Violência contra a mulher: da imagem da “Mulher-Gato” às histórias reais, o que significa ser forte depois de sobreviver ao medo
Do cinema à vida real, a ideia da mulher que renasce depois de ser ferida encontra um Brasil onde ameaças, agressões, perseguições e feminicídios ainda fazem milhares de vítimas; no Tocantins, tentativas de feminicídio cresceram 50% no primeiro semestre de 2026
No cinema, uma mulher morre e volta diferente. Na vida real, sobreviver não acontece por efeito especial. Não existe roteiro capaz de apagar uma agressão, devolver instantaneamente a segurança ou transformar trauma em superpoder. Entre a personagem Mulher-Gato e as milhares de brasileiras que precisam reconstruir a própria vida depois da violência existe uma distância enorme — mas também um ponto de encontro simbólico: a ideia de recomeço.
No filme “Mulher-Gato”, lançado em 2004 e protagonizado por Halle Berry, a personagem Patience Phillips é uma artista tímida que trabalha para uma empresa de cosméticos. Depois de descobrir um segredo da companhia, ela é atacada e morta. A ficção lhe concede aquilo que a realidade não oferece: uma segunda vida. Patience retorna com força, velocidade, agilidade e sentidos extraordinários e passa a assumir a identidade da Mulher-Gato. A própria DC descreve a trajetória como a transformação de uma mulher discreta e submissa em alguém dotada de uma nova força e de uma nova possibilidade de existência.
O paralelo, porém, precisa ser feito com responsabilidade. “Mulher-Gato” não é um filme sobre violência doméstica ou feminicídio. Patience é vítima de uma conspiração corporativa. O que aproxima a personagem das histórias abordadas nesta reportagem é a metáfora da reconstrução: uma mulher que, depois de ter a própria vida arrancada de suas mãos, passa a se enxergar de outra maneira. Para mulheres que sobrevivem à violência no Brasil, essa transformação não vem acompanhada de poderes sobrenaturais. Muitas vezes ela começa com um boletim de ocorrência, uma medida protetiva, uma porta fechada para o agressor, uma rede de apoio ou simplesmente a decisão de contar a alguém o que vinha acontecendo dentro de casa.
E os números mostram por que falar sobre essas mulheres é urgente.
Em 2025, o Brasil registrou 3.539 homicídios de mulheres, incluindo os casos classificados como feminicídio. Desse total, 1.571 foram feminicídios, o equivalente a cerca de 4,3 mulheres assassinadas por dia por razões relacionadas à condição de mulher. O número cresceu 4% em relação aos 1.504 feminicídios registrados em 2024. Mais do que isso: 44,4% de todos os homicídios de mulheres registrados no país em 2025 foram classificados como feminicídio, a maior proporção da série apresentada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O perfil desses crimes ajuda a desmontar outra imagem frequentemente associada à violência: a de um agressor desconhecido esperando a vítima em uma rua escura. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 aponta que 56,5% das vítimas de feminicídio de 2025 foram mortas dentro de casa. Entre os casos com autoria identificada, 96,4% dos autores eram homens. Em 60,9% dos registros, o responsável era parceiro íntimo da vítima; outros 18,9% eram ex-parceiros e 12,1%, familiares. As mulheres negras representaram 65,1% das vítimas, enquanto 62,5% tinham entre 25 e 44 anos.
Antes da morte, em muitos casos, existe uma escalada de violência. Em 2025, o país contabilizou 4.189 tentativas de feminicídio, aumento de 5,9% em relação ao ano anterior. Isso significa que milhares de mulheres chegaram extremamente perto de se transformar em mais um registro de morte, mas sobreviveram. Considerando todas as tentativas de homicídio contra mulheres, incluindo as classificadas como tentativas de feminicídio, foram 8.864 vítimas no ano — aproximadamente 24 por dia.
É justamente entre a ameaça e a tentativa de matar que aparecem números ainda maiores. O Brasil registrou, em 2025, 286.270 casos de lesão corporal dolosa contra mulheres em contexto de violência doméstica, alta de 2,6% sobre 2024. Também foram registrados 788.531 casos de ameaça contra mulheres, além de 123.871 registros de perseguição, o chamado stalking, e 60.830 ocorrências de violência psicológica.
