R$ 1,2 milhão para responder uma pergunta que preocupa o Tocantins: ponte da BR-235 pode voltar a receber tráfego?

R$ 1,2 milhão para responder uma pergunta que preocupa o Tocantins: ponte da BR-235 pode voltar a receber tráfego?
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 14 de agosto de 2026 0

Interditada depois que exames identificaram danos estruturais considerados irreversíveis, a ponte sobre o Rio Tocantins, na BR-235, entre Pedro Afonso e Tupirama, entra agora em uma nova etapa de avaliação. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) contratou por R$ 1.200.722,31 serviços especializados de engenharia para uma inspeção extraordinária e prova de carga da estrutura. No centro da contratação está uma pergunta que afeta moradores, produtores, comerciantes e transportadores da região: a ponte ainda pode voltar a receber algum tipo de tráfego com segurança?

A resposta, neste momento, é que existe possibilidade de liberação parcial, mas não de retomada normal do tráfego pesado. O próprio DNIT já definiu como diretriz a reconstrução da travessia depois que investigações técnicas concluídas em julho encontraram problemas irreversíveis no concreto das fundações dos dois apoios centrais. Ao mesmo tempo, o órgão deixou aberta a possibilidade de utilização temporária da ponte por veículos mais leves, desde que novas avaliações e serviços preparatórios comprovem condições adequadas de segurança.

O novo contrato foi firmado pela Superintendência Regional do DNIT no Tocantins com a Bridge Diagnósticos e Soluções Técnicas Ltda., por meio de dispensa de licitação. O documento tem número 502/2026 e vigência de três meses, entre 10 de agosto e 10 de novembro de 2026. O processo administrativo é o 50623.001370/2026-52.

A contratação abrange a ponte e seu entorno no trecho entre os quilômetros 163,6 e 164,6 da BR-235. A inspeção extraordinária deverá aprofundar a análise da estrutura, enquanto a prova de carga permite observar como diferentes partes da ponte reagem quando submetidas a pesos controlados. Sensores e equipamentos especializados podem medir movimentações, deformações e outros comportamentos que não são perceptíveis apenas por uma inspeção visual.

O caso, entretanto, começou meses antes. Em 20 de maio de 2026, o DNIT anunciou a interdição total preventiva da ponte no km 163,89 após uma vistoria identificar manifestações estruturais que exigiam investigação mais aprofundada. Naquele momento, a autarquia ainda dizia não haver conclusão definitiva sobre as causas dos problemas nem sobre as intervenções necessárias.

A preocupação aumentou com os estudos realizados posteriormente. Entre 8 e 10 de julho, a estrutura foi submetida a uma prova de carga em que caminhões carregados, previamente pesados, foram posicionados sobre o vão central. Segundo o DNIT, a carga utilizada chegou a 360 toneladas, enquanto centenas de sensores acompanhavam a resposta da ponte.

O resultado acendeu definitivamente o sinal de alerta. Quando os caminhões foram retirados, a ponte não retornou completamente à posição original. O DNIT informou que parte da deformação permaneceu registrada nas fundações e nos pilares do vão central, comportamento considerado atípico pelos técnicos.

Paralelamente, amostras de concreto das fundações, blocos e pilares foram encaminhadas ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo. A análise laboratorial identificou duas reações químicas internas no concreto: reação álcali-agregado e formação de etringita tardia. O diagnóstico divulgado oficialmente pelo DNIT classificou o problema como irreversível nas fundações atingidas.

Foi justamente esse resultado que mudou o debate. A questão deixou de ser simplesmente “como recuperar a ponte?” e passou a ser “por quanto tempo e sob quais condições ela ainda pode servir à população enquanto uma nova estrutura é construída?”.

O DNIT informou em 17 de julho que, considerando os resultados técnicos e os critérios do Programa de Reabilitação de Obras de Arte Especiais, adotaria como diretriz a reconstrução da ponte. Na ocasião, ressaltou que uma eventual reabilitação não devolveria à estrutura as condições necessárias para ser considerada solução definitiva.

Isso significa que o contrato de R$ 1,2 milhão não deve ser interpretado como uma tentativa de provar que a ponte antiga poderá voltar à operação normal por tempo indeterminado. A solução definitiva já apontada pelo DNIT é uma nova travessia. O trabalho técnico contratado agora é relevante principalmente para estabelecer se existe uma condição segura para utilização restrita e temporária enquanto a nova ponte não fica pronta.

Durante audiência pública realizada em Pedro Afonso no dia 7 de agosto, o diretor de Infraestrutura Rodoviária do DNIT, Fábio Pessoa da Silva Nunes, anunciou que o órgão trabalha com a possibilidade de liberar a estrutura antiga parcialmente. A previsão apresentada foi permitir a passagem de categorias específicas de veículos ainda na última semana de agosto, condicionada às medidas técnicas e de segurança necessárias.

Entre os veículos mencionados estão automóveis de pequeno porte, ambulâncias, micro-ônibus, ônibus escolares e caminhões de coleta de lixo. O anúncio não representa liberação para carretas e grandes veículos de carga, justamente o tipo de tráfego que exerce esforços muito maiores sobre a estrutura.

