abre espaço”, diz Renato Tavares.

“Mas muitos homens ainda não foram ensinados emocionalmente a ocupar esse lugar.”

Na prática, a nova política pública acaba expondo uma pergunta muito maior do que o debate trabalhista:

o que a sociedade brasileira espera emocionalmente dos homens nas próximas décadas?

Na madrugada em que segurava a filha pela sala escura do apartamento, Rafael percebeu algo que não havia entendido antes do nascimento dela.

“Eu achava que ser pai era garantir segurança”, diz.

Ele faz uma pausa antes de concluir.

“Agora eu acho que talvez seja também aprender a permanecer.”

 

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