Editorial: Dorinha cerca o Tocantins de aliados: o que os votos de prefeitos, vereadores, deputados e senadores revelam sobre a corrida ao Palácio Araguaia

Editorial: Dorinha cerca o Tocantins de aliados: o que os votos de prefeitos, vereadores, deputados e senadores revelam sobre a corrida ao Palácio Araguaia
Crédito: Assessoria
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 8 de setembro de 2026 6

A disputa pelo Governo do Tocantins em 2026 entrou em uma fase em que olhar apenas para as pesquisas pode esconder uma parte importante do jogo eleitoral. Professora Dorinha chega à reta decisiva com uma extensa rede de prefeitos, vereadores, deputados, candidatos proporcionais, lideranças municipais e nomes de peso na disputa pelo Senado. Mas qual é o tamanho real dessa força? E, principalmente, quanto desse capital político consegue chegar até a urna?

A primeira medida da própria Dorinha impressiona. Na eleição de 2022, quando conquistou uma vaga no Senado, ela recebeu 395.408 votos, equivalentes a 50,42% dos votos válidos para o cargo. Foi uma votação distribuída pelos 139 municípios tocantinenses e que permanece como uma referência importante para avaliar seu ponto de partida eleitoral em 2026.

Mas eleição para governador é outra disputa. O eleitor vota dentro de outro contexto, os adversários são diferentes e a organização municipal passa a ter peso ainda maior. É exatamente aí que entram os prefeitos.

Nos principais centros eleitorais do Tocantins, Dorinha conseguiu reunir gestores que saíram das urnas municipais com votações expressivas. Eduardo Siqueira Campos, prefeito de Palmas, declarou apoio à candidata e foi eleito em 2024 com 78.673 votos no segundo turno, ou 53,03% dos votos válidos. Palmas é o principal colégio eleitoral do Estado e, por isso, qualquer movimentação de sua estrutura política possui repercussão estadual.

Em Araguaína, Wagner Rodrigues também está com Dorinha. Ele foi reeleito em 2024 com uma votação ainda mais contundente proporcionalmente: 73.158 votos, correspondentes a 78,38% dos votos válidos. Wagner passou a participar diretamente da mobilização eleitoral de Dorinha na cidade e, em setembro, voltou a apresentar publicamente a candidatura da senadora dentro de sua chapa de apoios.

Gurupi acrescenta outra peça importante. Josi Nunes foi reeleita prefeita com 25.533 votos, 55,47% dos válidos, e aparece na campanha como uma das principais aliadas de Dorinha no sul do Tocantins. Além do apoio político, Josi passou a apresentar um levantamento municipal atribuindo aproximadamente R$ 85 milhões em recursos destinados por Dorinha para Gurupi entre 2021 e 2026, envolvendo infraestrutura, saúde, aeroporto, equipamentos e outras áreas.

Porto Nacional talvez seja um dos casos politicamente mais instigantes. Ronivon Maciel foi reeleito prefeito em 2024 com 23.988 votos, ou 65,34% dos válidos, e está na campanha de Dorinha. Mais do que isso: 11 dos 15 vereadores da cidade declararam apoio à candidata, o equivalente a aproximadamente 73% da Câmara Municipal. Porto possui ainda um componente simbólico: é uma das principais referências políticas do adversário Vicentinho Júnior.

Em Paraíso do Tocantins, Celso Morais também reafirmou apoio a Dorinha. O prefeito foi reeleito em 2024 com 21.892 votos, impressionantes 80,57% dos votos válidos. No mesmo município, Dorinha recebeu manifestações públicas de outras lideranças políticas durante a construção de sua candidatura.

Guaraí acrescenta mais um núcleo de forte concentração política. Fátima Coelho conquistou 9.733 votos em 2024, ou 71,10% dos válidos. Em fevereiro deste ano, ela, o vice-prefeito e 10 dos 11 vereadores do município confirmaram alinhamento com Dorinha e Eduardo Gomes.

Campos Lindos apresenta uma situação ainda mais concentrada. Romeu Kalugin foi reeleito com 4.755 votos, equivalentes a 79% dos válidos. Prefeito, vice e os nove vereadores do município anunciaram apoio conjunto a Dorinha. Politicamente, significa que praticamente toda a estrutura eletiva municipal se posicionou na mesma direção para a disputa estadual.

Há ainda Colinas do Tocantins. Zé Nagru, atualmente à frente da Prefeitura, integrou como vice a chapa de Dr. Kasarin que recebeu 14.098 votos em 2024, ou 73,35% dos válidos. Em agosto, 11 dos 13 vereadores de Colinas anunciaram apoio à candidatura de Dorinha ao lado do prefeito.