Outro indicador chama atenção: o descumprimento de medidas protetivas. Foram 132.025 registros em 2025, crescimento de 16,7% sobre o ano anterior. A medida protetiva existe justamente para estabelecer limites destinados a preservar a integridade da mulher, como afastamento e proibição de contato. Quando ela é violada, o risco pode permanecer ou aumentar.
O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública colocou essas dimensões lado a lado. Para cada feminicídio consumado em 2025, existiram, em média, cerca de 502 registros de ameaça, 182 registros de agressão física em contexto de violência doméstica, 84 registros de descumprimento de medida protetiva, 79 ocorrências de perseguição e quase três tentativas de feminicídio. Isso não significa que todas essas ocorrências pertençam às mesmas vítimas que posteriormente foram assassinadas. É uma comparação estatística que dimensiona a enorme base de violência que existe abaixo da forma mais extrema, que é a morte.
Tocantins: aumento das mortes em 2025 e alerta nas tentativas em 2026
No Tocantins, os dados de 2025 foram especialmente graves. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, 37 mulheres foram vítimas de homicídio no Estado naquele ano, contra 28 em 2024, aumento de 31,3%. Entre essas mortes, 20 foram classificadas como feminicídio, contra 13 no ano anterior. O crescimento foi de 52,8%. A taxa chegou a 2,5 feminicídios para cada 100 mil mulheres, colocando o Tocantins entre os estados com taxas mais elevadas do país. Além disso, 54,1% dos homicídios de mulheres registrados no Estado em 2025 foram classificados como feminicídios.
Os boletins e registros policiais mostram que o problema está muito além das mortes. Em 2025, o Tocantins contabilizou 8.209 registros de ameaça tendo mulheres como vítimas. Em 2024 haviam sido 8.130. No mesmo período, os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica passaram de 2.209 para 2.343, avanço de 5,3%.
Também houve 897 registros de perseguição contra mulheres no Tocantins em 2025, contra 871 no ano anterior. Os casos registrados como violência psicológica passaram de 501 para 553, alta de 9,6%. Já as ocorrências de descumprimento de medidas protetivas de urgência saltaram de 699 para 853, crescimento de 21,3% em apenas um ano.
Esses números, contudo, não devem ser somados como se representassem mulheres diferentes. Uma mesma vítima pode registrar ameaça, lesão corporal, perseguição e outros crimes dentro de um mesmo histórico de violência. Da mesma forma, um boletim de ocorrência pode conter mais de um fato. O dado mais seguro é entender cada categoria separadamente como um sinal do tamanho da demanda que chega às instituições.
Os primeiros seis meses de 2026 trouxeram outro alerta. Dados do Portal de Estatísticas da Secretaria da Segurança Pública do Tocantins, levantados e publicados em julho, apontaram 33 tentativas de feminicídio entre janeiro e junho, contra 22 no mesmo período de 2025. O crescimento foi de 50%. Somando tentativas e feminicídios consumados, foram 37 ocorrências no semestre. Quatro mulheres morreram, segundo esse recorte: duas em Araguaína, uma em Palmas e uma em Peixe.
Há uma observação metodológica importante. Bases de segurança pública são atualizadas e crimes podem ser reclassificados durante investigações. Por isso, levantamentos realizados em datas diferentes podem apresentar pequenas divergências. O Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, do Ministério da Justiça, classificou o Tocantins entre os estados com estabilidade nos feminicídios no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, enquanto o levantamento baseado no portal estadual apontou quatro mortes contra cinco no recorte anterior. Os dados não devem ser tratados como contradição automática sem considerar datas de extração, atualização e critérios de classificação.
No Brasil inteiro, o primeiro semestre de 2026 terminou com 741 feminicídios, contra 760 no mesmo período de 2025, redução de 2,5%. Junho teve 108 registros e foi o mês com menor número de feminicídios do semestre. A queda é relevante, mas ainda significa que, somente entre janeiro e junho, centenas de famílias perderam mães, filhas, irmãs e companheiras.
