Louis Vuitton vence na Justiça, mas perde simpatia na China: processo de US$ 1,5 milhão provoca reação contra a grife
Uma vitória judicial da Louis Vuitton contra uma popular rede chinesa de bebidas acabou produzindo um efeito inesperado fora dos tribunais. A grife francesa conseguiu uma decisão favorável em um processo contra a Molly Tea, condenada a pagar 10,3 milhões de yuans, cerca de US$ 1,5 milhão, por violação de marcas registradas. O resultado, porém, desencadeou forte reação nas redes sociais chinesas e colocou em discussão até onde uma empresa pode reivindicar exclusividade sobre determinados elementos gráficos.
O caso envolve o símbolo utilizado pela Molly Tea, uma flor de quatro pétalas que, segundo a Louis Vuitton, possui semelhanças com elementos do tradicional monograma da marca de luxo. O Tribunal Popular Intermediário de Suzhou, na província de Jiangsu, concluiu que a rede chinesa infringiu marcas registradas da Louis Vuitton e determinou o pagamento da indenização. Do total, 10 milhões de yuans correspondem a perdas econômicas e 300 mil yuans a despesas relacionadas ao processo.
Além da indenização, a Molly Tea foi obrigada a interromper o uso do elemento considerado infrator e publicar manifestações em seus canais oficiais para reduzir os efeitos da violação. A empresa chinesa informou que pretende recorrer da decisão.
A disputa judicial começou em maio de 2025 e ganhou força depois de questionamentos sobre pedidos de registro apresentados pela Molly Tea. Desde 2022, a empresa submeteu diferentes solicitações de registro de marcas, incluindo desenhos florais, mas várias delas foram rejeitadas pelas autoridades chinesas. Para o tribunal, a Louis Vuitton possui proteção sobre seu conhecido desenho floral e a semelhança apresentada pela rede de bebidas ultrapassou os limites permitidos.
Se juridicamente o resultado favoreceu a Louis Vuitton, nas redes sociais a situação tomou outro rumo. A condenação viralizou na China e uma parcela expressiva dos internautas passou a demonstrar apoio à Molly Tea. Um dos assuntos relacionados ao caso ultrapassou centenas de milhões de visualizações no Weibo, uma das principais plataformas sociais do país. A hashtag que pode ser traduzida como “Molly Tea perdeu o processo, mas ganhou o coração do público” superou 30 milhões de visualizações.
Parte da reação está relacionada à origem dos desenhos florais. Internautas, comentaristas e veículos chineses passaram a comparar o símbolo reivindicado pela Louis Vuitton com padrões encontrados em objetos e obras da cultura asiática anteriores à criação da marca francesa. O debate deixou de tratar apenas de propriedade intelectual e passou a envolver também patrimônio cultural e a utilização comercial de símbolos tradicionais.
O jornal estatal Beijing Daily, por exemplo, levantou questionamentos sobre a proteção de elementos presentes no patrimônio cultural chinês. Outros comentários nas redes acusaram a grife de tentar monopolizar uma forma geométrica semelhante a desenhos existentes há séculos. Por outro lado, também houve usuários defendendo a decisão e afirmando que o logotipo utilizado pela Molly Tea remetia imediatamente à identidade visual da Louis Vuitton.
A Louis Vuitton criou seu famoso monograma em 1896. Segundo a própria história divulgada pelo grupo LVMH, a identidade visual recebeu influência de ornamentações neogóticas e do japonismo, movimento artístico europeu fortemente influenciado pela estética japonesa. A proximidade entre esses elementos e antigos padrões asiáticos passou a ocupar o centro da discussão após o processo.
Já a Molly Tea é uma empresa bem mais recente. Fundada em 2021, a rede tornou-se conhecida principalmente pelas bebidas feitas com chá de jasmim e outros ingredientes florais. A companhia afirma possuir mais de 2 mil lojas, incluindo unidades fora da China, em mercados como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, Tailândia, Indonésia e Singapura.
A repercussão evidencia um desafio especialmente sensível para marcas internacionais que atuam no mercado chinês. Embora a decisão judicial reconheça os direitos de propriedade intelectual da Louis Vuitton, a reação popular mostrou que uma vitória nos tribunais nem sempre representa uma vitória de imagem.
Nas redes, consumidores passaram a declarar apoio à Molly Tea e alguns afirmaram ter perdido a boa impressão que mantinham da Louis Vuitton. O episódio gerou manifestações contrárias à grife e discussões sobre boicote, embora não existam, até o momento, dados suficientes para afirmar que tenha ocorrido um boicote organizado e de grande escala contra a empresa.
A disputa também ganhou uma dimensão simbólica porque coloca frente a frente duas marcas de segmentos completamente diferentes: de um lado, uma das maiores casas de luxo do mundo; do outro, uma rede chinesa especializada em bebidas. A semelhança entre um desenho de quatro pétalas acabou sendo suficiente para desencadear um processo milionário e uma discussão internacional sobre os limites da propriedade de uma identidade visual.
O caso ainda poderá ganhar novos capítulos caso o recurso anunciado pela Molly Tea avance. Até lá, a Louis Vuitton permanece vencedora na primeira instância, enquanto a rede chinesa tenta transformar o apoio recebido nas redes em uma espécie de vitória de imagem.
No fim, o processo produziu uma situação incomum: a Louis Vuitton ganhou a batalha judicial de US$ 1,5 milhão, mas viu a Molly Tea conquistar parte da simpatia do público chinês. E uma discussão que começou com duas flores parecidas terminou envolvendo luxo, nacionalismo, cultura, propriedade intelectual e o poder dos consumidores nas redes sociais.