Da cultura à defesa do consumidor: o que Dorinha pretende mudar no Tocantins e o que já revelou ao Diário Tocantinense
Da valorização da cultura tocantinense ao fortalecimento do Procon, passando por hospitais, universidade pública, concursos, industrialização, juventude e modernização dos serviços estaduais. A candidata ao Governo do Tocantins Professora Dorinha Seabra (União Brasil) chega à disputa de 2026 apresentando um conjunto amplo de propostas e, em entrevista exclusiva ao Diário Tocantinense, antecipou medidas que pretende colocar em discussão caso seja eleita.
O plano registrado pela candidatura, denominado “Tocantins em Primeiro Lugar”, tem como pilares municipalismo, inovação e regionalização. Uma das premissas é reduzir as diferenças entre as regiões do Estado e fazer com que investimentos e serviços públicos alcancem também municípios pequenos e cidades que funcionam como polos regionais.
A cultura aparece ligada principalmente à juventude, à identidade tocantinense, à economia criativa e à valorização das comunidades tradicionais. O programa prevê Centros da Juventude que deverão concentrar atividades de formação, cultura, esporte, inovação e cidadania. Também são previstos estímulos ao empreendedorismo e à economia criativa como alternativas de geração de oportunidades para jovens.
Para indígenas e quilombolas, a proposta incorpora a preservação cultural a diferentes políticas públicas. O plano menciona educação intercultural, formação de professores, materiais adaptados, conectividade nas comunidades e valorização da história e das culturas afro-brasileira e indígena. Também prevê fortalecimento do turismo de base comunitária, modelo que pode transformar patrimônio cultural, tradições e produção artesanal em geração de renda sem retirar das comunidades o protagonismo sobre suas atividades.
Esse olhar sobre cultura também apareceu na entrevista exclusiva concedida por Dorinha ao Diário Tocantinense ao tratar da comunicação pública. Questionada sobre a possibilidade de fortalecimento de uma estrutura estadual semelhante à antiga Redesat, a candidata afirmou que pretende estudar um modelo capaz de ampliar a produção de conteúdo de interesse público e, ao mesmo tempo, preservar a memória e a identidade do Estado.
“O Tocantins precisa de uma comunicação pública que leve informação a todas as regiões, valorize sua cultura e registre a história de sua gente. Vamos estudar o melhor modelo para fortalecer essa estrutura, recuperando a capacidade de produção e transmissão de conteúdo de interesse público, sem transformá-la em instrumento de promoção pessoal ou partidária”, declarou Dorinha ao DT.
Na outra ponta das propostas está a defesa do consumidor. Ao Diário Tocantinense, Dorinha afirmou que pretende fortalecer o Procon Tocantins e ampliar sua presença fora dos grandes centros. Segundo a candidata, o crescimento das fraudes digitais, dos empréstimos considerados abusivos e das cobranças indevidas exige um órgão mais próximo do cidadão e preparado para novas modalidades de conflito de consumo.
“O Procon precisa estar mais próximo do cidadão. Pretendemos fortalecer sua estrutura, ampliar a presença regional e investir em atendimento digital, fiscalização, educação para o consumo e orientação às famílias. Também queremos construir parcerias com as prefeituras para levar os serviços a municípios que ainda não contam com atendimento permanente”, afirmou ao Diário Tocantinense.
Dorinha disse ainda ao DT que pretende valorizar os servidores do Procon e oferecer estrutura para fiscalização e atendimento. Atualmente, o Procon Tocantins mantém serviços presenciais e digitais para registro e acompanhamento de reclamações, além de ações de fiscalização, orientação e pesquisas de preços.
Na prática, a proposta apresentada ao jornal abre a possibilidade de o Estado ampliar a capilaridade do órgão por meio de parcerias com as prefeituras, alcançando municípios onde o consumidor hoje precisa recorrer a canais digitais ou se deslocar para buscar determinados atendimentos. A forma, o número de novas estruturas e o custo dessa expansão, porém, dependerão da implementação administrativa de um eventual governo.
