Flávio corre para conter tarifa dos EUA após crise ganhar dimensão eleitoral

Flávio corre para conter tarifa dos EUA após crise ganhar dimensão eleitoral
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 9 de julho de 2026 0

Senador pede adiamento de sobretaxa de 25% proposta por Washington, mas atuação ocorre em meio a críticas e disputa política no Brasil

A tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de convencer o governo dos Estados Unidos a adiar a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros colocou o parlamentar no centro de uma disputa que ultrapassa a área econômica e ganhou contornos eleitorais. Em audiência realizada em Washington, o pré-candidato à Presidência defendeu que a medida seja suspensa por 180 dias, alegando que a cobrança poderia interferir no ambiente político brasileiro às vésperas das eleições de outubro.

A movimentação ocorre após o governo norte-americano abrir uma investigação comercial baseada na Seção 301 da legislação dos Estados Unidos, mecanismo utilizado para apurar supostas práticas comerciais consideradas desleais. Entre os argumentos apresentados por Washington estão questionamentos relacionados ao sistema brasileiro de pagamentos Pix, ao desmatamento ilegal e a políticas comerciais adotadas pelo Brasil. A decisão definitiva sobre a tarifa está prevista para 15 de julho.

Ao defender o adiamento da medida, Flávio afirmou que uma decisão antes das eleições poderia ser interpretada como interferência política e fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provável adversário na disputa presidencial. Em documento entregue às autoridades norte-americanas, o senador sustentou que o cenário político brasileiro será redefinido após o pleito e pediu que qualquer decisão seja tomada somente depois da eleição.

A iniciativa, entretanto, passou a receber críticas de adversários e também de especialistas em relações internacionais. Um dos principais questionamentos é que o senador foi aos Estados Unidos pedir o adiamento da tarifa, e não sua retirada definitiva. Outro ponto levantado é que a estratégia concentra o debate na conveniência política da medida, em vez de priorizar exclusivamente seus impactos econômicos sobre empresas e trabalhadores brasileiros.

Pressão política amplia desgaste

A viagem de Flávio Bolsonaro acontece em um momento de forte polarização entre governo e oposição. O presidente Lula afirmou que a família Bolsonaro contribuiu para deteriorar a relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos e classificou como inadequada a tentativa de discutir o tema diretamente com autoridades norte-americanas. Flávio rejeita essa acusação e afirma que trabalha justamente para impedir que as tarifas sejam implementadas.

Pesquisa citada pela Reuters mostra que 47% dos brasileiros concordam com a avaliação de Lula de que o grupo político ligado aos Bolsonaro ajudou a desencadear a crise comercial, enquanto 35% acreditam na versão apresentada por Flávio, segundo a qual sua atuação busca evitar prejuízos ao país.

Durante a audiência em Washington, o senador também defendeu o Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, citado na investigação comercial norte-americana. Flávio afirmou que a ferramenta representa uma inovação financeira e não deveria ser tratada como prática comercial desleal.

Embora produtos como carne bovina, café, terras raras e peças aeronáuticas tenham ficado fora da proposta inicial de sobretaxa, diversos setores da indústria brasileira acompanham com preocupação o desfecho da investigação. Caso a tarifa seja confirmada, segmentos exportadores poderão enfrentar aumento de custos e perda de competitividade no mercado americano.

Com a decisão prevista para os próximos dias, a discussão sobre a tarifa deixou de ser apenas um tema de comércio exterior. Ela passou a integrar o debate eleitoral de 2026, colocando Flávio Bolsonaro diante do desafio de convencer tanto o governo norte-americano quanto o eleitor brasileiro de que sua articulação em Washington poderá produzir resultados concretos para a economia nacional.

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