Portelinhando Crônicas: A Democracia Não Sobrevive de Suspeitas
A democracia é construída sobre um patrimônio invisível, mas indispensável: a confiança nas suas instituições. Quando essa confiança é corroída por acusações sem provas, não é apenas um tribunal que é atingido; é a própria legitimidade do voto popular.
O sistema eleitoral brasileiro não é perfeito, porque nenhuma obra humana o é. Mas possui mecanismos de fiscalização, auditoria e controle que vêm sendo aperfeiçoados ao longo de décadas. Questioná-lo faz parte do jogo democrático.
O que não fortalece a democracia é transformar conjecturas em certezas e suspeitas em discursos políticos.
Comparações apressadas entre o Brasil e outras realidades nacionais, sobretudo quando não acompanhadas de evidências concretas, pouco contribuem para o debate público.
Cada país possui a sua história, o seu ordenamento jurídico e as suas instituições. Importar desconfianças sem importar provas é um caminho perigoso.
Em uma República, quem formula acusações tem o dever de demonstrá-las. É um princípio elementar do Estado de Direito. A liberdade de expressão protege o direito de questionar, mas não dispensa a responsabilidade de fundamentar aquilo que se afirma, especialmente quando estão em causa instituições essenciais à democracia.
As urnas eletrônicas brasileiras já conduziram dezenas de eleições, permitindo alternâncias de poder entre governos de diferentes orientações ideológicas. Venceram candidatos da esquerda, do centro e da direita.
Esse histórico demonstra que o sistema não escolhe vencedores; quem os escolhe é o eleitor.
A democracia não exige unanimidade. Ela vive do contraditório, da crítica e do debate.
Mas há uma diferença fundamental entre fiscalizar as instituições e enfraquecê-las deliberadamente. A crítica responsável aperfeiçoa a democracia; a suspeição permanente, desacompanhada de provas, apenas alimenta a desconfiança social.
No fim de cada eleição, pode haver vencedores e vencidos. O único derrotado que um Estado democrático não pode aceitar é a confiança do cidadão no valor do seu voto.
É essa confiança que transforma um simples ato de apertar uma tecla na mais poderosa manifestação da soberania popular.