Ela vendeu roupas para se formar em Medicina, mas a maior batalha veio depois do diploma
Primeira médica da família, goianiense Eline Corrêa Bandeira enfrentou dificuldades financeiras, plantões exaustivos, depressão e mudanças na própria saúde antes de reconstruir a vida e a carreira
Conquistar uma vaga em Medicina era o maior sonho de Eline Corrêa Bandeira. O que a goianiense não imaginava é que os desafios mais difíceis começariam depois da formatura. Primeira médica da família, ela vendeu roupas e semijoias durante a faculdade para custear despesas pessoais, enfrentou uma rotina intensa de plantões e passou por dificuldades financeiras. Anos depois, ganhou quase 40 quilos, enfrentou esgotamento profissional e depressão e precisou reorganizar a própria vida. Hoje, aos 40 anos, conta como essas experiências mudaram sua maneira de enxergar a profissão e a relação com a própria imagem.
A história começou com uma decisão dos pais, que mudaram de cidade em busca de melhores oportunidades de estudo para a filha. O esforço foi recompensado quando Eline conquistou uma vaga na primeira turma de Medicina da Universidade Católica de Brasília.
A aprovação, entretanto, trouxe uma preocupação. A faculdade era particular, e a família teria de enfrentar despesas elevadas para manter a filha estudando.
Eline chegou a pensar em desistir.
“Eu não queria ir porque sabia que minha família passaria por dificuldades para arcar com as despesas. Mas meu pai me disse: ‘A gente não vira as costas para uma vaga de Medicina. Vamos dar um jeito’. E demos”, relembra.
Pai insistiu para que filha não desistisse
Natural de Goiânia, Eline cresceu ouvindo dos pais que a educação poderia abrir portas e transformar sua realidade.
“Meus pais sempre me incentivaram a estudar. Eles diziam que o conhecimento é algo que ninguém pode tirar de nós”, conta.
A decisão de cursar Medicina exigiu uma reorganização financeira da família.
No segundo semestre da graduação, a estudante conseguiu uma bolsa de 50%, reduzindo parte dos custos.
Mesmo assim, queria evitar novas despesas para os pais. Foi então que começou a vender roupas e semijoias dentro da faculdade.
O dinheiro era utilizado para gastos pessoais, como roupas e passeios. A atividade permitia alguma independência financeira enquanto ela se dedicava à formação médica.
Entre aulas, provas e vendas, Eline conseguiu concluir o curso em agosto de 2007.
A conquista representou a realização de um projeto familiar. Entretanto, o diploma não encerrou os desafios.
Rotina de plantões mudou os planos profissionais
Um mês após a formatura, Eline casou-se com o namorado com quem mantinha um relacionamento desde os 16 anos.
De volta a Goiânia, começou a trabalhar em plantões médicos. A intenção era construir estabilidade financeira e iniciar a carreira.
A rotina, porém, dificultou a preparação para a residência em Cirurgia, especialidade que pretendia seguir.
Sem conseguir aprovação naquele momento, precisou reconsiderar os planos profissionais.
Em 2008, iniciou uma pós-graduação em Dermatologia, em Minas Gerais. No mesmo ano, recebeu uma proposta de trabalho em Parauapebas, no Pará.
A mudança representou uma oportunidade profissional e exigiu adaptação a uma nova cidade.
“Lá, aprendi muito, tanto como médica quanto como pessoa”, afirma.
Durante esse período, a dedicação ao trabalho passou a ocupar grande parte de sua rotina.
Segundo Eline, os horários irregulares e a dificuldade de manter uma alimentação organizada começaram a afetar sua saúde.
Médica ganhou quase 40 quilos e enfrentou depressão
Ao longo dos anos, Eline ganhou quase 40 quilos. Ela atribui o aumento de peso a uma combinação de fatores, incluindo predisposição genética, excesso de trabalho e hábitos alimentares irregulares.
Em 2015, a família enfrentou uma grave crise financeira e decidiu retornar a Goiás.
A mudança trouxe dificuldades de readaptação e coincidiu com um período de sofrimento emocional.
Eline relata que enfrentou esgotamento profissional, conhecido como burnout, e depressão.
Além das dificuldades financeiras e profissionais, a médica passou a sentir os efeitos das mudanças no próprio corpo.
Ela conta que deixou de se reconhecer na imagem refletida no espelho. A insatisfação com a aparência também afetava sua confiança.
A situação evidenciou uma contradição: embora tivesse conquistado