Quando a aposta vira doença: Saúde lança campanha nacional contra os danos provocados pelas bets
O Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online para alertar sobre os riscos do uso problemático das chamadas bets. A ação começou a ser divulgada na televisão, no rádio e nas redes sociais em meio ao início do Campeonato Brasileiro e à realização de grandes eventos esportivos.
A campanha chama atenção para situações em que a aposta deixa de ser entretenimento e passa a comprometer a saúde mental, o orçamento familiar, o trabalho, os estudos e as relações pessoais. O Governo Federal também divulga os serviços gratuitos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde para apostadores e familiares.
As plataformas de apostas ficam disponíveis durante 24 horas por meio do celular. Notificações, bônus, apostas em tempo real e promessas de ganhos rápidos estimulam o usuário a permanecer conectado e repetir o comportamento.
O psiquiatra Hermano Tavares, referência no tratamento do transtorno do jogo, compara essa facilidade à instalação de “um cassino em cada bolso”. Segundo o especialista, o acesso permanente aumenta o risco de dependência, principalmente entre pessoas emocionalmente fragilizadas, endividadas ou com histórico de outros transtornos.
O problema costuma começar quando a pessoa passa a apostar por mais tempo ou gastar valores acima do planejado. Depois das primeiras perdas, muitos jogadores fazem novas apostas acreditando que conseguirão recuperar o dinheiro, ampliando as dívidas e o sofrimento.
Entre os principais sinais de alerta estão a perda de controle, a irritabilidade, as alterações no sono, o isolamento, as mentiras sobre os valores gastos, a queda no rendimento profissional ou escolar e o uso de recursos destinados a despesas básicas.
O transtorno do jogo é reconhecido internacionalmente como uma doença relacionada ao comportamento aditivo. Em situações graves, o apostador deixa de pagar aluguel, alimentação, contas domésticas e compromissos familiares para continuar jogando.
O psiquiatra Rodrigo Machado, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, alerta que as apostas utilizam mecanismos altamente persuasivos para manter o usuário envolvido. Para o especialista, o enfrentamento precisa reunir prevenção, atendimento em saúde mental e maior controle sobre a publicidade das plataformas.
Crianças e adolescentes também preocupam especialistas. Embora menores de 18 anos não possam apostar legalmente, a presença constante das bets em jogos de futebol, transmissões esportivas, redes sociais e conteúdos de influenciadores contribui para normalizar esse comportamento.
O atendimento gratuito pode começar em uma Unidade Básica de Saúde. Após a avaliação inicial, o paciente poderá ser encaminhado para acompanhamento em um Centro de Atenção Psicossocial, com atendimento psicológico, médico, social e familiar.
O Meu SUS Digital também oferece uma área destinada a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O usuário pode responder a um questionário e, conforme o nível de risco identificado, ser encaminhado para teleatendimento especializado.
Familiares igualmente podem procurar ajuda, mesmo quando o apostador ainda não reconhece que perdeu o controle. Dívidas escondidas, pedidos frequentes de dinheiro, venda de bens e conflitos dentro de casa são sinais de que o problema já atingiu outras pessoas.
Outra ferramenta disponível é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda. Por meio dela, o cidadão pode solicitar o bloqueio de suas contas em plataformas autorizadas, impedir novos cadastros com o mesmo CPF e interromper o recebimento de publicidade direcionada.
A autoexclusão ajuda a limitar o acesso, mas não substitui o tratamento quando já existem dependência, ansiedade, depressão, endividamento ou prejuízos familiares.
A principal orientação da campanha é que aposta não deve ser tratada como investimento ou fonte de renda. Quanto mais cedo o problema for reconhecido, maiores são as possibilidades de controlar as perdas e recuperar a saúde financeira e emocional.