A saúde é uma das áreas em que Dorinha apresentou metas numéricas mais objetivas. O plano prevê chegar a 20 mil cirurgias eletivas por ano, colocar em funcionamento integral o Hospital Geral de Araguaína, projetado para 400 leitos, concluir o Hospital da Mulher em Palmas e construir uma nova maternidade em Araguatins. Também estão previstos ambulatórios de especialidades distribuídos regionalmente e expansão da telessaúde em áreas como cardiologia, neurologia e obstetrícia.
Ao Diário Tocantinense, Dorinha foi além do documento geral quando questionada especificamente sobre Colinas do Tocantins. Ela admitiu estudar uma proposta para ampliar o papel do Hospital Municipal e transformá-lo em uma estrutura com atendimento regional, em parceria com a Prefeitura e municípios vizinhos.
A candidata, porém, evitou transformar a ideia em promessa fechada. Segundo ela, uma eventual regionalização dependerá de estudos sobre estrutura física, demanda, capacidade operacional, profissionais e principalmente custeio.
“O que posso assegurar é que Colinas terá atenção especial para fortalecer sua rede hospitalar, ampliar especialidades, exames e cirurgias e melhorar a integração com a rede estadual”, disse Dorinha ao Diário Tocantinense.
Outra proposta que ganhou repercussão após a entrevista ao DT foi a possibilidade de implantação do curso de Direito da Universidade Estadual do Tocantins, a Unitins, em Colinas. Dorinha disse ver a proposta “com bons olhos”, mas novamente condicionou a expansão a estudos técnicos.
“Vejo com bons olhos a implantação do curso de Direito da Unitins em Colinas. Essa proposta precisa passar por estudos de demanda, viabilidade acadêmica, estrutura, corpo docente e sustentabilidade financeira. Não podemos transformar uma expectativa legítima da população em anúncio sem base técnica”, declarou.
O posicionamento se aproxima de uma das diretrizes do plano geral, que prevê expansão da Unitins, além da conclusão dos câmpus de Augustinópolis e Araguatins e fortalecimento da oferta de ensino superior no interior.
Dorinha também colocou o Detran Tocantins entre os órgãos que podem passar por mudanças. Questionada pelo Diário Tocantinense sobre concurso público e fortalecimento do quadro efetivo, afirmou que pretende iniciar a discussão com um diagnóstico do número de servidores, distribuição do pessoal e demanda existente em cada unidade.
“No caso do Detran, vamos realizar um diagnóstico completo sobre o quadro de pessoal, a distribuição dos servidores e as necessidades das unidades. Havendo cargos vagos e demanda comprovada, o concurso público é o caminho para estruturar um quadro efetivo”, afirmou.
Além da possibilidade de concurso, Dorinha defendeu digitalização de serviços, redução da burocracia e fortalecimento do atendimento do Detran nos municípios do interior. A candidata afirmou que as mudanças precisam respeitar planejamento, responsabilidade fiscal e diálogo com os servidores.
A política de concursos não ficaria restrita ao órgão de trânsito. Na segurança pública, o plano apresentado pela candidatura prevê concursos anuais para as polícias Militar e Civil, além de investimentos em tecnologia, inteligência e implantação do programa Territórios de Paz nos 20 municípios com maiores índices de letalidade violenta.
Na educação básica, área diretamente associada à trajetória política de Dorinha, estão entre as propostas a ampliação de vagas em creches em parceria com os municípios, alfabetização na idade adequada, expansão do ensino médio em tempo integral e implantação de cursos técnicos alinhados à economia de cada região, incluindo agronegócio, turismo e tecnologia.
A candidata foi secretária de Educação e Cultura do Tocantins entre 1998 e 2009, exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados e chegou ao Senado após ser eleita em 2022. Atualmente cumpre mandato de senadora iniciado em 2023.
A juventude recebeu um bloco específico tanto no plano quanto na entrevista concedida ao DT. A candidatura prevê programas de primeiro emprego, formação profissional, orientação de carreira, empreendedorismo, economia criativa, Casas do Estudante e Centros da Juventude.
