Palmas precisa de um salário mínimo de R$ 6.200 para garantir padrão digno de vida, aponta levantamento com base no custo da cesta básica

Palmas precisa de um salário mínimo de R$ 6.200 para garantir padrão digno de vida, aponta levantamento com base no custo da cesta básica
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 22 de julho de 2025 18

Cálculo proporcional ao levantamento do Dieese revela defasagem estrutural entre o piso nacional e o custo real de vida na capital do Tocantins. Especialistas alertam para quadro de insegurança alimentar crônica, empobrecimento da dieta e risco de exclusão social.

O salário mínimo necessário para garantir o sustento básico de uma família de quatro pessoas em Palmas deveria ser de R$ 6.200, segundo estimativa proporcional ao custo da cesta básica na capital tocantinense, divulgada com base nos critérios metodológicos do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). O valor supera em mais de quatro vezes o atual piso nacional, fixado em R$ 1.518, e expõe o descompasso entre o poder de compra da população e o custo real da sobrevivência em uma das cidades que mais crescem na Região Norte.

Apesar de a cesta básica local ter apresentado recuo de 1,92% no último mês, passando a custar R$ 765,80, o alívio pontual nos preços não se converteu em melhora no cotidiano das famílias. A alimentação básica ainda consome 54,7% do salário líquido do trabalhador que recebe o piso nacional, o que equivale a 117 horas e 6 minutos de jornada mensal — ou seja, mais de 14 dias de trabalho apenas para garantir comida na mesa.

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Carne, leite e pão seguem como os vilões do orçamento

O recuo no valor da cesta foi puxado por quedas no arroz, tomate e óleo de soja. Entretanto, os produtos com maior peso e menor substituição continuam em trajetória de alta. A carne bovina subiu 1,2%, o leite longa vida, 0,9%, e o pão francês, 0,6%. Juntos, esses três itens representam mais de 40% do custo total da cesta.

Para a economista e pesquisadora em políticas públicas Jussara Lobo, a situação de Palmas é um retrato do que ocorre nas regiões de transição entre o Norte e o Centro-Oeste: custo logístico elevado, oferta limitada de hortifrútis e dependência de cadeias externas de abastecimento.

“Palmas tem crescimento urbano, mas ainda vive o dilema de abastecimento regional. O arroz vem do Sul, a carne é exportada para fora, o leite depende de uma indústria concentrada. Isso eleva o preço final ao consumidor e comprime o poder de compra”, afirma.

Trabalhadores abandonam a carne, frutas somem do prato

Em bairros como Taquari, Aureny I e Santo Amaro, a defasagem do salário mínimo é visível nas escolhas alimentares. O pedreiro Valdecir Dias, 51 anos, conta que deixou de consumir carne há dois meses. “A gente vai no mercado e sai com duas sacolas por R$ 150. Não dá. Agora é arroz, farinha e ovo. Fruta virou lembrança”, diz.

A diarista Rosa Batista, mãe de três filhos, confirma a tendência: “Compro leite para as crianças e o resto a gente improvisa. Deixo o almoço dos adultos para mais tarde para ver se aguentamos com uma refeição só.”

Esses relatos preocupam profissionais da saúde. Segundo a nutricionista clínica Letícia Rezende, a substituição forçada de proteínas e frutas por carboidratos baratos configura uma forma crônica de subnutrição.

“É a chamada fome disfarçada. Não é a ausência total de alimentos, mas a ausência de nutrientes. A longo prazo, isso causa anemia, fadiga, perda de concentração e aumento do risco de doenças metabólicas. Crianças são as mais afetadas.”

Valor ideal é referência técnica, não utopia, dizem especialistas

O valor de R$ 6.200 foi calculado com base na metodologia do Dieese, que mensalmente divulga o salário mínimo ideal com base na cesta mais cara do país (São Paulo, atualmente em R$ 896,15). Proporcionalmente, considerando o custo de vida de Palmas, o valor projetado para a capital do Tocantins considera alimentação, moradia, transporte, educação, vestuário, saúde e lazer — todos em valores compatíveis com padrões mínimos de dignidade.

Para o sociólogo e consultor legislativo Carlos Henrique Batista, o dado técnico precisa ser compreendido como norte para políticas públicas, e não como proposta imediata de reajuste.

“O número serve para dimensionar a distância entre o que se ganha e o que se precisa para viver com dignidade. Ele é pedagógico. Mostra que a atual política de valorização do salário mínimo está defasada frente à inflação real das famílias pobres.”

Dieta básica exige 14 dias de trabalho por mês

O levantamento mostra que o tempo de trabalho necessário para adquirir os alimentos da cesta básica em Palmas é de 117 horas e 6 minutos por mês. Isso significa que o trabalhador gasta 14 dias úteis, considerando uma jornada de 8 horas diárias, só para comprar comida. Com o restante, precisa pagar energia, água, gás, transporte, aluguel e outros itens essenciais.

Para o economista Adriano Sales, o dado comprova a perda contínua do poder de compra.

“Mesmo com deflação pontual nos alimentos, o custo de vida sobe em outras áreas. O gás de cozinha passou de R$ 130. A energia elétrica teve alta. Se o trabalhador compromete mais da metade do que ganha só com comida, ele está tecnicamente fora da linha de dignidade.”

Debate sobre salário mínimo regionalizado volta à pauta

Com a pressão inflacionária nos estados do Norte e Centro-Oeste, cresce a discussão sobre a criação de salários mínimos regionalizados ou complementos estaduais em formato de vale-alimentação. A proposta já tramita no Congresso e tem apoio parcial de frentes parlamentares da agricultura familiar, da economia solidária e de combate à fome.

No Tocantins, entidades como o Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea-TO) articulam com deputados a implementação de um programa estadual de compensação de renda, vinculado ao custo da cesta básica apurada pelo Dieese.

Principais números

  • Custo da cesta básica em Palmas: R$ 765,80

  • Salário mínimo líquido atual: R$ 1.398,72

  • Comprometimento da renda com alimentação: 54,7%

  • Horas de trabalho necessárias/mês: 117h06

  • Salário mínimo ideal estimado para Palmas: R$ 6.200

  • Produtos que mais pressionam: carne bovina, leite longa vida, pão francês

  • Acumulado de alta em 2025: +5,4%

  • Alta em 12 meses: +7,8%

A estimativa de R$ 6.200 como salário mínimo ideal em Palmas não é retórica — é um alerta técnico que revela a falência prática da atual política de proteção da renda básica no país. A cesta pode oscilar mês a mês, mas os números mostram que o custo de viver em Palmas já ultrapassou, há muito, o limite do razoável para quem depende do salário mínimo. E o prato vazio é só o sintoma mais visível dessa equação.

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