Condecoração, ataque e crise: Milei chama Moraes de “lixo”, STF reage e Michelle quase ignora Flávio
Presidente argentino recebeu a maior honraria de São Paulo antes de participar da convenção do PL; discurso provocou reação do Supremo e agravou a tensão diplomática entre Brasil e Argentina
A convenção nacional do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República terminou marcada por ataques ao Supremo Tribunal Federal, reação institucional, crise diplomática e sinais de que as divergências internas da família Bolsonaro ainda não foram completamente superadas.
Realizado no sábado, 25 de julho, na Arena Pacaembu, em São Paulo, o evento teve como principal convidado internacional o presidente da Argentina, Javier Milei. Durante um discurso inflamado, ele criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro e atacou diretamente o ministro Alexandre de Moraes.
Ao reclamar da decisão que impediu uma visita a Jair Bolsonaro, Milei chamou Moraes de “lixo careca”. O presidente argentino afirmou que a negativa seria mais uma demonstração do que considera perseguição contra o ex-presidente brasileiro.
A fala transformou a convenção partidária em um novo foco de tensão institucional. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, divulgou nota classificando a manifestação como desrespeitosa e incompatível com a civilidade que deve existir nas relações entre os países.
“Tomei conhecimento da declaração do presidente da Argentina sobre ministro do Supremo Tribunal Federal. Trata-se de referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do país, feita em solo brasileiro”, declarou Fachin.
O presidente do STF também reafirmou a autonomia do Poder Judiciário brasileiro e afirmou que a Corte deplora manifestações incompatíveis com o respeito esperado entre Estados soberanos.
Milei foi condecorado antes da convenção
Horas antes de subir ao palco do PL, Javier Milei foi recebido pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no Palácio dos Bandeirantes.
Durante a solenidade, Milei recebeu a Medalha da Ordem do Ipiranga, considerada a maior honraria concedida pelo Estado de São Paulo. A cerimônia contou com as presenças de Flávio Bolsonaro, do prefeito Ricardo Nunes e de Karina Milei, irmã do presidente argentino e secretária-geral da Presidência da Argentina.
A homenagem e o ataque ocorrido poucas horas depois provocaram forte repercussão. De um lado, o governo paulista concedeu sua principal condecoração ao presidente argentino. Do outro, Milei utilizou sua passagem pelo Brasil para atacar publicamente um ministro do Supremo.
Crise chega à diplomacia
As declarações também ultrapassaram os limites da disputa eleitoral. O governo brasileiro chamou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, após considerar as falas uma afronta ao presidente da República, ao Poder Judiciário e ao país.
A convocação de um embaixador para consultas é tratada diplomaticamente como um sinal de forte protesto. Milei também chamou Lula de “presidiário”, acusou o presidente brasileiro de representar um risco e afirmou esperar que ele seja derrotado nas urnas.
A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira, com ataques diretos a autoridades nacionais, ampliou o desgaste entre os governos de Brasil e Argentina.
Michelle não comparece e cita Flávio apenas uma vez
Outro ponto que chamou a atenção foi a ausência de Michelle Bolsonaro. Considerada uma das principais lideranças políticas e religiosas do campo conservador, a ex-primeira-dama não compareceu presencialmente ao evento que oficializou a candidatura do enteado.
Michelle enviou uma mensagem gravada, voltada principalmente ao público feminino. Durante toda a participação, mencionou Flávio diretamente apenas uma vez: “Flávio, que Deus abençoe e proteja sua candidatura”.
A ausência ocorreu após uma crise pública entre os dois. Flávio e Michelle haviam trocado críticas por meio de vídeos e declarações nas redes sociais. Dias antes da convenção, o senador pediu desculpas, e a ex-primeira-dama indicou que estava disposta a conversar e reconstruir a unidade familiar.
Apesar do gesto de apoio, a participação limitada de Michelle ganhou força política. Em uma convenção organizada para colocar Flávio no centro do projeto presidencial do PL, a ex-primeira-dama apareceu apenas por vídeo, falou principalmente às mulheres e reservou uma única menção nominal ao candidato.
Flávio tenta assumir o legado do pai
Durante seu discurso, Flávio Bolsonaro reforçou que pretende carregar o legado político do pai. Em tom emocionado, afirmou que possui “sangue de Bolsonaro” e prometeu defender propostas como redução de impostos e endurecimento no combate ao crime.
Jair Bolsonaro, que não esteve presencialmente no evento, apareceu em uma mensagem produzida com inteligência artificial. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também participou por meio de vídeo, enquanto Milei esteve no palco ao lado do candidato.
A convenção confirmou Flávio Bolsonaro como candidato, mas também expôs dificuldades que deverão acompanhá-lo durante a campanha. O senador ainda busca um nome para ocupar a vaga de vice e enfrenta resistência de partidos de centro, que decidiram manter distância da candidatura no primeiro turno.
O evento que deveria representar uma demonstração de força terminou dividido entre a oficialização de Flávio, o protagonismo internacional de Milei, a reação do STF, a crise com o governo argentino e a ausência de Michelle.
Flávio saiu da convenção oficialmente candidato à Presidência. No entanto, o episódio mostrou que, para consolidar seu nome, ainda terá de construir alianças, reduzir tensões familiares e impedir que apoiadores ocupem mais espaço no noticiário do que sua própria candidatura.