Portanto, para a principal pergunta feita hoje por quem depende da BR-235, a resposta é dividida em duas partes: a ponte pode voltar a receber algum tráfego, se os testes confirmarem segurança dentro de limites rígidos; mas não há indicação de que ela voltará a funcionar normalmente para todos os veículos.

Também não significa que o início do contrato de R$ 1,2 milhão garanta automaticamente a abertura. A liberação dependerá dos resultados técnicos e das condições estabelecidas pelo DNIT. Caso os ensaios revelem risco incompatível mesmo com cargas menores, a interdição poderá ser mantida.

A fiscalização deverá ser outro ponto decisivo. Se houver abertura parcial, será necessário impedir que veículos acima dos limites autorizados atravessem a estrutura. O DNIT já informou anteriormente que trabalha com apoio das forças de segurança para garantir o cumprimento das restrições.

A preocupação não é apenas técnica. A ponte é uma ligação estratégica entre Pedro Afonso e Tupirama e atende uma região fortemente ligada à produção agropecuária. A interdição modificou rotas de moradores e produtores e aumentou o percurso para quem depende da travessia.

Desde maio, o DNIT mantém uma rota alternativa que passa pela BR-153 até Guaraí, segue pela TO-239 em direção a Tupiratins, utiliza travessia por balsa para Itaperatins, continua pela TO-239 e Itacajá, alcança a BR-010 até Santa Maria e, posteriormente, a TO-010 no sentido de Pedro Afonso.

Durante a audiência pública de 7 de agosto, o DNIT também anunciou a autorização de quatro balsas gratuitas para ajudar na travessia e reduzir os impactos da interdição sobre moradores e setor produtivo. A expectativa divulgada é de ampliação desse serviço até o fim de agosto.

A audiência reuniu aproximadamente 1,1 mil pessoas, entre moradores, produtores, comerciantes, estudantes, servidores e representantes políticos e empresariais. O tamanho da participação dá dimensão da importância econômica e social da travessia para a região central do Tocantins.

Há ainda uma segunda resposta sendo construída para o problema: uma ponte completamente nova. O DNIT confirmou que pretende lançar ainda em agosto o edital para a construção de uma nova travessia sobre o Rio Tocantins. O projeto apresentado prevê uma ponte duplicada, já considerando uma possível futura duplicação da própria BR-235.

Segundo as informações apresentadas pelo órgão durante a audiência, a expectativa é de que a nova ponte seja concluída em até dois anos, considerando o cronograma anunciado. O prazo efetivo dependerá do andamento da licitação, contratação, início das obras e execução do empreendimento.

É justamente o intervalo entre a interdição atual e a entrega da futura ponte que transforma a possibilidade de abertura parcial em uma questão urgente. Dois anos utilizando apenas rotas alternativas e balsas representam impacto significativo para uma região onde o deslocamento de pessoas e o transporte da produção dependem diretamente da conexão rodoviária.

O investimento de R$ 1,2 milhão em novos serviços técnicos precisa, portanto, produzir respostas objetivas. Qual carga a estrutura ainda suporta? Quais veículos poderiam passar? Quantos por vez? Será necessário tráfego em apenas uma faixa? Haverá limite de velocidade? A passagem precisará ser monitorada permanentemente? E até quando a ponte antiga poderá operar antes de ser definitivamente substituída?

São questões que deverão ser respondidas tecnicamente antes de qualquer flexibilização da interdição. Em uma estrutura onde os testes anteriores já apontaram deformações permanentes e deterioração química nas fundações, a margem para decisões sem respaldo de engenharia é praticamente inexistente.

Também há uma questão que merece acompanhamento: em julho, o DNIT já havia realizado uma prova de carga e análises laboratoriais que embasaram a decisão pela reconstrução. Agora, um novo contrato, no valor de R$ 1.200.722,31, volta a prever inspeção extraordinária e prova de carga. O resultado dessa nova etapa deverá esclarecer sobretudo as condições de uma eventual utilização provisória e limitada da estrutura.

Para quem espera a volta à normalidade, porém, o cenário precisa ser colocado de forma clara: a antiga ponte não está sendo preparada para voltar a receber normalmente o fluxo da BR-235 como antes da interdição. Os danos identificados levaram o próprio DNIT a optar por uma nova estrutura.

O que está em jogo agora é saber se a ponte existente ainda possui uma espécie de “vida útil emergencial” suficiente para permitir a travessia controlada de carros, ambulâncias, transporte escolar e outros veículos leves enquanto a solução definitiva é executada.

Até que essa conclusão técnica seja formalizada e a liberação seja efetivamente anunciada pelo DNIT, a ponte deve ser considerada interditada ao tráfego. Qualquer previsão de abertura continua condicionada à segurança estrutural.

Depois de meses de transtornos e de um diagnóstico que apontou danos irreversíveis, os próximos testes terão peso muito maior do que o próprio valor de R$ 1,2 milhão do contrato. Eles ajudarão a definir se a população poderá recuperar ao menos parte da ligação entre Pedro Afonso e Tupirama enquanto espera pela nova ponte — ou se a velha estrutura terá encerrado definitivamente sua função de receber veículos sobre o Rio Tocantins.

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