Gorgonzola chega a R$ 116 o quilo e impulsiona valorização dos queijos artesanais brasileiros

Gorgonzola chega a R$ 116 o quilo e impulsiona valorização dos queijos artesanais brasileiros
Queijos azuis artesanais e gorgonzola dividem espaço em empórios brasileiros, refletindo o avanço da gastronomia premium e a valorização da produção nacional.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 26 de maio de 2026 1

Tradicional queijo azul italiano voltou ao centro da gastronomia brasileira em 2026. Alta nos preços, crescimento dos empórios e premiações internacionais ampliaram o interesse pelos queijos artesanais nacionais.

O queijo gorgonzola, conhecido pelo sabor intenso, textura cremosa e veios azulados produzidos por fungos específicos, atravessou séculos da gastronomia italiana até se tornar um dos produtos mais valorizados nos empórios e supermercados brasileiros. Em 2026, além de ocupar espaço crescente em restaurantes, tábuas gourmet e receitas sofisticadas, o queijo também passou a simbolizar uma mudança maior no mercado nacional: a valorização dos queijos artesanais brasileiros.

Originário das regiões da Lombardia e Piemonte, no norte da Itália, o gorgonzola tradicional possui denominação de origem protegida na Europa. Isso significa que apenas produtos fabricados em áreas específicas italianas podem utilizar oficialmente o nome “Gorgonzola”. No Brasil, porém, o termo ainda aparece amplamente associado a queijos azuis produzidos nacionalmente, embora exista debate crescente sobre nomenclatura e identidade dos produtos artesanais brasileiros.

Nos supermercados brasileiros, o preço elevado ajuda a explicar por que o queijo virou item de consumo mais restrito. Levantamentos em redes varejistas e empórios mostram que o quilo do gorgonzola pode variar entre R$ 79,99 e R$ 116,99 dependendo da marca, da maturação e da região do país.

Em Palmas, estabelecimentos especializados consultados pela reportagem registraram peças fracionadas entre R$ 18 e R$ 30 em embalagens menores. Em Araguaína e Colinas do Tocantins, comerciantes apontam crescimento na procura principalmente em períodos de datas comemorativas, quando o queijo passa a integrar tábuas, massas, risotos e hambúrgueres artesanais.

A valorização do produto acompanha uma transformação do próprio mercado gastronômico brasileiro. Nos últimos anos, produtores nacionais começaram a conquistar espaço em concursos internacionais e festivais especializados. O chamado “queijo azul brasileiro” passou a ganhar reconhecimento entre especialistas, principalmente em Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Eventos como o Prêmio Queijo Brasil e o Mundial do Queijo do Brasil ampliaram a visibilidade dos produtores artesanais nacionais. Em 2026, concursos reuniram centenas de produtores e consolidaram o Brasil como um dos mercados emergentes mais observados no setor de queijos especiais.

O crescimento da produção artesanal também alterou a percepção do consumidor. Durante décadas, o queijo fino europeu era tratado como símbolo quase exclusivo de sofisticação gastronômica. Hoje, especialistas observam uma mudança cultural: consumidores passaram a procurar produtos com identidade regional, leite cru, maturação própria e características brasileiras.

Queijos artesanais produzidos em Minas Gerais, na Serra da Canastra, no Sul do país e em pequenas fazendas familiares começaram a disputar espaço diretamente com produtos importados. Alguns já acumulam medalhas em concursos nacionais e internacionais.

Além da qualidade, o preço também influencia essa mudança. A alta do dólar encareceu produtos importados e abriu espaço para alternativas nacionais de padrão premium. Com isso, pequenos produtores brasileiros ampliaram presença em empórios, mercados gourmet e restaurantes especializados.

Segundo comerciantes ouvidos pela reportagem, o consumidor brasileiro também passou a demonstrar mais curiosidade sobre origem, maturação e métodos de produção. O movimento acompanha tendência global de valorização de alimentos artesanais e produtos ligados ao conceito de terroir — expressão usada para definir alimentos influenciados pelas características geográficas e culturais da região onde são produzidos.

Hoje, o debate sobre o gorgonzola ultrapassa a gastronomia. O queijo se tornou símbolo de uma disputa maior entre tradição europeia, identidade regional e valorização da produção brasileira. Enquanto o produto italiano mantém prestígio histórico, produtores nacionais começam a construir uma nova reputação internacional baseada em originalidade, técnica e diversidade.

O resultado aparece no mercado: o queijo azul deixou de ser apenas um produto importado sofisticado e passou a representar uma nova fase da gastronomia brasileira — mais autoral, regionalizada e competitiva no cenário internacional.

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