Israel retoma ofensiva contra Houthis no Iêmen após ataque a navio no Mar Vermelho e reacende tensão regional
Grupo rebelde apoiado pelo Irã reivindicou ataque ao cargueiro Magic Seas; Tel Aviv responde com bombardeios a portos e usina de energia
Em uma nova escalada no conflito regional envolvendo Israel, Irã e seus aliados, as Forças de Defesa de Israel (FDI) realizaram, entre a noite de domingo (6) e a manhã desta segunda-feira (7), uma série de ataques aéreos contra posições estratégicas dos Houthis no Iêmen. A ofensiva, que marca a primeira ação direta de Israel contra o grupo desde o cessar-fogo firmado com o Irã no mês passado, foi batizada de Operação Bandeira Negra.
Segundo o Exército israelense, os ataques atingiram os portos de Hodeida, Ras Isa e Salif, além de uma usina de energia em Ras Kanatib. Também foi bombardeado o navio Galaxy Leader, cargueiro capturado pelos Houthis em novembro de 2023 e, segundo os militares, transformado em base de vigilância marítima e controle de radar.
Ataque a navio amplia o conflito marítimo
A retaliação israelense ocorreu após os Houthis — grupo rebelde iemenita apoiado militarmente e financeiramente pelo Irã — reivindicarem no domingo (6) a autoria do ataque ao cargueiro Magic Seas, que navegava no Mar Vermelho. Foi o primeiro ataque houthi confirmado a um navio comercial em meses.
De acordo com os rebeldes, a embarcação havia utilizado portos israelenses e, por isso, foi considerada alvo legítimo. O grupo informou que usou barcos não tripulados, drones e mísseis para atingir o Magic Seas, que teria afundado. A operadora Stem Shipping declarou que o navio já havia atracado em Israel anteriormente, mas a viagem atual não tinha qualquer vínculo com o país. A tripulação, composta por 19 pessoas, foi resgatada e levada para Djibuti.
FDI alertaram civis e prometeram novas ações
Antes do início dos bombardeios, o porta-voz das FDI em árabe, Avichay Adraee, emitiu um alerta público pedindo a desocupação dos portos e da usina-alvo. Em seguida, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, confirmou a operação e garantiu que os Houthis “continuarão a pagar um alto preço por seus atos terroristas”.
“Israel não tolerará ameaças contínuas contra sua soberania e contra o tráfego marítimo internacional. Se os lançamentos de mísseis e drones continuarem, responderemos com força crescente”, escreveu Gallant nas redes sociais.
As autoridades iemenitas alinhadas aos Houthis reconheceram os ataques e informaram que “as defesas aéreas confrontaram a agressão israelense com uma ampla barragem de mísseis terra-ar de fabricação local”. Não há relatos oficiais de vítimas até o momento.
Solidariedade à Palestina e novas ameaças houthi
O gabinete político dos Houthis acusou Israel de atacar “infraestrutura civil” no Iêmen e alegou que as ações não têm justificativa militar, mas sim caráter punitivo. Em comunicado à emissora Al-Masirah, ligada ao grupo, o porta-voz Mohammed Al Farah disse que “qualquer navio que utilize portos de Israel será considerado alvo legítimo, pois colabora com a ocupação da Palestina”.
Desde o início da guerra de Israel contra o Hamas, em outubro de 2023, os Houthis têm se declarado parte da “resistência regional” contra o que chamam de “agressão israelense à Palestina”. O grupo já lançou diversos mísseis balísticos em direção a Israel, e chegou a atacar navios de guerra dos Estados Unidos — ação interrompida temporariamente em maio, após bombardeios americanos a seus redutos no Iêmen.
No entanto, os Houthis não se comprometeram a cessar os ataques contra embarcações com suspeita de vínculos com Israel, mantendo ativa a frente marítima do conflito.
Risco de expansão regional e pressão internacional
Analistas veem na retomada da ofensiva israelense um movimento de contenção, mas alertam para o risco de ampliação do conflito. O Oriente Médio já se encontra sob tensão extrema com os confrontos diretos entre Irã e Israel nas últimas semanas, inclusive com bombardeios mútuos e alertas da ONU sobre risco de uso de armas táticas de grande impacto.
A guerra entre Israel e os Houthis insere uma nova camada no tabuleiro geopolítico da região, especialmente porque envolve rotas comerciais estratégicas como o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. Um eventual fechamento dessas vias ou aumento dos ataques pode comprometer cadeias logísticas globais, afetar o preço do petróleo e pressionar países como o Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes a reverem sua neutralidade.
O Conselho de Segurança da ONU deve discutir ainda nesta semana os desdobramentos no Iêmen e o impacto da Operação Bandeira Negra, ao lado da nova ofensiva iraniana contra Israel e do ataque recente à base americana no Catar.
A ofensiva israelense contra os Houthis marca o retorno a um conflito paralelo que vinha, até então, em relativa contenção. Com ataques a portos, infraestrutura energética e navios civis, a retaliação abre mais uma frente de instabilidade no já fragmentado Oriente Médio. Em um cenário de alianças fluídas e escalada de discursos, o risco de colapso diplomático e humanitário aumenta — e as rotas do Mar Vermelho podem se transformar no novo centro de gravidade da guerra.