Portelinhando Crônicas: Quando nem todos pagam o mesmo preço
Nas veredas escuras da política, há nomes que pesam mais que mandatos e circunstâncias que fazem a palavra “renúncia” soar menos como queda e mais como cálculo. Jaques Wagner deixa a liderança do governo no Senado não apenas por uma decisão pessoal, mas porque a República, essa velha senhora de moral variável, exige, às vezes, que o aliado recue para que o desgaste não se espalhe como febre.
Há sempre um cheiro de pátio molhado quando a política tenta se lavar em público. Falam em “comum acordo”, como se o acordo apagasse a sombra, como se a liturgia do poder pudesse transformar suspeita em prudência. Mas o que se vê, no fundo, é a delicada engenharia dos que governam sob pressão: retiram uma peça para evitar o colapso da estrutura, embora saibam que a rachadura continua na parede.
No caso Master, mais do que um episódio, há um símbolo. A engrenagem financeira toca a engrenagem política e, entre ambas, o cidadão comum observa, outra vez, a velha coreografia da influência, da defesa, do silêncio e do desgaste. Wagner sai da liderança, Lula recalcula a rota, e o país segue assistindo ao seu teatro de sombras, onde cada gesto público parece dizer menos do que esconde.
E a política brasileira, sempre apaixonada por suas próprias ironias, nos lembra que ninguém abandona o centro do palco sem antes negociar a posição das luzes.
Enquanto isso, a opinião pública assiste a um paradoxo recorrente: alguns deixam cargos para conter o desgaste, enquanto outros, citados pela imprensa em investigações, suspeitas ou controvérsias, parecem atravessar as tempestades políticas com uma espécie de imunidade institucional.
Na República das conveniências, nem todos carregam o mesmo peso, nem todos pagam o mesmo preço, e nem toda sombra produz o mesmo escândalo.
A impressão que se instala na sociedade é a de que nem todos os citados ou envolvidos em episódios de grande repercussão são submetidos ao mesmo rigor investigativo, às mesmas medidas cautelares ou à mesma exposição pública.
É justamente essa percepção de tratamento desigual que alimenta a desconfiança nas instituições e faz emergir uma pergunta incômoda: estaríamos, de alguma forma, revivendo práticas que marcaram períodos anteriores da vida política brasileira, em que acusações de seletividade e de diferentes pesos e medidas passaram a ocupar o centro do debate nacional?
Não se trata de absolver uns ou condenar outros antes do devido processo legal. Trata-se de algo mais profundo: a necessidade de que a lei, para conservar sua legitimidade, seja vista como igual para todos.
Porque uma democracia começa a adoecer quando seus cidadãos passam a acreditar que a régua da Justiça se estende ou se encurta conforme o nome, o cargo ou a conveniência do momento.
E talvez seja essa a maior inquietação do presente: não a queda de um homem, nem a renúncia de outro, mas a sensação crescente de que, na política brasileira, as tempestades não atingem todos os telhados com a mesma força.