O boletim de ocorrência é apenas uma parte da história
O volume de denúncias também ajuda a mostrar uma realidade que nem sempre chega imediatamente à polícia. O Ligue 180 recebeu 1.088.900 atendimentos em 2025, cerca de 3 mil por dia. Foram 155.111 denúncias de violência contra mulheres, aumento de 17,4% diante de 2024. Dentro dessas denúncias foram relatadas 679.058 violações, porque uma mesma situação pode envolver diferentes formas de violência. A psicológica apareceu com mais de 339 mil registros e a física, com mais de 104 mil.
A procura continuou crescendo em 2026. Somente no primeiro semestre deste ano, o Ligue 180 registrou 74.396 denúncias, alta de 19% em relação às 62.349 do mesmo período de 2025. Esses números não correspondem necessariamente a boletins de ocorrência policiais: o 180 é uma central de orientação, acolhimento, denúncia e encaminhamento, enquanto o registro policial segue procedimentos próprios.
Quantos casos são resolvidos e quantos ficam sem resposta?
Quando a discussão chega à pergunta “quantos casos foram resolvidos?”, é preciso cuidado. Não existe, nas bases públicas consultadas, um número único que permita afirmar que determinada porcentagem dos feminicídios ocorridos no Tocantins em 2025 ou 2026 está “resolvida” e outra porcentagem permanece “sem solução”. Investigação policial, identificação de autoria, denúncia do Ministério Público, processo judicial, pronúncia ao Tribunal do Júri e julgamento são etapas diferentes. Um crime cometido em determinado ano pode ser julgado vários anos depois.
No plano nacional, o Conselho Nacional de Justiça informou que o Judiciário realizou 15.453 julgamentos relacionados a feminicídio em 2025, média de 42 por dia, 17% a mais que no ano anterior. Ao mesmo tempo, foram recebidos 11.883 novos processos dessa natureza. Isso não significa que 15 mil feminicídios tenham ocorrido em 2025: o número de julgamentos inclui ações iniciadas em anos anteriores e mostra o fluxo do sistema judicial, não a quantidade anual de mortes.
No Tocantins há sinais de avanço na velocidade dos julgamentos. Em 2025, o Judiciário estadual ultrapassou a Meta 8 estabelecida pelo CNJ para priorização dos processos de feminicídio, chegando a 101,5% do índice de cumprimento da meta no primeiro grau. O percentual superior a 100% representa a fórmula de desempenho da meta, e não significa que “101,5% dos feminicídios foram solucionados”.
Em maio de 2026, com sete meses de antecedência, as varas criminais e especializadas do Tocantins já haviam alcançado o objetivo do CNJ para este ano. A Meta 8 determina que sejam identificados e julgados até dezembro pelo menos 75% dos processos de feminicídio distribuídos até 31 de dezembro de 2024, além de 90% dos processos de violência doméstica e familiar contra mulheres distribuídos até aquela data. Palmas e Gurupi estavam entre as unidades com desempenho acima da meta.
Isso representa resposta judicial, mas não encerra a discussão sobre impunidade. “Caso julgado”, “crime elucidado” e “agressor condenado” são conceitos diferentes. Um processo pode terminar em condenação, absolvição ou outras decisões. Da mesma forma, uma investigação pode identificar suspeito antes de o caso chegar definitivamente ao Tribunal do Júri. É por isso que qualquer levantamento sobre “casos solucionados” precisa acompanhar cada ocorrência individualmente, do boletim à decisão final, para não criar uma taxa artificial.
Medida protetiva: milhares de mulheres procuram a Justiça antes que seja tarde
Outra dimensão importante está nas medidas protetivas. Somente em 2025, o Judiciário do Tocantins concedeu 5.733 medidas protetivas a mulheres em situação de violência. Nos dois primeiros meses de 2026, foram outras 850 decisões, contra 790 no mesmo período de 2025 — aproximadamente 14 medidas concedidas por dia naquele recorte.
