Espetáculo criado no Tocantins ganha reconhecimento nacional em catálogo do Ministério da Cultura
Grupo Vozes de Ébano tem obra selecionada entre as boas práticas da Lei Aldir Blanc e participa de seminário que avaliou os resultados da política cultural no Brasil
Uma produção artística nascida no Tocantins passou a integrar um seleto conjunto de iniciativas apontadas como referência nacional na execução da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). O espetáculo “Minha Voz é Resistência”, do grupo Vozes de Ébano, foi escolhido para compor o catálogo de Boas Práticas da Lei Aldir Blanc, elaborado em parceria entre o Ministério da Cultura e pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O reconhecimento levou o grupo ao I Seminário de Avaliação de Resultados da Política Nacional Aldir Blanc, realizado nos dias 30 de junho e 1º de julho, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu gestores públicos, pesquisadores, agentes culturais e representantes da sociedade civil para discutir os resultados do primeiro ciclo da maior política pública de financiamento à cultura em vigor no país.
Representando o Tocantins, a cantora, atriz e produtora cultural Fran Santos participou das atividades como convidada do Ministério da Cultura, levando ao debate a experiência desenvolvida pelo Vozes de Ébano na construção e circulação do espetáculo.
Mais do que uma homenagem, a participação colocou a produção cultural tocantinense em evidência nacional ao apresentar um projeto desenvolvido fora dos grandes centros culturais brasileiros e reconhecido pelo impacto artístico e social alcançado junto às comunidades.
Cultura como política pública
Instituída para fortalecer o financiamento contínuo da cultura, a Política Nacional Aldir Blanc prevê repasses permanentes da União para estados e municípios desenvolverem editais, projetos e ações voltadas ao setor cultural.
Durante o seminário, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia apresentaram estudos sobre os impactos da política em diferentes regiões brasileiras. O objetivo foi analisar como os recursos chegaram aos territórios, quais experiências obtiveram melhores resultados e de que forma o investimento público contribuiu para ampliar o acesso à cultura e fortalecer artistas, coletivos e grupos tradicionais.
Foi nesse contexto que “Minha Voz é Resistência” passou a integrar o catálogo nacional de boas práticas, documento que reúne iniciativas consideradas exemplos da capacidade transformadora da política cultural.
Além da seleção, o processo de criação do espetáculo e a trajetória do Vozes de Ébano também foram registrados em um vídeo institucional exibido durante o evento, ampliando a visibilidade nacional do trabalho desenvolvido pelas artistas tocantinenses.
Arte, identidade e memória
Criado pelas artistas Cinthia Abreu, Fran Santos e Malusa, o espetáculo reúne música, teatro, poesia e narrativas que dialogam com ancestralidade, identidade negra e protagonismo feminino.
Ao longo da montagem, as artistas abordam experiências relacionadas ao racismo estrutural, à memória das mulheres negras brasileiras e à valorização das heranças culturais afro-brasileiras. A proposta combina linguagem cênica e musical para provocar reflexão sobre desigualdade, pertencimento e resistência.
Para Fran Santos, o reconhecimento nacional demonstra o alcance das políticas públicas quando conseguem chegar aos territórios.
“Estar nesse evento, representando o Vozes de Ébano e o Tocantins, foi muito simbólico. Ver esse trabalho reconhecido como boa prática da Lei Aldir Blanc mostra que a política pública, quando chega na ponta, transforma realidades e fortalece trajetórias que muitas vezes foram invisibilizadas”, afirmou.
A cantora, atriz, jornalista e produtora cultural Cinthia Abreu destacou que o reconhecimento ultrapassa a conquista artística e representa também a valorização da produção cultural realizada fora dos grandes centros.
“Quando um trabalho feito por mulheres negras do Tocantins passa a integrar um catálogo nacional de boas práticas, isso mostra que nossa produção tem qualidade, impacto social e capacidade de dialogar com todo o país. A política pública permitiu estruturar esse espetáculo e ampliar seu alcance”, disse.
Já a artista Malusa ressaltou o caráter coletivo da homenagem.
“Esse reconhecimento pertence também às mulheres negras que se identificam com nossa arte e enxergam nela suas próprias histórias. Estar nesse catálogo significa ocupar espaços que durante muito tempo nos foram negados.”
Visibilidade para a produção cultural brasileira
Embora o reconhecimento tenha sido concedido a um grupo tocantinense, a iniciativa também evidencia um dos objetivos centrais da Política Nacional Aldir Blanc: descentralizar os investimentos públicos e ampliar a visibilidade da produção cultural desenvolvida em diferentes regiões do país.
Ao reunir experiências consideradas bem-sucedidas, o catálogo de Boas Práticas deverá servir como referência para estados e municípios na formulação de novos projetos culturais, contribuindo para fortalecer ações voltadas à diversidade, à inclusão e ao acesso à cultura.
Para o Vozes de Ébano, a participação no seminário nacional representa um marco na trajetória do grupo e amplia a circulação de uma obra que utiliza arte, memória e identidade como instrumentos de transformação social, reafirmando o papel da cultura como direito e como ferramenta de fortalecimento da cidadania.