MP apura destino milionário das inscrições de concurso com 38 mil candidatos em Araguaína

MP apura destino milionário das inscrições de concurso com 38 mil candidatos em Araguaína
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 4 de setembro de 2026 13

Promotoria quer saber quanto foi efetivamente arrecadado, em qual conta o dinheiro entrou e qual será o destino da diferença entre taxas cobradas dos candidatos e remuneração prevista para o IDIB

O caminho percorrido pelo dinheiro das inscrições do concurso público da Prefeitura de Araguaína entrou oficialmente na mira do Ministério Público do Tocantins. O certame registrou 38.350 inscrições confirmadas e envolve um contrato estimado em quase R$ 5 milhões com o Instituto de Desenvolvimento Institucional Brasileiro, o IDIB.

O Procedimento Preparatório nº 2026.0016368 é conduzido pelo promotor de Justiça Saulo Vinhal da Costa, da 6ª Promotoria de Justiça de Araguaína. A investigação busca identificar quanto foi efetivamente arrecadado, em qual conta os valores pagos pelos candidatos foram depositados, como a receita foi contabilizada e que destinação será dada a eventual saldo.

Um dos pontos centrais está na diferença entre a taxa paga pelo candidato e o valor unitário previsto para remunerar a banca organizadora.

O contrato estabelece R$ 107 por inscrição homologada para cargos de níveis médio e técnico e R$ 129 para nível superior. Já os editais cobraram R$ 115 nos níveis médio e técnico, R$ 160 para a maior parte dos cargos de nível superior e R$ 180 para procurador municipal.

Na comparação nominal, são diferenças de R$ 8, R$ 31 e, no caso de procurador, R$ 51 por inscrição.

Mas há uma cautela indispensável: não é correto multiplicar simplesmente 38.350 pela maior taxa e apresentar o resultado como arrecadação do município. Das inscrições confirmadas, 1.793 tiveram isenção, as taxas variaram de acordo com o cargo e uma mesma pessoa pôde se inscrever em mais de um dos quatro editais. O cálculo final depende ainda de restituições e possíveis custos bancários.

O contrato com o IDIB tem valor global estimado de R$ 4.957.040. Esse valor não significa necessariamente que todo o montante será pago: a remuneração efetiva depende das condições estabelecidas no contrato e do número de inscrições homologadas.

A investigação atual se soma a questionamentos já acompanhados pelo Diário Tocantinense. Em agosto, o DT mostrou que o concurso já havia chegado ao Ministério Público por outras frentes, inclusive denúncias relacionadas à aplicação das provas e questionamentos sobre a contratação da banca. Naquela ocasião, o próprio jornal ressaltou que investigação não equivale a comprovação de fraude ou ilegalidade.

Há também um ponto jurídico relevante sobre a natureza da receita. Em entendimento firmado em consulta sobre concursos públicos, o Tribunal de Contas de Minas Gerais considerou que valores arrecadados com taxas de inscrição possuem natureza de receita pública e que eventual excedente em relação ao custo contratado deve permanecer nos cofres públicos, conforme o modelo contratual analisado naquele caso. Trata-se de referência técnica geral, e não de decisão sobre o concurso de Araguaína.

É justamente essa trilha que o MPTO pretende esclarecer no caso tocantinense.

A Prefeitura informou anteriormente que o concurso é um dos maiores realizados por um município brasileiro em 2026, com 1.533 vagas entre imediatas e cadastro reserva. Mais de 31 mil inscrições registraram comparecimento às provas de agosto.

Agora, além do resultado das provas, uma segunda conta interessa à população: quanto entrou, quanto será pago ao IDIB e onde ficará cada real da diferença.

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