Mosquito contra mosquito: Palmas começa estratégia com Wolbachia para reduzir dengue, zika e chikungunya

Mosquito contra mosquito: Palmas começa estratégia com Wolbachia para reduzir dengue, zika e chikungunya
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 27 de agosto de 2026 17

Palmas está entrando em uma nova fase no combate à dengue, zika e chikungunya. A Capital tocantinense iniciou a implantação do Método Wolbachia, estratégia que utiliza o próprio Aedes aegypti para dificultar a transmissão dos vírus. A previsão é que os chamados “Wolbitos”, mosquitos que carregam a bactéria Wolbachia, comecem a ser liberados em diferentes regiões da cidade a partir da segunda quinzena de outubro, em um trabalho previsto para durar 26 semanas.

A iniciativa é desenvolvida pela Prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (Semus), em parceria com o Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Wolbito do Brasil. Antes das liberações, a Capital passa por uma fase de preparação, com capacitação de profissionais, diálogo com a comunidade e estruturação dos locais que serão utilizados durante a execução do programa.

A estratégia chama atenção porque, em vez de eliminar diretamente o Aedes aegypti, utiliza mosquitos da própria espécie para reduzir a capacidade de transmissão das arboviroses. Os Wolbitos possuem a bactéria Wolbachia, que dificulta o desenvolvimento dos vírus da dengue, zika e chikungunya dentro do mosquito.

A Wolbachia ocorre naturalmente em diferentes espécies de insetos, mas não está presente naturalmente no Aedes aegypti. Por meio do método desenvolvido cientificamente, a bactéria é introduzida nos mosquitos que posteriormente são liberados no ambiente.

Ao se reproduzirem com os Aedes já existentes na cidade, os Wolbitos transmitem a bactéria para as próximas gerações. Com o passar do tempo, a expectativa é aumentar a quantidade de mosquitos com Wolbachia circulando na cidade e, consequentemente, reduzir a capacidade de transmissão dos vírus.

Apesar de provocar curiosidade entre os moradores, os responsáveis pelo programa reforçam que os Wolbitos não são mosquitos geneticamente modificados. O DNA do Aedes aegypti não é alterado durante o processo.

Antes da implantação, equipes realizaram ações de mobilização nas regiões que deverão receber o método. Entre os dias 22 e 26 de junho, moradores foram abordados para conhecer melhor a proposta e responder a uma pesquisa sobre a aceitação da tecnologia.

Ao todo, 719 moradores de Palmas participaram do levantamento. Segundo os dados divulgados, 86,1% dos entrevistados disseram concordar com a implantação do Método Wolbachia na Capital.

Entre os moradores abordados durante o processo, uma das principais dúvidas esteve relacionada justamente ao fato de a estratégia prever a liberação de mosquitos. A explicação dada pelas equipes é que a medida não busca aumentar de forma descontrolada a população do Aedes, mas substituir gradualmente parte dos mosquitos existentes por indivíduos com menor capacidade de transmitir os vírus.

A avaliação positiva registrada entre os moradores demonstra que a maior parte dos entrevistados recebeu bem a proposta, embora o trabalho de informação continue sendo considerado essencial para que a população entenda como a tecnologia funciona e não confunda a liberação dos Wolbitos com um aumento deliberado do risco de transmissão das doenças.

Nesta quarta-feira, 26, agentes de combate às endemias e agentes comunitários de saúde das regiões central e norte participaram de uma etapa de capacitação sobre o Método Wolbachia, realizada na Escola de Tempo Integral Almirante Tamandaré.

Os profissionais serão responsáveis por manter contato direto com os moradores, explicar a estratégia e responder às principais dúvidas durante as visitas domiciliares e demais ações de saúde desenvolvidas nos bairros.

A analista em saúde Renata Braga destacou que os agentes terão uma função decisiva para que a população compreenda a nova estratégia. “Os agentes têm um papel muito importante nesse processo, porque são eles que estão diariamente em contato com a população. Por isso, é fundamental que estejam preparados para explicar o método, esclarecer as dúvidas que possam surgir e transmitir as informações de forma clara e segura”, afirmou.

O supervisor-geral dos agentes de combate às endemias das regiões norte e sul, Adão José Teixeira, também avaliou que a capacitação fortalece o trabalho de orientação aos moradores.

“Essa capacitação traz uma melhoria para o trabalho com a população, porque nos dá mais segurança e confiança para conversar com os usuários e explicar como o método funciona”, declarou.

A agente comunitária de saúde Jozilene Souza da Silva afirmou que já havia participado de uma capacitação virtual sobre a Wolbachia, mas destacou a importância do treinamento presencial para esclarecer dúvidas.

“Essa formação presencial foi importante para tirar dúvidas e entender melhor como podemos orientar a população. Dessa forma, conseguimos evitar ruídos na comunicação e passar as informações de maneira mais clara”, disse.

Palmas também contará com uma estrutura própria para apoiar a estratégia. Um insetário será instalado na Unidade de Vigilância e Controle de Zoonoses (UVCZ), onde serão realizadas etapas relacionadas à criação dos mosquitos com Wolbachia utilizados durante o programa.

As liberações deverão ocorrer de maneira gradual ao longo das 26 semanas programadas. A estratégia depende da reprodução dos Wolbitos com os mosquitos existentes no ambiente para que a bactéria seja transmitida às novas gerações.

O método já vem sendo utilizado em outras cidades brasileiras e em diferentes países. Uma das experiências de maior destaque no Brasil ocorreu em Niterói, no Rio de Janeiro, onde dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontaram redução expressiva nos casos de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti após a implantação da estratégia.

Os resultados apresentados apontaram redução de aproximadamente 89% nos casos de dengue, 60% nos registros de chikungunya e 37% nos casos de zika no município fluminense, números que ajudaram a ampliar o interesse pela adoção da tecnologia em outras regiões do país.

Mesmo com a chegada da Wolbachia, a orientação das autoridades de saúde continua a mesma em relação aos cuidados dentro das residências. O método não elimina a necessidade de combater os criadouros do Aedes aegypti.

Recipientes com água parada, pneus, vasos de plantas, garrafas, calhas, caixas d’água destampadas e objetos deixados nos quintais continuam oferecendo condições para a reprodução do mosquito. Por isso, os moradores devem manter a rotina de fiscalização dentro das próprias casas.

A expectativa é que a implantação da Wolbachia passe a funcionar como mais uma ferramenta de prevenção em Palmas, somando-se às visitas dos agentes, eliminação de criadouros, monitoramento epidemiológico e ações tradicionais de combate ao mosquito.

Para os moradores, a chegada da tecnologia mistura curiosidade e expectativa. A ampla aprovação registrada na pesquisa realizada antes da implantação mostra que boa parte da população está disposta a conhecer uma estratégia diferente para enfrentar doenças que todos os anos preocupam famílias e pressionam os serviços de saúde.

O Diário Tocantinense continuará acompanhando a implantação do Método Wolbachia em Palmas, incluindo o início das liberações, a reação dos moradores nos bairros contemplados e os primeiros resultados do monitoramento realizado pelas autoridades de saúde.

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