Nacionalmente, o Judiciário apreciou cerca de 945 mil pedidos de medidas protetivas durante 2025, com mais de 621 mil medidas deferidas, segundo dados apresentados pelo Judiciário. O desafio, no entanto, não termina na assinatura da decisão. O Anuário de Segurança Pública contabilizou 132.025 ocorrências de descumprimento de medidas protetivas no país no mesmo ano.
O próprio Anuário traz outro dado duro: entre os 18 estados que forneceram essa informação, 70 vítimas de feminicídio tinham medida protetiva ativa quando foram assassinadas em 2025. Elas representavam 8,8% dos 797 feminicídios contabilizados nesses estados. O Tocantins aparece entre as unidades que não disponibilizaram essa informação específica ao levantamento, o que impede saber, por essa base, quantas vítimas tocantinenses estavam formalmente protegidas no momento da morte.
A lei ficou mais dura
Desde outubro de 2024, o feminicídio passou a ser crime autônomo no Código Penal brasileiro. A Lei nº 14.994 criou o artigo 121-A e estabeleceu pena de 20 a 40 anos de reclusão para quem matar uma mulher por razões da condição do sexo feminino, situação caracterizada quando há violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A legislação também prevê hipóteses de aumento de pena.
O endurecimento da lei responde à gravidade da violência, mas as estatísticas mostram que punição posterior, sozinha, não resolve o problema. A mulher precisa conseguir sobreviver antes que o processo criminal chegue à fase de julgamento. É nesse ponto que delegacias, medidas protetivas, patrulhas especializadas, assistência social, saúde, Defensoria, Ministério Público, Judiciário, família, vizinhos e amigos podem fazer diferença.
A “Mulher-Gato” da ficção e as mulheres que precisam reaprender a viver
Na tela, Patience Phillips precisa literalmente morrer para descobrir a força que carregava. É uma imagem poderosa para o cinema, mas que seria cruel se aplicada de maneira literal à vida real. Nenhuma mulher precisa ser agredida para se tornar forte. Nenhuma vítima deve ser obrigada a transformar sofrimento em uma história inspiradora. Sobreviver já pode exigir uma força imensa; reconstruir a vida, ainda mais.
A verdadeira “volta por cima” pode assumir formas muito menos cinematográficas. Pode ser uma mulher que consegue dormir sem medo depois que o agressor é afastado. Outra que recupera o próprio salário depois de anos de violência patrimonial. A que volta a estudar. A que procura atendimento psicológico. A que consegue sair de casa com os filhos. A que denuncia depois de meses ou anos em silêncio. A que recomeça um relacionamento saudável. E até aquela que ainda não conseguiu romper completamente o ciclo, mas encontrou alguém em quem confiar.
Também é preciso abandonar a cobrança para que toda sobrevivente seja “forte” o tempo inteiro. Medo, insegurança, dependência financeira, filhos, isolamento, ameaças, vergonha e dependência emocional podem dificultar a saída de uma relação violenta. O fato de uma mulher permanecer ou retornar ao relacionamento não transforma a violência em responsabilidade dela. A responsabilidade pela agressão é de quem agride.
Talvez seja justamente aí que o símbolo da Mulher-Gato encontre seu paralelo mais interessante. A personagem muda quando recupera a possibilidade de decidir sobre a própria existência. Para milhares de mulheres reais, a reconstrução também passa pela recuperação dessa autonomia — mas sem fantasia, sem sete vidas e sem garantia de que o perigo desaparecerá na cena seguinte.
Os dados de Brasil e Tocantins mostram que a violência não começa no feminicídio. Muitas vezes ela aparece antes na humilhação, no controle, na ameaça, na perseguição, na agressão física ou no descumprimento de uma ordem judicial. Reconhecer essa escalada pode representar a diferença entre registrar mais uma tentativa e impedir mais uma morte.
Ser uma mulher forte, portanto, não deveria significar aprender a suportar violência. Força também é poder viver sem precisar sobreviver a ela.
Mulheres que estejam enfrentando violência podem buscar orientação e registrar denúncias gratuitamente pelo Ligue 180, disponível 24 horas por dia. Em situação de emergência ou risco imediato, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.