Jato de R$ 120 milhões de Vorcaro é apreendido no Paraguai após continuar voando mesmo com ex-banqueiro preso
Aeronave de luxo fez 16 voos internacionais desde a prisão de Daniel Vorcaro, passou por destinos como Nova York, Dubai, Mônaco e Paris e não entrou no Brasil durante o período; avião foi localizado em Assunção e levado para Brasília
Um jato executivo avaliado em cerca de R$ 120 milhões, ligado ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, foi localizado no Paraguai em uma ação de cooperação entre autoridades brasileiras e paraguaias. A aeronave chamou ainda mais atenção por um detalhe: mesmo com Vorcaro preso desde março, o avião continuou realizando viagens internacionais e acumulou 16 voos após a nova prisão do ex-banqueiro.
O Diário Tocantinense apurou, a partir das informações oficiais divulgadas pela Polícia Federal brasileira e pela Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai, além dos registros de movimentação da aeronave tornados públicos, que o avião é um Gulfstream G550, modelo GV-SP, prefixo PR-PSE, fabricado em 2010. A SENAD paraguaia avaliou a aeronave em aproximadamente US$ 28 milhões, enquanto a Polícia Federal informou valor estimado em cerca de R$ 120 milhões.
O avião foi localizado no sábado, 15, em Assunção, depois de uma operação de inteligência que envolveu a Polícia Federal, a Adidância da PF no Paraguai, a SENAD e a Força Aérea Paraguaia. Segundo as autoridades paraguaias, o Brasil havia solicitado colaboração para identificar e localizar a aeronave diante do risco de que o bem pudesse ser removido ou ocultado.
Após as tratativas entre os dois países, o jato deixou o Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, em Assunção, no domingo, 16, e seguiu para Brasília. De acordo com a SENAD, a aeronave decolou às 15h40, sem passageiros e conduzida por uma tripulação brasileira. Já em território nacional, ficou à disposição das autoridades para as providências judiciais relacionadas ao caso.
A localização encerra, ao menos por enquanto, uma trajetória internacional que vinha chamando atenção desde março. Daniel Vorcaro foi preso novamente em 4 de março de 2026, mas o Gulfstream não parou. Dados de localização da aeronave apontam que, desde então, foram realizadas 16 viagens internacionais, sempre tendo Assunção como origem ou destino e sem que o avião pousasse no Brasil.
A sequência de viagens levou o jato por diferentes continentes. Após deixar a Flórida e chegar ao Paraguai em 14 de março, o avião voltou aos Estados Unidos e, nos meses seguintes, passou por localidades como Miami, Paris, Nova York, Dubai, Mônaco e Filadélfia, além de escalas em Barbados, Hannover, Malta, Luanda, Anguilla e Washington.
Em uma das viagens mais longas, o avião saiu de Assunção para Nova York no fim de abril e, posteriormente, seguiu para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com escala em Malta. O retorno ao Paraguai ocorreu em maio, passando por Luanda, em Angola. Poucas semanas depois, houve nova viagem aos Estados Unidos e, posteriormente, uma passagem por Mônaco.
A última movimentação internacional registrada antes da localização ocorreu em julho. O jato deixou Assunção em direção à Filadélfia, nos Estados Unidos, no dia 17, e voltou para a capital paraguaia no dia 20, com passagem por Washington.
O ponto ainda sem resposta é quem estava utilizando uma aeronave de R$ 120 milhões enquanto Vorcaro permanecia preso. Não há registros públicos que identifiquem os passageiros desses 16 voos realizados desde março. A defesa do ex-banqueiro havia sido procurada pela Folha de S.Paulo para esclarecer o motivo das viagens e os usuários do avião, mas não apresentou explicação até a publicação da reportagem que revelou a movimentação.
O jato foi adquirido por Vorcaro em junho de 2023, por aproximadamente R$ 120 milhões, e aparece registrado em nome da Viking, holding patrimonial ligada ao ex-banqueiro. O Gulfstream era considerado o avião de maior valor de uma frota de três aeronaves vinculadas à empresa.
Outro ponto relevante da apuração é que a matrícula PR-PSE possui duas ordens judiciais de bloqueio, o que impede a venda ou transferência da aeronave. Também não havia, segundo informações do Registro Aeronáutico Brasileiro consultadas na apuração que revelou o caso, indicação de que o avião estivesse formalmente sublocado para terceiros.
A aeronave estava fora do território brasileiro desde 20 de agosto de 2025. Naquela ocasião, deixou Belo Horizonte em direção à Flórida, meses antes da primeira prisão de Vorcaro e da liquidação do Banco Master. Depois disso, permaneceu no exterior e não voltou ao Brasil até ser levado pelas autoridades para Brasília neste domingo.
O histórico do avião ganha relevância também porque a primeira prisão de Vorcaro ocorreu em novembro de 2025, quando o então controlador do Master se preparava para uma viagem internacional. Ele chegou a ser solto posteriormente, mas voltou à prisão em março deste ano no âmbito das investigações relacionadas à Operação Compliance Zero.
Atualmente, o caso tramita no Supremo Tribunal Federal. A Operação Compliance Zero investiga suspeitas relacionadas às operações financeiras envolvendo o Banco Master. Segundo a SENAD, a investigação abrange, entre outros pontos, suspeitas de emissão de títulos de crédito sem respaldo, gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de ativos. Vorcaro é investigado no caso, e eventuais responsabilidades dependem das conclusões das investigações e decisões judiciais.
A situação patrimonial do jato também possui uma camada societária. Em setembro de 2025, 55% da Viking foram vendidos ao Stern Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. Conforme informações do processo de liquidação do Master divulgadas posteriormente, porém, o liquidante sustenta que a operação não retirou a empresa da esfera de domínio do grupo ligado ao antigo banco.
Com a aeronave agora em Brasília, caberá à Justiça definir o destino do patrimônio. Entre as possibilidades estão a manutenção do avião sob custódia, uma eventual destinação para uso oficial ou até a chamada alienação antecipada, mecanismo que permite a venda de determinados bens antes do encerramento definitivo do processo para evitar perda de valor e altos custos de conservação.
O caso chama atenção justamente pela combinação dos números e das circunstâncias: um jato estimado em R$ 120 milhões, duas ordens judiciais de bloqueio, um proprietário ligado a uma das maiores investigações financeiras recentes do país e 16 voos internacionais realizados enquanto Vorcaro permanecia atrás das grades.
A operação entre Brasil e Paraguai colocou fim à circulação internacional do Gulfstream por enquanto. O avião que passou meses atravessando continentes sem voltar ao território brasileiro está agora em Brasília e sob alcance direto da Justiça.