O dia virou noite: eclipse solar total reúne milhões, escurece cidades e deixa imagens históricas pelo mundo

O dia virou noite: eclipse solar total reúne milhões, escurece cidades e deixa imagens históricas pelo mundo
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 13 de agosto de 2026 0

O céu proporcionou nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, um dos maiores espetáculos astronômicos dos últimos anos. Um eclipse solar total atravessou áreas do Hemisfério Norte, transformou o fim da tarde em noite por alguns instantes e levou milhões de pessoas às ruas, praias, montanhas, observatórios e áreas rurais para acompanhar a passagem da Lua diante do Sol. As cenas registradas principalmente na Espanha e na Islândia rapidamente percorreram o mundo.

A faixa de totalidade percorreu regiões da Rússia, Groenlândia, Islândia, Oceano Atlântico, Espanha e uma pequena área de Portugal. Fora dessa estreita faixa, grande parte da Europa, regiões do Canadá, norte dos Estados Unidos e noroeste da África observaram o eclipse apenas parcialmente.

Foi dentro da faixa de totalidade que aconteceu a cena mais impressionante. Quando a Lua encobriu completamente o disco solar, a luminosidade caiu rapidamente, a coroa do Sol tornou-se visível e localidades mergulharam em uma espécie de crepúsculo repentino em plena tarde ou começo da noite.

Na Islândia, a totalidade atingiu a costa oeste por volta das 17h44 no horário local, com duração de até 2 minutos e 13 segundos em alguns pontos. O país, que possui cerca de 400 mil habitantes, recebeu uma estimativa de até 80 mil visitantes atraídos pelo fenômeno. Óculos especiais para observação chegaram a se esgotar em Reykjavík antes do eclipse.

O clima, porém, interferiu no espetáculo islandês. Nuvens prejudicaram a observação em Reykjavík e em diferentes áreas, embora uma abertura no extremo oeste tenha permitido que moradores e turistas vissem o fenômeno. Mesmo onde as nuvens esconderam diretamente o Sol, a chegada repentina da escuridão durante a totalidade foi percebida.

Na Espanha, o espetáculo ganhou dimensões ainda maiores. Milhões se deslocaram para o norte do país e para as Ilhas Baleares. As autoridades haviam se preparado para receber até 6 milhões de visitantes nas regiões localizadas dentro da faixa do eclipse, especialmente em áreas rurais consideradas privilegiadas para observação.

Em Buitrago de Lozoya, ao norte de Madri, a multidão acompanhou o céu escurecer pouco depois das 20h30. Antes de a Lua ocultar totalmente o Sol, apareceram os chamados “grãos de Baily”, pontos luminosos que surgem nas bordas da Lua devido à passagem da luz solar pelas irregularidades do relevo lunar. A totalidade naquele ponto durou menos de um minuto e foi recebida com aplausos e comemorações.

Em outras regiões espanholas, fotógrafos registraram uma das imagens mais marcantes do fenômeno: um disco completamente negro cercado pela delicada coroa solar, enquanto o horizonte mantinha tons semelhantes aos de um pôr do sol. A Associated Press registrou o eclipse total em locais como Berlanga de Duero, além de imagens da fase parcial em diferentes partes da Europa.

O horário tornou o eclipse espanhol particularmente diferente. A totalidade ocorreu pouco antes do pôr do sol, deixando o Sol muito baixo no horizonte. Segundo a NASA, em grande parte da Europa continental e do norte da África o Sol chegou a se pôr ainda parcialmente eclipsado, criando um raro cenário de eclipse misturado ao entardecer.

Na maior parte da faixa total, o Sol permaneceu completamente encoberto por menos de dois minutos. Nos locais mais próximos ao centro da trajetória da sombra, entre Groenlândia, Atlântico Norte e áreas próximas da Islândia, a duração ultrapassou os dois minutos, mas permaneceu abaixo de dois minutos e meio. A duração máxima estimada para o fenômeno ficou próxima de 2 minutos e 18 segundos.

O fenômeno de ontem também entrou para a história europeia. Foi o primeiro eclipse solar total observado na Europa Ocidental desde 1999, ou seja, havia 27 anos que parte da região não experimentava um evento semelhante. A Península Ibérica não registrava um eclipse total desde 1912.

A magnitude da mobilização obrigou a Espanha a montar uma verdadeira operação especial. Cerca de 25 mil policiais foram mobilizados para garantir a segurança nas áreas de observação, e aproximadamente 100 aviões e helicópteros ficaram disponíveis, sobretudo por causa do elevado risco de incêndios florestais durante o verão europeu.

A preocupação não era pequena. O país enfrenta um período de calor intenso e incêndios, e muitas das melhores áreas para observar o eclipse estavam localizadas justamente em zonas rurais, campos e regiões de vegetação seca.

Um incêndio chegou a ocorrer próximo a um ponto de observação em Peñíscola, na região de Valência. Segundo autoridades locais, o fogo começou em um veículo e acabou atingindo outros 33 antes de ser controlado pelos bombeiros. Até o final de quarta-feira, entretanto, não havia registro de grandes incêndios florestais provocados diretamente pelas multidões que acompanhavam o eclipse.

