ONU acusa Israel e Hamas de crimes de guerra; Brasil amplia protagonismo na denúncia internacional

ONU acusa Israel e Hamas de crimes de guerra; Brasil amplia protagonismo na denúncia internacional
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 29 de julho de 2025 2

Relatório da ONU detalha ataques a civis, bloqueio de insumos humanitários e destruição sistemática em Gaza. Governo brasileiro adere à ação na Corte de Haia e endurece discurso diplomático

O sistema internacional vive uma de suas semanas mais tensas desde o início da escalada entre Israel e Palestina em 2023. Um relatório técnico da Comissão de Inquérito das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupadosapresentou, nesta segunda-feira, um balanço alarmante: tanto Israel quanto o grupo Hamas cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre eles assassinatos deliberados, uso de civis como escudos humanos, ataques a áreas densamente povoadas e bloqueio intencional de ajuda humanitária.

O documento, que possui valor jurídico e político, foi enviado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e baseia-se em mais de 3.000 testemunhos, imagens de satélite, registros hospitalares, vídeos georreferenciados e cruzamentos de dados técnicos com observadores da própria ONU. Trata-se do mais detalhado diagnóstico desde o início da ofensiva militar israelense após os ataques do Hamas em outubro de 2023.

A acusação: fome como arma, civis como alvos

Entre os trechos mais contundentes do relatório, estão as acusações de que as forças de defesa de Israel usaram a fome como método de guerra ao impedir deliberadamente a entrada de alimentos, água potável e remédios em Gaza. A comissão relata ainda o bombardeio sistemático de hospitais, escolas, campos de refugiados, mesquitas e igrejas.

O texto também afirma que o governo israelense não adotou qualquer medida proporcional para proteger civis, ao contrário, promoveu o deslocamento forçado de mais de 1,8 milhão de pessoas, muitas delas bombardeadas inclusive nos “corredores humanitários” previamente acordados com agências internacionais.

Do lado do Hamas, os investigadores apontam a utilização de civis palestinos como escudos humanos, além de execuções sumárias de reféns israelenses e ataques indiscriminados com foguetes em direção a áreas residenciais de Tel Aviv, Haifa e Jerusalém.

Reação do Brasil: diplomacia muda de tom

O governo brasileiro reagiu com firmeza. Em nota oficial conjunta dos ministérios das Relações Exteriores, Justiça e Direitos Humanos, o Brasil reiterou sua adesão à ação protocolada pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), acusando formalmente Israel de genocídio. O documento brasileiro respalda a tese de que houve violação grave da Convenção para Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948.

“Não se trata de escolher um lado, mas de sustentar os princípios universais que nos obrigam a rejeitar qualquer forma de massacre, limpeza étnica e supressão deliberada de populações civis”, afirmou o ministro Mauro Vieira em entrevista no Itamaraty.

O presidente Lula também foi informado diretamente da divulgação do relatório da ONU e reforçou a posição brasileira ao afirmar, em declaração pública, que “o mundo precisa reagir com coragem quando a humanidade é colocada em risco, seja qual for o responsável”.

Isolamento de Israel e crise diplomática global

A resposta do governo israelense foi imediata. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel acusou o relatório da ONU de ser “politicamente enviesado e tecnicamente fraudulento”. Israel também chamou seus embaixadores em quatro países da América Latina — entre eles o Brasil — para consultas, sinalizando o agravamento das relações com governos que têm apoiado ações no TIJ.

Os Estados Unidos, por sua vez, mantiveram apoio diplomático a Israel, mas com tom moderado. Washington não reconheceu a legitimidade da Comissão de Inquérito da ONU, mas se comprometeu a revisar as evidências “com seriedade”.

Analistas em Genebra afirmam que o relatório da ONU inaugura uma nova fase no conflito, em que o debate sobre crimes de guerra sai do campo retórico e entra no terreno judicial e político, com potencial para comprometer alianças militares e comerciais.

Consequências para o Brasil

O Brasil, ao endossar a ação contra Israel, assume protagonismo diplomático, mas também riscos. A decisão pode impactar acordos comerciais em andamento com setores estratégicos de tecnologia, defesa e agronegócio. Além disso, abre uma frente de tensão com setores evangélicos e conservadores que veem no governo israelense um aliado histórico.

Lideranças religiosas já criticaram publicamente a posição do Itamaraty, acusando o governo de “romper com a tradição brasileira de neutralidade”. Em resposta, o Palácio do Planalto reafirmou que neutralidade não significa omissão diante de violações documentadas por organismos internacionais.

Em Brasília, a Comissão de Relações Exteriores do Senado convocou uma audiência pública para discutir os desdobramentos do relatório da ONU. Parlamentares da oposição, como Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis, criticaram a postura do Brasil, enquanto senadores da base aliada defenderam a coerência do país com sua tradição humanista e multilateral.

Impacto na ONU e no cenário internacional

A Comissão da ONU não possui poder de sanção, mas seus relatórios são utilizados como base jurídica por cortes internacionais, como o Tribunal Penal Internacional e o Tribunal Internacional de Justiça. Além disso, embasam resoluções do Conselho de Direitos Humanos, sanções econômicas e embargos diplomáticos.

A expectativa é de que o relatório influencie a próxima Assembleia Geral da ONU, prevista para setembro, onde o tema da Palestina e da responsabilização por crimes de guerra deve dominar os debates.

O embaixador aposentado Celso Amorim, ex-chanceler e assessor especial da Presidência da República, classificou o documento como “um marco histórico na responsabilização internacional”. Para ele, o Brasil precisa “sustentar essa posição com firmeza, mesmo que enfrente pressões diplomáticas ou econômicas”.

A diplomacia do século XXI

No balanço final, o Brasil se posiciona em um tabuleiro complexo: assume a defesa do direito internacional, aposta no fortalecimento das instituições multilaterais e se alinha a um campo que busca reequilibrar as vozes do Sul Global diante da hegemonia ocidental.

É uma aposta de alto risco — mas também uma chance real de reposicionar o Brasil como ator ético e influente no cenário internacional.

A denúncia de crimes de guerra não é mais uma questão retórica. Agora, passa a ser uma questão de justiça. E o Brasil, por escolha e por princípio, está no centro desse julgamento

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