Manchas, sulcos e dentes frágeis: entenda o que é hipoplasia do esmalte e por que ela acontece

Manchas, sulcos e dentes frágeis: entenda o que é hipoplasia do esmalte e por que ela acontece
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 29 de julho de 2026 3

Manchas brancas, amareladas ou marrons, pequenos buracos, sulcos e irregularidades na superfície dos dentes podem ser sinais de hipoplasia do esmalte. A alteração acontece durante o período de formação dentária e pode atingir tanto os dentes de leite quanto os permanentes, causando sensibilidade, fragilidade, prejuízo estético e maior risco de desenvolvimento de cáries.

O esmalte é a camada externa que protege o dente. Na hipoplasia, ocorre uma falha na produção desse tecido, fazendo com que determinadas áreas tenham menor espessura ou até ausência parcial de esmalte. Por isso, o problema é classificado como um defeito quantitativo: o dente foi formado com uma quantidade insuficiente da estrutura protetora.

A condição pode aparecer como pontos, depressões, ranhuras ou faixas horizontais. Em quadros mais intensos, o formato do dente também pode ser alterado e parte da dentina, camada localizada abaixo do esmalte, pode ficar mais exposta. Os sinais podem estar presentes em apenas um elemento dentário ou atingir vários dentes ao mesmo tempo.

A coloração varia conforme a profundidade e a gravidade do defeito. Algumas pessoas apresentam manchas esbranquiçadas discretas, enquanto outras desenvolvem áreas amarelas, bege ou marrons. Também podem surgir regiões ásperas, porosas e mais suscetíveis a fraturas.

Informações apuradas pelo Diário Tocantinense mostram que nem toda mancha no dente é hipoplasia. O diagnóstico pode ser confundido com fluorose, cárie em estágio inicial, hipomineralização molar-incisivo, alterações provocadas por medicamentos ou amelogênese imperfeita. A avaliação deve considerar o aspecto da lesão, a quantidade de dentes atingidos, a localização das manchas e o histórico de saúde do paciente.

A fluorose, por exemplo, está relacionada à ingestão excessiva de flúor enquanto os dentes ainda estavam em formação e costuma afetar elementos que se desenvolveram no mesmo período. Já a mancha branca causada pela cárie aparece em razão da desmineralização provocada pelo biofilme bacteriano, sendo frequentemente observada próxima à gengiva e acompanhada de acúmulo de placa.

A hipoplasia não surge depois que o esmalte está completamente formado. O dano acontece durante a gestação, nos primeiros anos de vida ou no período de desenvolvimento dos dentes permanentes. Depois de concluída a formação do esmalte, ele não volta a crescer naturalmente. O tratamento protege a estrutura remanescente e corrige as consequências estéticas e funcionais, mas não faz o organismo produzir novamente o tecido que não foi formado.

As causas podem ser locais, sistêmicas ou hereditárias. Entre as causas locais estão traumatismos nos dentes de leite e infecções próximas às raízes. Uma queda ou pancada sofrida na infância pode atingir o germe do dente permanente que ainda está se formando dentro do osso, provocando manchas, depressões ou ausência de esmalte quando o novo dente nascer.

Quando vários dentes apresentam alterações semelhantes, o dentista também poderá investigar problemas ocorridos durante a gestação, no nascimento ou na infância. Prematuridade, baixo peso ao nascer, falta de oxigenação, deficiências nutricionais, doenças sistêmicas e determinadas infecções estão entre os fatores associados aos defeitos de desenvolvimento do esmalte.

Um estudo desenvolvido na Faculdade de Ciências do Tocantins, em Araguaína, pelas cirurgiãs-dentistas e pesquisadoras Lídia Regina da Costa Hidalgo e Angélica Feltrin dos Santos, com Weber Dutra de Carvalho Júnior e Edmarlem Gomes Alves, analisou um caso de hipoplasia em uma criança nascida após complicações gestacionais e parto próximo do período considerado prematuro.

Os pesquisadores identificaram lesões em forma de fóssulas e ranhuras em vários dentes de leite. O trabalho reforçou a associação entre prematuridade, partos difíceis e defeitos na formação do esmalte, além da necessidade de acompanhamento preventivo e tratamento restaurador individualizado.

“É importante que o cirurgião-dentista conheça a etiologia dos defeitos do desenvolvimento do esmalte para estabelecer o melhor plano de tratamento”, destacaram os autores no estudo realizado em Araguaína.

Outra pesquisa produzida com participação da Faculdade de Ciências do Tocantins aponta que os dentes hipoplásicos podem ficar mais vulneráveis à sensibilidade, ao desgaste e à cárie. As depressões e irregularidades favorecem a retenção de restos alimentares, placa bacteriana e microrganismos. Como o esmalte é mais fino ou está ausente em algumas áreas, os ácidos produzidos pelas bactérias encontram menor resistência para atingir as camadas internas do dente.

A hipoplasia também pode estar associada a doenças que prejudicam a absorção de nutrientes. Na doença celíaca, por exemplo, defeitos simétricos do esmalte podem aparecer nos dentes permanentes, principalmente incisivos e molares. Nesses casos, as alterações podem ser um dos sinais que levam dentistas e médicos a investigarem a condição gastrointestinal.

A forma hereditária deve ser considerada quando vários dentes, de leite e permanentes, apresentam alterações extensas e existe histórico semelhante na família. Nesses casos, o paciente pode ter amelogênese imperfeita, grupo de condições genéticas que interfere na formação, mineralização ou maturação do esmalte. Os dentes podem nascer pequenos, manchados, com sulcos, pouca espessura e tendência a desgaste ou quebra.

O tratamento depende da idade do paciente, da quantidade de dentes afetados, da profundidade das lesões, da sensibilidade e do comprometimento estético. Casos leves podem exigir apenas acompanhamento periódico, aplicação profissional de flúor, controle rigoroso da placa, uso de produtos para sensibilidade e medidas preventivas contra a cárie.

Quando existem sulcos ou depressões, o dentista poderá realizar o selamento das áreas retentivas. Manchas e defeitos superficiais podem ser tratados, conforme o diagnóstico, com microabrasão, infiltração resinosa ou procedimentos restauradores conservadores. Nos casos com perda de estrutura, as opções incluem restaurações em resina composta, cimento de ionômero de vidro, facetas ou coroas.

Nas crianças, a prioridade é preservar o máximo possível do tecido dentário e acompanhar o crescimento. Tratamentos definitivos podem ser adiados ou realizados em etapas, porque a boca, a gengiva e a posição dos dentes ainda passarão por mudanças. Casos mais graves podem necessitar de acompanhamento conjunto com odontopediatra, dentista especializado em restaurações, ortodontista e outros profissionais.

Não é recomendado tentar remover as manchas com produtos abrasivos, receitas caseiras, limão, bicarbonato ou substâncias clareadoras utilizadas sem orientação. Além de não reconstruírem o esmalte ausente, esses métodos podem aumentar o desgaste, a sensibilidade e a diferença de cor entre a área afetada e o restante do dente.

A avaliação deve ser procurada quando a mancha estiver presente desde o nascimento do dente, quando houver dor ao consumir alimentos frios ou quentes, fraturas frequentes, mudança rápida na coloração ou dificuldade para escovar determinada região. Quanto mais cedo o diagnóstico for realizado, maiores são as possibilidades de proteger o dente, controlar a sensibilidade e evitar tratamentos mais invasivos.

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