O fenômeno também se transformou em evento turístico. Hotéis, estradas, parques e áreas de observação receberam visitantes de diferentes partes do mundo. Na Islândia, navios de cruzeiro também foram mobilizados para posicionar turistas em áreas favoráveis de observação. Na Espanha, pequenas cidades normalmente distantes das grandes rotas turísticas passaram a receber milhares de visitantes.

Até personalidades conhecidas internacionalmente entraram na chamada “caça ao eclipse”. Brian May, guitarrista do Queen e também doutor em astrofísica, viajou para um observatório na província espanhola de Teruel e compartilhou registros do momento em suas redes sociais.

As imagens captadas em diferentes países mostram como o mesmo fenômeno assumiu formas distintas. Na Espanha, foi possível registrar a totalidade completa. Na Inglaterra, Alemanha e Itália, a Lua cobriu apenas uma parcela do disco solar. Em São Petersburgo, na Rússia, a sequência coincidiu com o pôr do sol.

A passagem da sombra também produziu mudanças perceptíveis no ambiente. Durante um eclipse total, a queda abrupta da luminosidade pode causar redução temporária da temperatura e alterar o comportamento de animais, que respondem ao escurecimento como se a noite estivesse chegando. Relatos feitos durante o fenômeno europeu apontaram inclusive momentos em que aves ficaram mais silenciosas durante a aproximação da totalidade.

Por trás do espetáculo existe uma coincidência de dimensões e distâncias. Um eclipse solar total acontece quando a Lua passa exatamente entre a Terra e o Sol e seu tamanho aparente é suficiente para ocultar completamente o disco solar para quem está dentro de uma faixa específica da superfície terrestre.

A sombra possui regiões diferentes. A umbra é a parte mais escura e produz o eclipse total. A penumbra, mais ampla, permite observar apenas uma parte do Sol coberta pela Lua. É por isso que enquanto algumas cidades mergulham completamente na escuridão, outras a poucas centenas de quilômetros observam somente um eclipse parcial.

A NASA também aproveitou o fenômeno para pesquisas científicas. Eclipses totais oferecem uma oportunidade especial para estudar a coroa solar, camada externa da atmosfera do Sol que normalmente fica escondida pelo intenso brilho da superfície solar. Agências científicas organizaram transmissões, observações e experimentos durante a passagem da sombra.

O dia 12 de agosto tornou-se ainda mais especial para os apaixonados por astronomia porque o eclipse ocorreu no mesmo período do pico da chuva de meteoros Perseidas, tradicional fenômeno de agosto, além de um período em que diversos planetas podiam ser observados no céu.

No Brasil, apesar da repercussão internacional, não foi possível ver nada do eclipse diretamente. Nem mesmo a fase parcial alcançou o território brasileiro. O Observatório Nacional, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, explicou que a sombra da Lua estava direcionada para o Hemisfério Norte e retransmitiu o fenômeno pela internet para o público brasileiro.

A ausência do fenômeno no céu brasileiro não significa que o país ficará muito tempo sem outro eclipse solar. Em 6 de fevereiro de 2027, um eclipse solar anular poderá ser observado em partes do território brasileiro, enquanto outras regiões acompanharão diferentes graus de parcialidade. Nesse tipo de eclipse, a Lua não cobre completamente o Sol, deixando visível o famoso “anel de fogo”.

Para assistir a um eclipse solar total no próprio Brasil, porém, será necessário esperar muito mais.

Segundo o Observatório Nacional, o próximo ocorrerá em 12 de agosto de 2045, exatamente 19 anos depois do espetáculo desta quarta-feira. A faixa de totalidade cruzará estados das regiões Norte e Nordeste, enquanto o restante do país poderá acompanhar o fenômeno de maneira parcial.

Até lá, a Europa ainda terá outra grande oportunidade muito antes. Em 2 de agosto de 2027, outro eclipse solar total atravessará partes da Espanha e seguirá pelo norte da África. A Península Ibérica vive uma sequência tão rara de fenômenos que o período vem sendo chamado de “trio de eclipses ibéricos”: total em 2026, outro total em 2027 e um eclipse anular em 2028.

O eclipse de ontem também deixou uma lembrança fundamental sobre segurança. Fora dos poucos instantes de totalidade completa, não é seguro observar diretamente o Sol sem proteção apropriada. Óculos comuns, filmes fotográficos, radiografias e lentes escuras não substituem filtros solares adequados. A NASA orienta proteção específica durante todas as fases parciais.

O levantamento do Diário Tocantinense mostra que o eclipse de 12 de agosto foi muito mais que alguns minutos de escuridão. O fenômeno movimentou milhões de pessoas, alterou rotinas de cidades, provocou uma grande operação de segurança, impulsionou o turismo e proporcionou novas oportunidades para pesquisas sobre o Sol.

Da Islândia à Espanha, a sequência foi praticamente cinematográfica: a luminosidade desapareceu, o horizonte ganhou cores de pôr do sol, a Lua cobriu completamente o Sol e a coroa solar surgiu no céu. Pouco depois, a luz retornou e o dia continuou.

Foram poucos minutos — em muitos lugares, menos de 60 segundos de totalidade — suficientes para produzir algumas das imagens astronômicas mais impressionantes de 2026 e lembrar milhões de pessoas de que, em determinadas ocasiões, basta o alinhamento preciso de três corpos celestes para fazer o dia parecer noite.

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