Somadas apenas as votações municipais dessas oito chapas e prefeitos — Palmas, Araguaína, Gurupi, Porto Nacional, Paraíso, Guaraí, Campos Lindos e Colinas — chega-se a aproximadamente 251,8 mil votos obtidos nas eleições municipais de 2024.

Esse número não pode ser apresentado como 251 mil votos de Dorinha.

Seria incorreto.

Ele representa o tamanho do capital eleitoral anterior de alguns dos principais grupos municipais que hoje se encontram próximos à candidatura. Prefeito não transfere automaticamente voto. Um eleitor que votou em Eduardo Siqueira em Palmas, Wagner Rodrigues em Araguaína ou Josi Nunes em Gurupi não está obrigado a seguir a escolha do prefeito para governador.

Mas ignorar essa estrutura também seria um erro de análise.

Esses gestores possuem equipes políticas, vereadores, secretários, ex-vereadores, suplentes, candidatos proporcionais, lideranças comunitárias e presença cotidiana dentro dos municípios. É essa capilaridade que transforma o apoio de um prefeito em algo potencialmente maior do que uma declaração em palanque.

Os vereadores representam a camada seguinte dessa estrutura.

Em abril, foi anunciado apoio de 20 vereadores de Palmas à então pré-candidatura de Dorinha. Mais recentemente, foram anunciados 11 vereadores em Porto Nacional, 11 em Colinas, os nove integrantes da Câmara de Cachoeirinha, 10 dos 11 vereadores de Guaraí, os nove de Campos Lindos e grupos em Dois Irmãos, Combinado, Rio dos Bois, Itaporã, Barrolândia, Pedro Afonso e outros municípios.

O caso de Colinas ajuda a mostrar o que esses números significam na prática. Na eleição municipal de 2024, Augusto Agra recebeu 1.102 votos; Jefferson Bandeira, o Chokito, 649; Daniel Garrincha, 640; Professora Elma, 618; Lazim do Diógenes, 543; Gildeon Morais, 521; Naiara Miranda, 495; Edmilson Bolota, 436; Dayhany Mota, 428; e Gauchinho da Labella, 312 votos. Diversos desses parlamentares aparecem entre os vereadores que anunciaram apoio a Dorinha.

Novamente, somar essas votações e apresentá-las como votos garantidos seria eleitoralmente enganoso. O que esses números demonstram é outra coisa: vereadores possuem bases próprias.

E é exatamente aí que entram as lideranças de bairro.

Uma liderança comunitária pode não possuir mandato, gabinete ou uma votação registrada oficialmente pelo TSE, mas muitas vezes é justamente quem mantém o contato mais direto com dezenas ou centenas de famílias. É quem organiza reunião, conhece comerciantes, conversa com moradores, participa de igrejas, associações, projetos sociais, esporte e movimentos comunitários.

Na lógica eleitoral, o prefeito oferece a estrutura municipal; o vereador possui sua base; o candidato proporcional amplia a rede; e a liderança de bairro é frequentemente a última conexão antes do eleitor.

Essa organização é especialmente importante para Dorinha porque sua candidatura possui uma quantidade expressiva de aliados, mas precisa fazer esses apoios funcionarem simultaneamente.

Os deputados também carregam votação própria.

Entre nomes que já apareceram publicamente alinhados com Dorinha está Jair Farias, atualmente candidato a deputado federal. Na eleição de 2022 para deputado estadual, Jair recebeu 31.442 votos e terminou entre os mais votados do Tocantins. Sua força é particularmente importante no Bico do Papagaio, onde tem trajetória municipal e parlamentar.

Janad Valcari, hoje candidata à Câmara Federal e integrante do campo político que manifestou apoio a Dorinha, teve 31.587 votos para deputada estadual em 2022. Dois anos depois, ampliou consideravelmente sua exposição eleitoral ao disputar a Prefeitura de Palmas e chegar ao segundo turno, quando recebeu 69.684 votos. São eleições diferentes e esses números não podem ser somados como uma base fixa, mas demonstram capacidade de mobilização especialmente na Capital.

Vanda Monteiro, que participou recentemente de ato de campanha ao lado de Dorinha, Eduardo Gomes, Carlos Gaguim e Jair Farias, conquistou 17.995 votos para deputada estadual em 2022.

Vilmar de Oliveira teve 20.683 votos para deputado estadual em 2022 e apareceu em articulações municipais ligadas à candidatura de Dorinha, enquanto Wiston Gomes, outro parlamentar que declarou apoio ao projeto, obteve 10.704 votos naquela eleição.

