Louis Vuitton vence na Justiça, mas perde simpatia na China: processo de US$ 1,5 milhão provoca reação contra a grife

Louis Vuitton vence na Justiça, mas perde simpatia na China: processo de US$ 1,5 milhão provoca reação contra a grife
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 20 de agosto de 2026 14

Uma vitória judicial da Louis Vuitton contra uma popular rede chinesa de bebidas acabou produzindo um efeito inesperado fora dos tribunais. A grife francesa conseguiu uma decisão favorável em um processo contra a Molly Tea, condenada a pagar 10,3 milhões de yuans, cerca de US$ 1,5 milhão, por violação de marcas registradas. O resultado, porém, desencadeou forte reação nas redes sociais chinesas e colocou em discussão até onde uma empresa pode reivindicar exclusividade sobre determinados elementos gráficos.

O caso envolve o símbolo utilizado pela Molly Tea, uma flor de quatro pétalas que, segundo a Louis Vuitton, possui semelhanças com elementos do tradicional monograma da marca de luxo. O Tribunal Popular Intermediário de Suzhou, na província de Jiangsu, concluiu que a rede chinesa infringiu marcas registradas da Louis Vuitton e determinou o pagamento da indenização. Do total, 10 milhões de yuans correspondem a perdas econômicas e 300 mil yuans a despesas relacionadas ao processo.

Além da indenização, a Molly Tea foi obrigada a interromper o uso do elemento considerado infrator e publicar manifestações em seus canais oficiais para reduzir os efeitos da violação. A empresa chinesa informou que pretende recorrer da decisão.

A disputa judicial começou em maio de 2025 e ganhou força depois de questionamentos sobre pedidos de registro apresentados pela Molly Tea. Desde 2022, a empresa submeteu diferentes solicitações de registro de marcas, incluindo desenhos florais, mas várias delas foram rejeitadas pelas autoridades chinesas. Para o tribunal, a Louis Vuitton possui proteção sobre seu conhecido desenho floral e a semelhança apresentada pela rede de bebidas ultrapassou os limites permitidos.

Se juridicamente o resultado favoreceu a Louis Vuitton, nas redes sociais a situação tomou outro rumo. A condenação viralizou na China e uma parcela expressiva dos internautas passou a demonstrar apoio à Molly Tea. Um dos assuntos relacionados ao caso ultrapassou centenas de milhões de visualizações no Weibo, uma das principais plataformas sociais do país. A hashtag que pode ser traduzida como “Molly Tea perdeu o processo, mas ganhou o coração do público” superou 30 milhões de visualizações.

Parte da reação está relacionada à origem dos desenhos florais. Internautas, comentaristas e veículos chineses passaram a comparar o símbolo reivindicado pela Louis Vuitton com padrões encontrados em objetos e obras da cultura asiática anteriores à criação da marca francesa. O debate deixou de tratar apenas de propriedade intelectual e passou a envolver também patrimônio cultural e a utilização comercial de símbolos tradicionais.

O jornal estatal Beijing Daily, por exemplo, levantou questionamentos sobre a proteção de elementos presentes no patrimônio cultural chinês. Outros comentários nas redes acusaram a grife de tentar monopolizar uma forma geométrica semelhante a desenhos existentes há séculos. Por outro lado, também houve usuários defendendo a decisão e afirmando que o logotipo utilizado pela Molly Tea remetia imediatamente à identidade visual da Louis Vuitton.

A Louis Vuitton criou seu famoso monograma em 1896. Segundo a própria história divulgada pelo grupo LVMH, a identidade visual recebeu influência de ornamentações neogóticas e do japonismo, movimento artístico europeu fortemente influenciado pela estética japonesa. A proximidade entre esses elementos e antigos padrões asiáticos passou a ocupar o centro da discussão após o processo.

Já a Molly Tea é uma empresa bem mais recente. Fundada em 2021, a rede tornou-se conhecida principalmente pelas bebidas feitas com chá de jasmim e outros ingredientes florais. A companhia afirma possuir mais de 2 mil lojas, incluindo unidades fora da China, em mercados como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido, Tailândia, Indonésia e Singapura.

A repercussão evidencia um desafio especialmente sensível para marcas internacionais que atuam no mercado chinês. Embora a decisão judicial reconheça os direitos de propriedade intelectual da Louis Vuitton, a reação popular mostrou que uma vitória nos tribunais nem sempre representa uma vitória de imagem.

Nas redes, consumidores passaram a declarar apoio à Molly Tea e alguns afirmaram ter perdido a boa impressão que mantinham da Louis Vuitton. O episódio gerou manifestações contrárias à grife e discussões sobre boicote, embora não existam, até o momento, dados suficientes para afirmar que tenha ocorrido um boicote organizado e de grande escala contra a empresa.

A disputa também ganhou uma dimensão simbólica porque coloca frente a frente duas marcas de segmentos completamente diferentes: de um lado, uma das maiores casas de luxo do mundo; do outro, uma rede chinesa especializada em bebidas. A semelhança entre um desenho de quatro pétalas acabou sendo suficiente para desencadear um processo milionário e uma discussão internacional sobre os limites da propriedade de uma identidade visual.

O caso ainda poderá ganhar novos capítulos caso o recurso anunciado pela Molly Tea avance. Até lá, a Louis Vuitton permanece vencedora na primeira instância, enquanto a rede chinesa tenta transformar o apoio recebido nas redes em uma espécie de vitória de imagem.

No fim, o processo produziu uma situação incomum: a Louis Vuitton ganhou a batalha judicial de US$ 1,5 milhão, mas viu a Molly Tea conquistar parte da simpatia do público chinês. E uma discussão que começou com duas flores parecidas terminou envolvendo luxo, nacionalismo, cultura, propriedade intelectual e o poder dos consumidores nas redes sociais.

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