Dívida pública federal ultrapassa R$ 7,67 trilhões em maio e acende alerta sobre impacto no bolso do brasileiro

Dívida pública federal ultrapassa R$ 7,67 trilhões em maio e acende alerta sobre impacto no bolso do brasileiro
Mulheres empreendedoras pagam taxas de juros mais altas que homens, mas a educação financeira pode mudar esse cenário, segundo especialistas.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 29 de junho de 2025 7

Especialistas explicam como o aumento da dívida afeta juros, inflação e a capacidade de investimento do governo; reservas de liquidez caem 16,5% em um ano

BRASÍLIA — A dívida pública federal (DPF) atingiu R$ 7,67 trilhões em maio de 2025, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional, marcando novo recorde nominal e reacendendo o debate sobre a sustentabilidade fiscal do país. Em um cenário de juros elevados e crescimento econômico ainda tímido, o avanço do endividamento pressiona o orçamento público e afeta diretamente a vida do cidadão comum, com reflexos em áreas como inflação, crédito e investimentos públicos.

O crescimento da dívida em relação a abril (R$ 7,61 trilhões) foi puxado principalmente por emissões líquidas e pela apropriação de juros. A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), que corresponde aos títulos emitidos em reais, chegou a R$ 7,34 trilhões, enquanto a Dívida Pública Federal externa (DPFe), emitida em moeda estrangeira, ficou em R$ 326,35 bilhões.

O que é a dívida pública e por que ela importa?

A dívida pública federal é o total de recursos que o governo federal toma emprestado para cobrir despesas superiores à arrecadação. Isso é feito por meio da emissão de títulos públicos, comprados por bancos, fundos de investimento, instituições financeiras e investidores estrangeiros.

Segundo a economista Mariana Neves, da Fundação Dom Cabral, o crescimento da dívida tem dois efeitos principais no dia a dia da população. “Com uma dívida maior, o governo precisa pagar mais juros, o que limita investimentos em saúde, educação e infraestrutura. Além disso, para manter o controle da inflação, o Banco Central pode manter a taxa Selic elevada, o que encarece o crédito e afeta o consumo das famílias”, explica.

Juros altos, inflação resistente

Atualmente, a taxa básica de juros (Selic) está em 14,75% ao ano — patamar mantido pelo Banco Central diante da inflação acumulada de 5,32% em 12 meses. A expectativa é que o endividamento continue crescendo até o final do ano, com o Tesouro prevendo um limite de até R$ 8,1 trilhões para 2025.

Especialistas alertam que, em um cenário de crescimento baixo e déficit fiscal persistente, a dívida tende a se tornar mais cara para o país. “Quanto mais dúvidas houver sobre a capacidade do governo de honrar seus compromissos, maior será o prêmio de risco cobrado pelos investidores”, afirma o analista financeiro Cláudio Rezende.

Reserva de liquidez em queda

Outro ponto de preocupação é a queda na reserva de liquidez — o colchão financeiro que permite ao governo pagar seus compromissos mesmo em momentos de turbulência no mercado. Em maio, esse estoque caiu para R$ 961 bilhões, uma redução de 16,54% em 12 meses.

Essa diminuição indica menor margem de manobra para o Tesouro em caso de aumento inesperado nas taxas de juros ou dificuldade na rolagem da dívida. “Com a redução do colchão, o governo fica mais vulnerável a choques, como crises externas ou quedas abruptas na arrecadação”, acrescenta Mariana Neves.

E o impacto no bolso do brasileiro?

Na prática, o aumento da dívida e a dificuldade de controle dos gastos públicos pressionam a política monetária, mantendo os juros elevados e o crédito mais caro. Isso afeta diretamente quem pretende financiar uma casa, um carro ou usar o rotativo do cartão de crédito. Além disso, limita a capacidade do Estado de investir em serviços públicos e programas sociais.

Para o consumidor, a conta chega aos poucos: inflação persistente, acesso restrito ao crédito, cortes em investimentos públicos e um ambiente de incerteza econômica que desestimula o crescimento.

Caminhos para o equilíbrio

Para conter o avanço da dívida, economistas defendem o cumprimento do novo arcabouço fiscal, que prevê limite para o crescimento das despesas e regras para o resultado primário. No entanto, há ceticismo no mercado quanto à capacidade do governo de cumprir as metas em ano pré-eleitoral.

“Sem um ajuste estrutural nas contas públicas, a dívida continuará subindo, e com ela os riscos para a economia brasileira”, alerta Cláudio Rezende.

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