Crime que chocou Babaçulândia termina com pena de 70 anos para pai que matou a própria filha

Crime que chocou Babaçulândia termina com pena de 70 anos para pai que matou a própria filha
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 24 de agosto de 2026 11

O crime que chocou Babaçulândia e provocou forte comoção no norte do Tocantins terminou com uma condenação de 70 anos de prisão. João Vitor Oliveira Matos foi considerado culpado pelo feminicídio da própria filha, Wevelin Vitória Carvalho Oliveira, de apenas 12 anos. O julgamento ocorreu na quinta-feira, 20 de agosto, no Tribunal do Júri de Filadélfia, e os jurados acolheram integralmente as teses apresentadas pelo Ministério Público do Tocantins.

A Justiça determinou que João Vitor cumpra a pena em regime fechado e negou a ele o direito de recorrer em liberdade. A condenação encerra uma etapa de um processo que teve início após o assassinato ocorrido em 14 de julho de 2025, no povoado Vila Corrente, zona rural de Babaçulândia.

Wevelin tinha apenas 12 anos quando foi morta dentro da própria residência. Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público durante o julgamento, o assassinato não teria sido um episódio isolado, mas o desfecho de um contexto contínuo de violência, controle e abusos atribuídos ao pai contra a adolescente.

A denúncia apresentada anteriormente pelo MPTO também apontava que João Vitor teria praticado reiteradamente atos de natureza sexual contra a filha, aproveitando-se da relação de autoridade e da vulnerabilidade da adolescente. Ele chegou a responder no processo também por estupro de vulnerável.

No dia do crime, segundo a versão apresentada pela acusação aos jurados, João Vitor havia ingerido bebida alcoólica e passou parte do dia amolando um facão. Em determinado momento, ele teria se trancado dentro da casa com a filha, dificultando qualquer possibilidade de fuga.

A adolescente acabou atingida por um golpe profundo na região do pescoço. Quando as equipes de segurança chegaram ao local, o cenário indicava a gravidade da ocorrência. Informações divulgadas na época apontaram que o crime aconteceu por volta das 18h30 e que o pai estava dentro da residência com os filhos.

Durante o julgamento, o promotor de Justiça Guilherme Cintra Deleuse ficou responsável pela sustentação da acusação e apresentou ao Conselho de Sentença a sequência dos fatos e as circunstâncias que, na avaliação do Ministério Público, demonstravam a gravidade do crime.

Os jurados reconheceram que o assassinato configurou feminicídio e aceitaram as qualificadoras de emprego de meio cruel e utilização de recurso que dificultou a defesa da vítima. Para a acusação, o fato de Wevelin ter sido mantida dentro da residência sem possibilidade de escapar colocou a adolescente em situação ainda maior de vulnerabilidade.

A maneira como o golpe foi executado também pesou para o reconhecimento do meio cruel. O Ministério Público sustentou que a forma empregada provocou intenso sofrimento à adolescente antes da morte. A idade da vítima também teve impacto direto na pena, já que Wevelin tinha menos de 14 anos.

Na definição dos 70 anos de prisão, a Justiça levou em consideração ainda a premeditação atribuída ao condenado, sua conduta social, as circunstâncias do assassinato e as consequências provocadas aos demais integrantes da família.

Um dos pontos mais graves apresentados durante o julgamento envolveu o irmão de Wevelin. Segundo o MPTO, João Vitor teria tentado coagir outro filho, também menor de idade, a participar da execução da irmã. Essa circunstância foi considerada na fixação da pena e também nas consequências psicológicas deixadas pelo crime.

Quando o caso veio à tona, em julho de 2025, a Polícia Militar foi acionada para a residência da família. Informações divulgadas na época apontaram que João Vitor estava alcoolizado, havia se trancado no imóvel e mantinha o som em volume elevado, o que dificultou inicialmente o contato dos policiais com quem estava dentro da casa.

Após o assassinato, o caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e posteriormente encaminhado ao Ministério Público. Em setembro de 2025, a Justiça recebeu a denúncia contra João Vitor, dando início formal ao processo criminal na Vara Criminal da Comarca de Filadélfia.

Naquele momento, as acusações já iam além do feminicídio. O Ministério Público sustentava que havia indícios de violência sexual anterior praticada contra Wevelin e que o assassinato poderia estar relacionado à tentativa de impedir que outros crimes atribuídos ao pai fossem revelados ou permanecessem impunes.

O processo seguiu pelas fases de citação, apresentação de defesa, produção de provas e audiência até que o caso fosse levado ao Tribunal do Júri, responsável constitucionalmente pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.

Pouco mais de um ano depois da morte de Wevelin, sete jurados foram chamados a decidir se João Vitor deveria ser responsabilizado pelo crime e se as circunstâncias qualificadoras apresentadas pela acusação deveriam ser reconhecidas. O Conselho de Sentença acolheu integralmente as teses do Ministério Público.

A decisão resultou em uma das penas de maior repercussão recente em um caso de feminicídio envolvendo uma criança no Tocantins. Os 70 anos de reclusão refletem não somente o reconhecimento da autoria do assassinato, mas também o conjunto de agravantes e qualificadoras consideradas durante a sentença.

A defesa de João Vitor foi realizada pela Defensoria Pública. Procurada por veículos de comunicação após o julgamento, a instituição não havia apresentado manifestação pública sobre a sentença até as últimas atualizações das reportagens consultadas.

O caso também chama atenção para o fato de que a violência ocorreu dentro do ambiente familiar e teve como acusado justamente aquele que deveria exercer papel de proteção sobre a vítima. Esse aspecto esteve presente na argumentação apresentada pelo Ministério Público ao reconstruir o histórico de controle e violência atribuído ao condenado.

Wevelin Vitória Carvalho Oliveira tinha somente 12 anos. Seu nome passou a ficar associado a um dos crimes mais violentos registrados em Babaçulândia nos últimos anos e a um processo que mobilizou Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública e Poder Judiciário.

Com a decisão do Tribunal do Júri, João Vitor Oliveira Matos permanece preso e começa a cumprir uma pena fixada em 70 anos de reclusão. A Justiça também negou a possibilidade de ele aguardar eventual recurso em liberdade.

Mais de um ano depois daquela noite de 14 de julho de 2025, o crime que abalou a pequena comunidade de Vila Corrente chegou ao julgamento popular. Para o Ministério Público, as provas apresentadas demonstraram feminicídio marcado por premeditação, crueldade e impossibilidade de defesa. Para os jurados, os argumentos foram suficientes para uma resposta definitiva no Tribunal do Júri: condenação e 70 anos de prisão.

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