Relatório da ONU alerta para agravamento da fome global e colapso no financiamento humanitário
Documento revela recordes negativos em 2024, com 295 milhões de pessoas em fome aguda, 38 milhões de crianças gravemente desnutridas e financiamento internacional em queda livre. Crises prolongadas e eventos climáticos extremos colocam 2025 em alerta máximo.
Por Fernanda Cappellesso
Diário Tocantinense
PALMAS — A fome aguda atingiu novos patamares em 2024, com o maior número de pessoas enfrentando insegurança alimentar grave desde o início da série histórica do Relatório Global sobre Crises Alimentares, publicado por agências da ONU nesta sexta-feira (16). O documento mostra que 295 milhões de pessoas em 53 países e territórios vivenciaram fome aguda — 14 milhões a mais do que no ano anterior — e alerta para uma perspectiva ainda mais dramática em 2025, diante da queda recorde no financiamento internacional.
O número de indivíduos em situação de fome catastrófica — nível 5 da Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC) — chegou a 1,9 milhão de pessoas, estabelecendo um novo recorde global. A desnutrição grave entre crianças explodiu em zonas de conflito e crise, com quase 38 milhões de menores de cinco anos em situação crítica, especialmente em regiões como Faixa de Gaza, Mali, Sudão e Iêmen.
“O mundo está perigosamente fora dos trilhos”, disse António Guterres, secretário-geral da ONU. “A redução dramática no financiamento humanitário revela uma falta de humanidade inaceitável.”
Conflitos e deslocamentos forçados alimentam a catástrofe
O relatório confirma os conflitos armados como o principal motor da fome extrema, afetando 140 milhões de pessoas em 20 países e territórios. Crises intensificadas no Sudão, Gaza, Sudão do Sul, Haiti e Mali impulsionaram os índices para níveis históricos, dificultando o acesso a alimentos, água e infraestrutura de saúde.
Um dos pontos mais críticos do documento é o impacto do deslocamento forçado: cerca de 95 milhões de refugiados e deslocados internos vivem atualmente em países sob grave crise alimentar, como República Democrática do Congo, Colômbia, Sudão e Síria.
Pressão econômica e choques climáticos
Os choques econômicos, como inflação, desemprego e colapsos monetários, agravaram a fome em 15 países, atingindo 59,4 milhões de pessoas — quase o dobro dos níveis registrados antes da pandemia de covid-19. Em nações como Afeganistão, Síria, Iêmen e Sudão do Sul, a combinação entre instabilidade política e desvalorização cambial deteriorou ainda mais os sistemas alimentares locais.
Paralelamente, eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes agravadas pelo fenômeno El Niño, lançaram 96 milhões de pessoas em 18 países em situação de insegurança alimentar severa. África Austral, Sul da Ásia e o Chifre da África são as regiões mais impactadas.
Financiamento em colapso e riscos para 2025
O aspecto mais alarmante do relatório é a queda no financiamento humanitário internacional, apontada como a pior desde que o relatório começou a ser produzido, em 2016. A redução dos recursos compromete operações de distribuição de alimentos, nutrição emergencial e apoio técnico a comunidades devastadas.
Agências como o Programa Mundial de Alimentos (PMA), FAO, Unicef, Ifad, Acnur e Banco Mundial alertam que, sem recursos, haverá colapso nos mecanismos de resposta. “Estamos assistindo ao pior momento de financiamento para segurança alimentar em quase uma década. E o mundo não está pronto para lidar com essa convergência de crises”, disse um porta-voz do PMA.
Recomendação: foco local e protagonismo das comunidades
Entre as soluções apontadas pelas organizações da ONU está a redefinição da ajuda humanitária, com foco no fortalecimento de sistemas alimentares locais, inclusão de comunidades na tomada de decisões e ampliação dos serviços de saúde e nutrição em regiões vulneráveis.
O relatório enfatiza que quebrar o ciclo de fome exige ação coordenada entre governos, setor privado, sociedade civil e organismos multilaterais, sob o risco de perder décadas de avanços em segurança alimentar e combate à pobreza.
Situação brasileira e contexto regional
Embora o Brasil não figure entre os países em emergência alimentar no relatório, os dados funcionam como alerta para a dependência de cadeias globais de abastecimento, os riscos associados às mudanças climáticas e a necessidade de ampliar políticas públicas de combate à fome.
A América Latina também foi afetada em zonas de conflito e vulnerabilidade, especialmente na Colômbia e no Haiti, onde a fome se intensificou em meio a crises políticas e deslocamentos forçados.
Resumo do cenário (2024):
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295 milhões de pessoas em fome aguda (aumento de 14 milhões em um ano)
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1,9 milhão em fome catastrófica (nível 5 – risco de morte)
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38 milhões de crianças gravemente desnutridas
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59,4 milhões afetadas por crises econômicas
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96 milhões afetadas por eventos climáticos extremos
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95 milhões de deslocados vivem em países sob crise alimentar
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Redução histórica no financiamento internacional
O relatório de 2025 é um sinal de emergência global. O aumento contínuo da fome, o agravamento das crises infantis e o recuo do financiamento internacional formam uma tempestade perfeita que ameaça vidas, estabilizações regionais e os compromissos internacionais com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A fome não é apenas uma estatística — é o retrato do fracasso coletivo de uma comunidade global que, cada vez mais, precisa escolher entre a omissão e a ação.