Estudo com professor Marcos Gontijo, da UFT, aponta 70% de remissão em leucemia agressiva e reforça CAR-T como ponte para transplante
Um estudo internacional com a participação do professor Marcos Gontijo da Silva, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), apontou que a terapia com células CAR-T pode provocar remissão completa em mais de 70% dos pacientes com leucemia linfoblástica aguda. A tecnologia também pode criar uma janela decisiva para a realização do transplante de medula óssea, aumentando as possibilidades de sucesso do procedimento.
Publicada em 14 de julho de 2026 na revista científica Future Pharmacology, a pesquisa reuniu dados de 35 estudos realizados em países como Estados Unidos, China, Reino Unido, Japão, Itália, Vietnã e Turquia. Ao todo, foram avaliados 1.313 pacientes submetidos à imunoterapia CAR-T.
A leucemia linfoblástica aguda, conhecida pela sigla LLA, é um câncer agressivo que afeta o sangue e a medula óssea. A doença provoca a produção descontrolada de células imaturas, chamadas linfoblastos, que ocupam o espaço das células sanguíneas saudáveis e comprometem a capacidade do organismo de combater infecções, transportar oxigênio e controlar sangramentos.
Embora crianças apresentem melhores índices de resposta aos tratamentos convencionais, a doença possui prognóstico mais delicado entre adultos, principalmente nos casos em que retorna após o tratamento ou não responde à quimioterapia. O artigo destaca que a sobrevivência geral em cinco anos entre adultos raramente ultrapassa 40%, enquanto nos pacientes pediátricos pode superar 90%.
Tecnologia modifica células do próprio paciente
A terapia CAR-T utiliza células de defesa do próprio paciente, os linfócitos T. Essas células são retiradas do organismo e geneticamente modificadas em laboratório para receber um receptor capaz de reconhecer determinados marcadores presentes nas células cancerígenas.
Depois da modificação, os linfócitos são multiplicados e novamente introduzidos no paciente. A partir daí, passam a identificar e atacar as células da leucemia de maneira mais precisa.
“Eles manipulam geneticamente células do sistema imunológico da própria pessoa, chamadas linfócitos T. Depois, essas células alteradas são injetadas novamente no paciente para atacar o câncer”, explicou o professor Marcos Gontijo ao Diário Tocantinense.
Os principais alvos utilizados contra a leucemia linfoblástica aguda de células B são as proteínas CD19 e CD22, encontradas na superfície das células doentes.
Remissão completa em sete de cada dez pacientes
A análise estatística revelou uma taxa de remissão completa de 70,68%. Isso significa que, depois da aplicação da terapia, aproximadamente sete em cada dez pacientes deixaram de apresentar sinais detectáveis da leucemia pelos métodos convencionais de avaliação.
O estudo também apontou negatividade para doença residual mínima em 76,68% dos pacientes. A doença residual mínima representa a pequena quantidade de células cancerígenas que pode permanecer no organismo mesmo depois de uma aparente remissão.
Entre as estratégias analisadas, as células CAR-T de segunda geração apresentaram resultados superiores. A combinação dos alvos CD19 e CD22 alcançou taxa de remissão completa de 82,20%, o melhor desempenho observado na revisão.
Segundo Marcos Gontijo, a terapia consegue reduzir drasticamente a presença das células cancerígenas, especialmente durante as primeiras semanas após o tratamento.
“Ela reduz a quantidade de células do câncer a quase zero por um período. É o que chamamos de remissão completa, deixando apenas uma doença residual mínima”, afirmou.
Tratamento pode preparar paciente para transplante
Apesar dos resultados expressivos, os pesquisadores alertam que a terapia CAR-T não representa, isoladamente, uma garantia definitiva de cura. Parte dos pacientes pode apresentar novamente a doença depois de alguns meses ou anos, especialmente quando as células modificadas perdem sua capacidade de permanecer ativas no organismo.
Estudos anteriores também demonstram que, apesar das altas taxas iniciais de remissão, aproximadamente metade dos pacientes que respondem ao tratamento pode sofrer recaída dentro de um a dois anos.
O principal achado da nova pesquisa é que a CAR-T pode funcionar como uma ponte estratégica para o transplante de medula óssea. Ao reduzir a leucemia a níveis mínimos, a tecnologia permite que o paciente chegue ao transplante em condições mais favoráveis.
“Essa tecnologia cria um período em que a pessoa pode realizar um transplante de medula óssea com maior possibilidade de sucesso. A CAR-T funciona como um potente preparador para o transplante nesse tipo de câncer”, explicou Marcos Gontijo.
O transplante substitui a medula óssea doente por células-tronco saudáveis e pode oferecer uma resposta mais duradoura. No entanto, sua realização se torna mais difícil quando o organismo ainda apresenta uma grande quantidade de células cancerígenas.
Efeitos adversos exigem acompanhamento
A revisão também avaliou a segurança do tratamento. A síndrome de liberação de citocinas foi registrada em 46,81% dos pacientes. Essa reação acontece quando as células de defesa liberam grande quantidade de substâncias inflamatórias, podendo provocar febre, queda da pressão arterial e alterações respiratórias.
A neurotoxicidade apareceu em 23,52% dos casos. Entre as possíveis manifestações estão confusão mental, dificuldade para falar, tremores e alterações de consciência.
Segundo os pesquisadores, embora sejam relativamente frequentes, esses efeitos foram, na maioria das situações analisadas, reversíveis e controlados com acompanhamento médico especializado.
A avaliação realizada com a ferramenta ROBINS-I apontou boa qualidade metodológica na maior parte dos estudos incluídos. Pelo sistema GRADE, entretanto, a certeza geral das evidências foi classificada como moderada, indicando a necessidade de novas pesquisas e de acompanhamento dos pacientes por períodos mais longos.
Pesquisa reúne instituições do Tocantins
O artigo conta com pesquisadores ligados à UFT, Universidade Federal do Norte do Tocantins, Universidade de Gurupi, Hospital Regional de Gurupi, Universidade Federal Rural de Pernambuco e Centro Universitário de João Pessoa.
O professor Marcos Gontijo da Silva, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UFT, em Gurupi, aparece como autor correspondente da publicação.
Para os pesquisadores, os próximos avanços deverão se concentrar no aumento da permanência das células CAR-T no organismo, na redução das recaídas e no desenvolvimento de estratégias capazes de atacar simultaneamente diferentes marcadores do câncer.
Os resultados reforçam que a imunoterapia não deve ser tratada como uma cura automática, mas como uma ferramenta de alta relevância para pacientes com leucemia linfoblástica aguda, principalmente aqueles que já não respondem adequadamente aos tratamentos tradicionais.
“Esse foi o principal achado: a tecnologia consegue reduzir a doença ao mínimo e abrir uma oportunidade para que o transplante de medula seja realizado com maior possibilidade de sucesso”, concluiu Marcos Gontijo.