“A juventude não pode ser lembrada apenas em períodos eleitorais. Não é à toa que tenho um candidato a vice jovem e com um futuro promissor, que é o Atos Gomes”, afirmou Dorinha ao Diário Tocantinense. Na mesma entrevista, defendeu mecanismos para que o jovem possa estudar, trabalhar e empreender sem precisar abandonar sua cidade por falta de oportunidade.
Na economia, Dorinha tenta colocar a industrialização no centro de seu discurso. O diagnóstico apresentado pela candidatura é de que o Tocantins produz grande volume de matéria-prima, mas ainda processa uma parcela insuficiente dentro de suas próprias fronteiras. O plano cita produção de 9,17 milhões de toneladas de grãos e rebanho de 11,6 milhões de cabeças de gado como exemplos da escala produtiva que poderia alimentar uma cadeia industrial maior.
O programa denominado Tocantins Indústria 2045 propõe incentivar o processamento de soja, milho, carne e outros produtos dentro do Estado. A candidatura também propõe criar o “Investe Tocantins”, uma estrutura de atração de investimentos nacionais e internacionais, além de concluir o Parque Tecnológico e ampliar ações relacionadas à bioeconomia e aos recursos minerais.
Na infraestrutura, a plataforma inclui integração das rodovias com a Ferrovia Norte-Sul e potenciais corredores hidroviários, além do Porto de Praia Norte. No saneamento, a meta apresentada é alcançar até 2033 cobertura de água de 99% e de esgotamento sanitário de 90%.
A digitalização do Estado também aparece como uma das mudanças propostas. O plano prevê um portal único de serviços públicos, redução de processos em papel, acompanhamento digital de obras e um novo Portal de Dados Abertos. A intenção declarada é aumentar transparência e facilitar o acesso da população aos serviços estaduais.
Para as mulheres, Dorinha propõe ampliar a rede de proteção contra a violência, incluindo uma Casa da Mulher Tocantinense na região Norte. Durante sua atuação no Senado, ela também tem participado de discussões nacionais envolvendo prevenção à violência e proteção às mulheres.
A candidatura também prevê atenção diferenciada aos 57 municípios tocantinenses com menos de 5 mil habitantes, defendendo que tamanho populacional não seja um obstáculo para acesso a investimentos e serviços estaduais. Na convenção que oficializou seu nome para a disputa, Dorinha relacionou esse princípio à ideia de levar políticas públicas às regiões mais afastadas dos maiores centros.
O ponto central das propostas de Dorinha é a tentativa de combinar continuidade e mudança. A candidata mantém aliança com o governador Wanderlei Barbosa e afirma que pretende preservar ações que considera positivas da atual administração, mas introduzir novas metas, estruturas e programas. Na convenção de 5 de agosto, ela afirmou que o Tocantins teria desejo de “crescimento” e “aprimoramento”, associando sua candidatura a uma continuidade com novas etapas de gestão.
Há, entretanto, uma diferença que precisa ser observada entre as propostas. Algumas aparecem como metas objetivas no plano de governo, como as 20 mil cirurgias eletivas anuais, o funcionamento integral do novo hospital de Araguaína e os concursos anuais para as forças de segurança. Outras, como a regionalização do hospital de Colinas, o curso de Direito da Unitins no município e mudanças específicas no quadro do Detran, foram apresentadas ao Diário Tocantinense como possibilidades condicionadas a estudos técnicos e disponibilidade administrativa.
É justamente nesse conjunto de promessas, metas e propostas ainda em avaliação que a campanha de Professora Dorinha entra na disputa de 2026. Da cultura à defesa do consumidor, da saúde ao emprego, o projeto apresentado pela candidata tenta ampliar a presença do Estado no interior e regionalizar os serviços públicos.
Ao Diário Tocantinense, Dorinha resumiu o legado que pretende buscar caso chegue ao Palácio Araguaia: um Estado em que o cidadão encontre atendimento de saúde próximo de casa, educação de qualidade, segurança, infraestrutura para produzir e oportunidade de trabalho na própria região.
“Se, ao final do governo, os tocantinenses perceberem que suas vidas melhoraram e que o Estado passou a cuidar das pessoas com mais eficiência e sensibilidade, esse será o legado mais importante”, afirmou a candidata ao DT.