Considerados apenas Jair Farias, Janad Valcari, Vanda Monteiro, Vilmar de Oliveira e Wiston Gomes, são 112.411 votos obtidos para deputado estadual em 2022. Mais uma vez, trata-se de votação histórica desses nomes, não de uma quantidade que possa ser simplesmente incorporada à candidatura ao Governo.

O Senado acrescenta outra dimensão ao grupo.

Eduardo Gomes, candidato à reeleição e um dos principais aliados da majoritária de Dorinha, foi eleito senador em 2018 com 248.358 votos. É um político com trajetória estadual, passagem pela Câmara dos Deputados e presença construída em diferentes municípios do Tocantins.

Carlos Gaguim, candidato ao Senado dentro da mesma majoritária, recebeu 52.203 votos para deputado federal em 2022, distribuídos pelos 139 municípios. Gaguim tem ainda a condição de ex-governador e uma rede municipal formada ao longo de décadas de atividade política.

Dorinha, Eduardo Gomes e Gaguim formam, portanto, um núcleo com votações anteriores expressivas, mas em eleições, cargos e anos diferentes. Compará-las ajuda a medir conhecimento eleitoral e presença territorial; simplesmente somá-las como se fossem votos disponíveis seria uma distorção.

Essa distinção talvez seja justamente o ponto mais importante para entender a corrida eleitoral no Tocantins.

Dorinha tem uma estrutura grande.

Tem prefeitos de cidades estratégicas.

Tem vereadores.

Tem deputados.

Tem candidatos proporcionais.

Tem candidatos ao Senado caminhando ao seu lado.

Tem lideranças municipais e comunitárias.

E já possui, ela própria, uma votação estadual de 395 mil votos registrada quatro anos atrás.

O desafio é outro: fazer todas essas redes conversarem com o mesmo eleitor.

Um candidato a deputado federal pode ter milhares de votos e fazer campanha praticamente apenas para si. Um deputado estadual pode preservar seu próprio território. Um prefeito pode declarar apoio sem conseguir transferir sua preferência. Um vereador pode participar de um evento e depois concentrar toda sua energia no proporcional. Uma liderança de bairro pode estar formalmente em um grupo e não conseguir mobilizar sua comunidade.

Por isso, o tamanho da aliança é simultaneamente a maior força e um dos maiores testes de Dorinha.

Quanto maior a estrutura, maior a necessidade de coordenação.

A verdadeira pergunta para as próximas semanas das eleições Tocantins 2026 será observar quantos dos prefeitos, vereadores, deputados estaduais, candidatos a deputado federal, candidatos ao Senado e lideranças de bairros que aparecem ao lado de Professora Dorinha estarão efetivamente levando a disputa pelo Governo do Tocantins para suas próprias bases.

É nesse ponto que o número 44 terá de sair dos grandes palanques e chegar ao eleitor.

Também existe uma disputa paralela acontecendo nas redes sociais. Dorinha já foi alvo de conteúdos cuja retirada foi determinada pela Justiça Eleitoral por informações consideradas falsas ou desinformativas. Ao mesmo tempo, a campanha e seus aliados permanecem sujeitos às mesmas regras eleitorais e ao mesmo escrutínio imposto aos adversários. O crescimento das fake news nas eleições 2026 torna ainda mais importante diferenciar crítica política, que faz parte da democracia, de afirmação factual comprovadamente falsa.

A corrida pelo Palácio Araguaia, portanto, está muito além de uma fotografia de pesquisa.

Quando se observa o mapa político, aparecem Palmas, Araguaína, Gurupi, Porto Nacional, Paraíso do Tocantins, Colinas do Tocantins, Guaraí, Campos Lindos, Bico do Papagaio e dezenas de municípios menores conectados por prefeitos, vereadores e lideranças.

Quando se observa a urna passada, aparecem 395.408 votos da própria Dorinha para o Senado, 248.358 de Eduardo Gomes em sua eleição senatorial, 52.203 de Gaguim para federal, dezenas de milhares dos deputados aliados e centenas de milhares de votos recebidos pelas chapas municipais que hoje estão próximas de seu projeto.

Nenhum desses votos pertence automaticamente a ninguém em 2026.

Mas todos eles contam uma história. Dorinha não chega à reta final apenas com um nome na pesquisa eleitoral. Chega cercada por uma rede política que possui votos anteriores, mandatos, bases municipais e presença territorial.

Agora vem a prova que realmente importa.

Descobrir quanto dessa força política existente no papel, nos palanques e nas eleições anteriores consegue chegar junto até a urna de 4 de outubro.

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