De “cringe” a “tankar”: o que as gírias revelam sobre as transformações da língua portuguesa
Termos populares entre jovens costumam gerar críticas de adultos, mas especialistas afirmam que mudanças fazem parte da evolução natural dos idiomas
Basta uma conversa entre adolescentes para que muitos adultos se sintam em um país estrangeiro. Expressões como “cringe”, “tankar”, “shape”, “aura”, “six seven”, “faria limer” ou “amassou” circulam diariamente nas escolas, redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes provocando estranhamento entre pais, professores e até linguistas mais conservadores.
A cada nova geração, surge a sensação de que a língua portuguesa está mudando rápido demais. O fenômeno não é novo. Ao longo da história, praticamente todas as gerações acreditaram que os jovens estavam “falando errado” ou contribuindo para o empobrecimento da linguagem.
Mas o que a ciência diz sobre isso?
Para especialistas, as gírias estão longe de representar uma ameaça ao português. Na verdade, elas ajudam a explicar como a língua evolui e se adapta às transformações culturais e sociais.
Segundo a professora de Linguística Midian Rebeca Justino de Araújo, do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, em Recife, a variação linguística é uma característica natural de qualquer idioma vivo.
“A língua muda porque a sociedade muda. As gírias surgem como formas de identificação entre grupos e refletem experiências compartilhadas por uma geração. Elas não representam uma ameaça ao idioma, mas uma demonstração de que ele continua vivo e em transformação”, explica.
Muito além das palavras
O surgimento de novas expressões não está relacionado apenas à comunicação.
Para estudiosos da Sociolinguística, área que investiga as relações entre língua e sociedade, as gírias também funcionam como mecanismos de pertencimento social.
Quando um adolescente utiliza determinada expressão, ele não está apenas transmitindo uma informação. Está demonstrando que faz parte de um grupo, compartilha referências culturais específicas e reconhece códigos utilizados por pessoas da mesma faixa etária.
Foi assim com expressões como “maneiro”, “legal”, “massa”, “show”, “top”, “da hora” e tantas outras que hoje parecem perfeitamente normais, mas que em algum momento também foram vistas com desconfiança.
“O uso das gírias está diretamente ligado à construção de identidade. É uma maneira de os jovens se diferenciarem de outras gerações e criarem formas próprias de interação”, afirma Midian.
A influência da internet
Se antes as mudanças linguísticas levavam décadas para se espalhar, hoje elas podem atravessar o país em questão de dias.
As redes sociais aceleraram a circulação de novas palavras e expressões. Plataformas como TikTok, Instagram, YouTube e X transformaram criadores de conteúdo em verdadeiros disseminadores de vocabulário.
Expressões originalmente usadas em comunidades específicas passam rapidamente a integrar o cotidiano de milhões de pessoas.
A influência do inglês também se tornou mais evidente. Termos como “cringe”, “random”, “cancelado”, “spoiler” e “stalkear” são exemplos de palavras estrangeiras incorporadas ao português por meio da cultura digital.
Escola e norma-padrão
A expansão das gírias, no entanto, não elimina a importância do ensino da norma-padrão.
Especialistas defendem que o papel da escola é ensinar os estudantes a compreender diferentes contextos de comunicação e utilizar a linguagem adequada para cada situação.
Em uma conversa informal, a gíria pode cumprir perfeitamente sua função comunicativa. Já em provas, documentos oficiais, entrevistas de emprego ou textos acadêmicos, espera-se o domínio da norma culta.
“O desafio não é combater as gírias. É ensinar os estudantes a transitarem entre diferentes registros linguísticos de forma consciente e adequada”, observa a professora.
Uma língua em movimento
A história mostra que nenhuma língua permanece estática.
Palavras surgem, desaparecem, mudam de significado e são substituídas ao longo dos séculos. O português falado hoje é profundamente diferente daquele utilizado há cem ou duzentos anos.
Para os linguistas, esse processo não representa decadência, mas adaptação.
No fim das contas, expressões como “cringe” ou “tankar” talvez revelem menos sobre os jovens e mais sobre a própria vitalidade da língua portuguesa. Afinal, idiomas sobrevivem justamente porque conseguem mudar sem perder sua identidade.
LEGENDA: Gírias populares entre jovens ajudam especialistas a compreender as transformações da língua portuguesa.
CRÉDITO FOTO: Divulgação/Mackenzie Agnes.