Ao vivo na Globo, Lula cobra emissora e imprensa pela Lava Jato e diz que grandes veículos “compraram e venderam mentiras”

Ao vivo na Globo, Lula cobra emissora e imprensa pela Lava Jato e diz que grandes veículos “compraram e venderam mentiras”
Crédito: Rede Globo
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 28 de agosto de 2026 13

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, protagonizou um dos momentos de maior tensão da série de sabatinas da TV Globo ao confrontar a emissora e fazer duras críticas à cobertura da imprensa durante a Operação Lava Jato. O Diário Tocantinense acompanhou a entrevista realizada na noite desta quinta-feira, 27 de agosto, conduzida pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos. A sabatina foi exibida ao vivo após o Jornal Nacional, embora formalmente não tenha integrado a edição do telejornal.

O embate aconteceu quando Lula era questionado sobre investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Ao responder sobre mensagens e informações levantadas pela Polícia Federal, o presidente deixou o caso atual por alguns momentos e voltou à própria experiência com a Lava Jato para afirmar que já havia sido alvo, segundo ele, de acusações construídas a partir de informações que posteriormente não se sustentaram judicialmente.

Lula afirmou que a imprensa brasileira teria comprado uma versão apresentada durante a Lava Jato, reproduzido essa narrativa para a sociedade e, na avaliação dele, nunca feito uma autocrítica proporcional ao espaço dedicado às acusações. Foi nesse momento que o clima da entrevista mudou e o candidato passou da condição de entrevistado pressionado pelas perguntas para uma ofensiva direta contra parte da cobertura jornalística realizada durante os anos da operação.

Durante a resposta, Lula voltou a mencionar o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol. O presidente recordou ainda o conhecido PowerPoint apresentado pelo Ministério Público Federal em 2016, no qual seu nome aparecia no centro de uma série de conexões durante a exposição da denúncia relacionada ao triplex do Guarujá.

“A imprensa brasileira comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu a mentira”, afirmou Lula durante a sabatina, ao sustentar que os veículos deram credibilidade às acusações apresentadas contra ele naquele período.

Lula também relembrou que permaneceu 589 dias preso e disse ter optado por enfrentar os processos para demonstrar que as acusações contra ele não correspondiam à verdade. Ao relacionar sua situação ao caso envolvendo o filho, afirmou que Lulinha não terá qualquer tipo de proteção da Presidência da República e que, caso tenha cometido algum ilícito, deverá responder como qualquer outro cidadão.

A reação veio ainda durante a entrevista. Renata Vasconcellos defendeu o papel do jornalismo da Globo na cobertura dos acontecimentos e sustentou que a emissora cumpriu sua obrigação de informar sobre os fatos existentes naquele momento. Lula, porém, manteve as críticas e voltou a dizer que não havia esquecido a apresentação de Dallagnol e a maneira como as acusações foram repercutidas pela imprensa.

César Tralli também interrompeu Lula quando o presidente voltou a falar em PowerPoint. O apresentador mencionou uma retratação feita pela Globo em relação a uma apresentação exibida pela GloboNews. A referência de Tralli, no entanto, era a outro episódio: um material relacionado ao caso Banco Master, e não ao PowerPoint apresentado por Dallagnol durante a Lava Jato.

O episódio trouxe novamente para o centro do debate eleitoral de 2026 uma discussão que marcou profundamente a política brasileira na última década: até onde foi o papel da imprensa na cobertura da Lava Jato e quais consequências políticas foram produzidas a partir das investigações.

É importante separar, porém, as declarações políticas feitas por Lula das decisões judiciais efetivamente tomadas nos processos. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a anulação das condenações do petista relacionadas aos processos que haviam tramitado na 13ª Vara Federal de Curitiba. A decisão ocorreu porque o STF considerou que aquele juízo não tinha competência para processar os casos envolvendo Lula.

Em outra decisão, o Supremo também confirmou a suspeição de Sergio Moro na condução do processo do triplex do Guarujá. Por sete votos a quatro, o plenário manteve o entendimento de que o então juiz havia atuado com parcialidade naquele processo, anulando os atos praticados por Moro no caso.

O episódio do PowerPoint também teve consequências judiciais. O Superior Tribunal de Justiça manteve condenação de Deltan Dallagnol ao pagamento de indenização por danos morais a Lula. Na decisão, o STJ considerou que o então procurador extrapolou os limites de suas funções ao utilizar determinadas qualificações durante a apresentação pública da denúncia.

Essas decisões, entretanto, não significam automaticamente que toda reportagem publicada pela imprensa durante a Lava Jato tenha sido considerada falsa pelo Judiciário. A afirmação de que os grandes veículos “compraram e venderam mentiras” representa a avaliação política de Lula sobre a cobertura realizada naquele período.

O Diário Tocantinense acompanhou a sabatina e observou que o confronto sobre a Lava Jato surgiu justamente em meio às perguntas mais delicadas feitas ao presidente. Tralli e Renata questionaram Lula sobre investigações envolvendo Lulinha, a relação com a lobista Roberta Luchsinger e outros personagens citados em apurações da Polícia Federal. Ao longo de aproximadamente 40 minutos, também entraram no debate Banco Master, INSS, segurança pública, economia e educação.

Sobre o filho, Lula repetiu que não utilizará o cargo para impedir qualquer investigação. Disse que a Polícia Federal terá liberdade para trabalhar e que, caso Fábio Luís tenha cometido alguma irregularidade, deverá pagar por ela. Ao mesmo tempo, afirmou acreditar na inocência do filho e classificou parte do material apresentado até agora como baseado em ilações.

Foi exatamente dessa discussão que Lula puxou a Lava Jato para dentro da entrevista. A estratégia mudou o rumo daquele trecho da sabatina: o presidente deixou de responder exclusivamente às suspeitas atuais e passou a questionar os métodos utilizados contra ele no passado.

O resultado foi um dos momentos politicamente mais fortes da entrevista. De um lado, Lula cobrando publicamente uma autocrítica da imprensa pelo tratamento dado à Lava Jato. Do outro, os apresentadores defendendo o trabalho jornalístico e tentando manter o foco nas perguntas sobre os fatos atuais.

Mais de uma década depois do auge da operação, a Lava Jato mostrou na noite desta quinta-feira que continua produzindo efeitos no debate político brasileiro. Em plena campanha presidencial de 2026, Lula levou novamente para a televisão aberta as cicatrizes dos processos que resultaram em sua prisão, enquanto a Globo sustentou diante do próprio candidato a legitimidade de sua atuação jornalística.

O confronto também antecipa um tema que deverá reaparecer ao longo da campanha: enquanto adversários de Lula devem explorar as investigações atuais envolvendo pessoas próximas ao presidente, o petista tende a responder trazendo para o debate o histórico da Lava Jato, as decisões posteriores do Supremo e aquilo que considera excessos cometidos por investigadores e pela cobertura da imprensa.

Na noite de quinta-feira, esse embate deixou de ser apenas memória da política brasileira. Ao vivo, diante de milhões de telespectadores, voltou a ocupar o centro de uma eleição presidencial.

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