Overclean: Inquérito da Polícia Federal revelam protestos e movimentações de empresa da esposa de Vicentinho

Overclean: Inquérito da Polícia Federal revelam protestos e movimentações de empresa da esposa de Vicentinho
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 1 de outubro de 2026 23

A repercussão de um direito de resposta obtido pelo candidato ao Governo do Tocantins Vicentinho Júnior contra uma propaganda da adversária Professora Dorinha voltou a colocar a Operação Overclean no centro do debate político nesta reta final das eleições. Em publicação no Instagram, Vicentinho destacou a decisão favorável e voltou a ressaltar um dos principais argumentos apresentados por sua defesa: “Não fui indiciado”.

O Diário Tocantinense analisou documentos empresariais e financeiros relacionados à G M D Borba Distribuidora Ltda., empresa registrada em nome de Gillaynny Marjorie Duarte Borba, esposa do candidato. Os documentos mostram informações sobre a constituição da empresa, atividade comercial, capital social, controle societário, pendências financeiras e protestos vinculados ao CNPJ.

O ato constitutivo registra que a empresa foi criada em novembro de 2018, inicialmente como G M D Borba Distribuidora Eireli, tendo Gillaynny como titular e administradora. O estabelecimento adotou “Global” como nome fantasia e declarou sede na Avenida Tocantins, em Sítio Novo do Tocantins. O capital social informado foi de R$ 100 mil.

O objeto social inclui comércio atacadista de bebidas com atividade de fracionamento e acondicionamento, comércio atacadista de cerveja, chope e refrigerante e comércio varejista de bebidas. A documentação empresarial atribui a Gillaynny poderes para administrar e representar a empresa ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente.

Uma consulta empresarial realizada em 28 de setembro de 2026 identifica a empresa como G M D Borba Distribuidora Ltda., nome fantasia Global, em situação ativa, com capital social de R$ 100 mil. O documento também aponta Gillaynny como responsável por 100% do controle societário e como administradora.

Um dos pontos que chamam atenção no material analisado pelo DT é o histórico financeiro. A consulta registra 20 pendências financeiras. Entre as ocorrências aparecem operações atribuídas à Ambev S/A, especialmente em 2022, com valores individuais superiores a R$ 36 mil, R$ 33 mil e R$ 27 mil, além de outros lançamentos.

O relatório também apresenta classificação de risco de crédito considerada “máxima” na data da consulta e registra como prática comercial indicada para aquele perfil a venda mediante pagamento antecipado. Outro conjunto de informações está relacionado aos protestos. Uma consulta empresarial de 28 de setembro registra 15 protestos relacionados ao CNPJ, com ocorrências entre maio de 2023 e maio de 2026.

Entre os valores aparecem R$ 18.002,80, R$ 3.938,08, R$ 3.607,94, R$ 3.323,74, R$ 2.775,49 e outros montantes. Já capturas de tela mais recentes analisadas pelo Diário Tocantinense apresentam no cabeçalho a informação “Quantidade de protestos: 34”. Nas telas aparecem valores como R$ 36.205, R$ 33.308,60, R$ 27.161,16, R$ 18.002,80, R$ 8.327,15, R$ 7.625, R$ 7.572,60, R$ 4.376,79, R$ 3.938,08 e R$ 3.778,32, além de diversos outros valores.

Alguns registros aparecem acompanhados da indicação de “protesto com autorização de cancelamento”. Em um deles, no valor de R$ 2.775,49, o sistema informa autorização de cancelamento e custas de R$ 478,07. Outros registros, nos valores de R$ 1.297,18 e R$ 1.169,67, também aparecem com autorização de cancelamento e custas indicadas de R$ 361,19. Por isso, a informação de 34 protestos exibida na plataforma não permite afirmar que todos estejam atualmente ativos ou que todos correspondam a dívidas ainda exigíveis. Alguns aparecem em situação de autorização para cancelamento.

