Terras raras: Brasil entra na disputa global por minérios estratégicos e mira protagonismo geopolítico
Com reservas expressivas e projetos em expansão, país busca ocupar espaço diante da crescente pressão internacional por diversificação mineral
O Brasil começa a ocupar um espaço cada vez mais estratégico no cenário global com sua entrada firme no mercado de elementos de terras raras — um grupo de 17 minerais essenciais para a produção de tecnologias de ponta. Da transição energética à indústria de defesa, esses minérios tornaram-se o novo “petróleo do século XXI” e estão no centro de uma disputa geopolítica que envolve China, Estados Unidos, União Europeia e, agora, o Brasil.
Segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil detém aproximadamente 23% das reservas globais conhecidas, ficando atrás apenas da China em volume potencial. Esses dados colocam o país como um dos candidatos mais promissores a suprir a demanda ocidental em meio à tentativa de reduzir a dependência da cadeia de suprimentos chinesa, que hoje concentra mais de 80% do refino global desses elementos.
Serra Verde e a retomada da produção nacional
O avanço mais concreto do Brasil se dá com o início da produção do projeto Serra Verde, em Minas Gerais, que entrou em operação comercial em 2024. Trata-se do maior investimento privado já realizado no país com foco exclusivo em terras raras. A produção inicial se concentra em minerais como neodímio e praseodímio, usados em ímãs permanentes de alto desempenho para motores elétricos e turbinas eólicas.
O governo federal, por meio do Ministério de Minas e Energia e do BNDES, tem estruturado políticas de incentivo à cadeia produtiva. Entre as medidas estão a criação de fundos de apoio à pesquisa, a instalação de centros tecnológicos como o LabFabITR em Minas Gerais e linhas de crédito específicas para empresas que atuam no beneficiamento desses minerais. A intenção é clara: romper com o modelo de exportação bruta e investir no valor agregado.
Desafios da industrialização mineral
Apesar do potencial, os obstáculos ainda são numerosos. A ausência de infraestrutura de refino, o alto custo tecnológico para separação dos elementos e a concorrência de preços com a produção chinesa impõem barreiras à industrialização nacional. Além disso, o setor esbarra em licenciamentos ambientais complexos, conflitos com comunidades locais e ausência de uma política nacional de minerais estratégicos mais robusta.
A pressão internacional por mais fontes seguras e sustentáveis de fornecimento, no entanto, pode acelerar os investimentos. Diversos países já acenam com acordos bilaterais de cooperação tecnológica e transferência de conhecimento, desde que o Brasil garanta estabilidade jurídica e controle ambiental.
Geopolítica dos minérios e riscos para o país
Para analistas de comércio internacional e segurança estratégica, o novo papel do Brasil nesse setor exige cautela. O país se vê agora diante de um mercado geopolítico sensível, no qual disputas comerciais podem se transformar em embates diplomáticos e conflitos regulatórios. Há, inclusive, temor de que o Brasil acabe se transformando em fornecedor bruto para os países industrializados, repetindo a lógica extrativista histórica.
A agenda de diversificação, no entanto, traz uma oportunidade rara: transformar recursos naturais em influência diplomática e tecnológica. A condição é que o Brasil não se limite a extrair, mas também processe, desenvolva tecnologia e distribua valor dentro do território nacional.