Sistema tributário é maior entrave às exportações, aponta indústria brasileira

Sistema tributário é maior entrave às exportações, aponta indústria brasileira
Mulheres empreendedoras pagam taxas de juros mais altas que homens, mas a educação financeira pode mudar esse cenário, segundo especialistas.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 10 de julho de 2025 3

Empresários dizem que modelo atual compromete competitividade internacional mais do que câmbio e logística; setor produtivo cobra celeridade na reforma tributária

Um novo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta semana, revelou que o sistema tributário brasileiro é, hoje, o principal obstáculo para as exportações nacionais. De acordo com os dados, 72% dos empresários entrevistados identificam a complexidade e os custos dos tributos como o maior entrave à expansão das vendas externas. O percentual supera a preocupação com o câmbio (65%) e os custos logísticos (60%), consolidando um diagnóstico recorrente no setor produtivo: o Brasil penaliza quem quer competir no mercado global.

A pesquisa — realizada entre junho e julho com mais de 600 industriais de médio e grande porte — indica que a carga tributária desproporcional, aliada à multiplicidade de normas e prazos, impõe ao exportador brasileiro uma desvantagem sistemática frente aos concorrentes internacionais. A devolução lenta de créditos de PIS e Cofins, a insegurança jurídica e o alto custo de compliance são destacados como gargalos que desestimulam a inserção do país em cadeias globais de valor.

No Tocantins, o cenário se repete. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (FIETO), Roberto Pires, afirma que a estrutura tributária atual afeta diretamente setores estratégicos como o agronegócio, a indústria de transformação e a exportação de proteína animal. “Mesmo com produtos de alta qualidade e boa produtividade, o custo tributário e a burocracia fiscal travam o crescimento das exportações tocantinenses”, afirma. “A reforma tributária é urgente.”

A avaliação é compartilhada por empresários do estado. Marco Aurélio Alves, proprietário de uma indústria de alimentos instalada em Palmas e com exportações regulares para países da América Latina, relata a dificuldade em manter competitividade. “O tempo que se gasta para recuperar crédito tributário, muitas vezes, nos faz perder margem e até contratos. E se errarmos no preenchimento de qualquer obrigação acessória, a penalidade é automática. Exportar virou uma corrida de obstáculos”, afirma.

O levantamento da CNI também mostra que 48% dos entrevistados adiaram planos de expansão internacional por conta do ambiente tributário. Outros 41% disseram já ter perdido negócios no exterior devido ao excesso de custos fiscais ou por problemas de conformidade burocrática.

O resultado do estudo reacende as expectativas sobre a reforma tributária em tramitação no Congresso. O texto-base já aprovado prevê a unificação de tributos federais, estaduais e municipais, e a devolução automática de créditos acumulados por exportadores — o que poderia reduzir significativamente o peso fiscal sobre empresas com atuação internacional. No entanto, especialistas alertam que, mesmo com aprovação final, os efeitos práticos da reforma só devem ser sentidos após sua regulamentação completa, prevista para até 2027.

Para o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Mário Sérgio Carraro, o momento é decisivo. “Se o Brasil quer ampliar sua participação no comércio internacional, precisa tornar sua estrutura tributária mais simples, transparente e previsível. Isso não é apenas uma questão de justiça fiscal, mas de estratégia econômica. O mundo não espera por quem burocratiza”, afirma.

A demora em implementar soluções estruturantes preocupa ainda mais diante do cenário internacional instável. Com novas barreiras comerciais surgindo nos Estados Unidos e na Europa, os países que oferecem ambiente mais competitivo e menos oneroso tendem a atrair mais contratos. “Enquanto o Brasil tributa exportadores, outros países os financiam”, diz Carraro.

A CNI reforça que, para além da reforma tributária, é necessário um esforço de modernização da Receita Federal, digitalização de processos e fortalecimento dos acordos internacionais para evitar a bitributação. Apesar dos obstáculos, o Brasil segue sendo uma das dez maiores economias agrícolas do mundo e tem potencial para ampliar sua presença em setores como alimentos processados, biocombustíveis e tecnologia industrial. Para isso, no entanto, precisará resolver o que os próprios empresários apontam: um sistema que tributa complexidade, inibe crescimento e penaliza quem ousa competir.

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