Também é importante destacar que protestos comerciais, pendências financeiras e classificação de risco de crédito não comprovam, por si só, prática criminosa. Esses registros fazem parte da situação empresarial e financeira da pessoa jurídica e precisam ser analisados separadamente de qualquer investigação criminal.

É nesse ponto que entra a Operação Overclean. A empresa registrada em nome da esposa de Vicentinho passou a ser citada publicamente no contexto da investigação depois que movimentações financeiras da pessoa jurídica foram analisadas pelos investigadores.

A investigação identificou movimentação expressiva nas contas da empresa ao longo de vários anos. O valor que chegou ao debate político, de aproximadamente R$ 170 milhões, corresponde à soma de entradas e saídas financeiras analisadas no período e não pode ser interpretado automaticamente como valor recebido ilegalmente ou incorporado ao patrimônio pessoal dos envolvidos.

Outro ponto levantado durante as investigações envolve registros encontrados em material apreendido e referências que teriam sido associadas ao codinome “VIC”. Os investigadores realizaram cruzamentos entre datas, valores registrados e transferências direcionadas à empresa da esposa do candidato.

Vicentinho contesta qualquer interpretação que o vincule à prática de irregularidades. Durante o avanço das apurações, foram solicitadas medidas cautelares envolvendo o candidato e sua esposa, mas elas não foram autorizadas. Além disso, Vicentinho não figura entre as pessoas indiciadas na etapa da operação mencionada publicamente por sua defesa. É justamente essa informação que o candidato voltou a destacar em publicação no Instagram. “Não fui indiciado”, afirmou.

O direito de resposta divulgado pelo candidato surgiu depois de uma propaganda eleitoral da campanha de Professora Dorinha relacionar o caso da Overclean a Vicentinho e avançar para possíveis consequências sobre eventual mandato.

A defesa eleitoral do candidato questionou o conteúdo, e a Justiça entendeu que a propaganda ultrapassou os limites ao apresentar como certa uma consequência jurídica futura que não existe até o momento. A decisão, portanto, tratou da forma como o conteúdo foi apresentado durante a campanha.

Ela não significa que a investigação da Polícia Federal deixou de existir, nem que os documentos empresariais, movimentações financeiras e registros vinculados à empresa tenham sido anulados. São questões diferentes.

De um lado, Vicentinho sustenta corretamente que não foi indiciado naquela etapa da Operação Overclean e conseguiu direito de resposta contra afirmações consideradas excessivas pela Justiça Eleitoral.De outro, existem documentos empresariais e registros financeiros envolvendo a empresa de sua esposa, além das movimentações que foram analisadas no contexto da investigação.

Os documentos analisados pelo Diário Tocantinense comprovam objetivamente que a empresa existe formalmente, foi constituída em 2018, está registrada em nome de Gillaynny, possui capital social declarado de R$ 100 mil e apresenta histórico de pendências financeiras e protestos.

A documentação mostra ainda que Gillaynny aparece desde a constituição como responsável pela administração da empresa. O relatório empresarial mais recente analisado pelo DT também mantém a empresária como responsável pelo controle societário integral da pessoa jurídica.

Nenhuma dessas informações, isoladamente, autoriza afirmar que Vicentinho ou sua esposa tenham cometido crime. A existência de investigação, documentos, transferências, protestos ou pendências comerciais não equivale a condenação.

O Diário Tocantinense procurou a equipe de Vicentinho Júnior na manhã desta quinta-feira, 1º de outubro, e encaminhou questionamentos específicos sobre os documentos, os protestos, as movimentações empresariais e as informações relacionadas à Operação Overclean e o espaço está aberto para esclarecimentos. A equipe informou que uma nota será enviada ao Diário Tocantinense.

O espaço permanece aberto para que o candidato apresente todos os esclarecimentos que considerar necessários sobre os documentos e registros mencionados. Assim que a manifestação for encaminhada, o DT atualizará a reportagem com o posicionamento de Vicentinho Júnior.

O Diário Tocantinense também mantém espaço aberto para manifestação da empresa e de sua representante legal sobre os registros empresariais e financeiros apresentados na reportagem.

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