Lula reforça base no Centrão e tenta blindar governo até 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as negociações com lideranças do União Brasil, do Progressistas (PP) e do Republicanos na tentativa de consolidar uma base de sustentação no Congresso Nacional capaz de blindar o governo até o fim do mandato em 2026. O movimento político, que se desenrola nos bastidores desde o fim do primeiro semestre, ganhou corpo neste mês com avanços concretos na distribuição de cargos, liberação de emendas e construção de acordos que miram também as eleições municipais de 2028.
Com essa aproximação, o Palácio do Planalto pretende reduzir o risco de instalação de novas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), conter pautas-bomba e garantir maioria nas votações estratégicas. A leitura no Planalto é que, sem uma base consolidada, o governo continuaria vulnerável a crises legislativas e desgastes públicos alimentados por setores da oposição e por rachas internos da base aliada.
Cargos, emendas e negociações com pragmatismo
Na última semana, integrantes do União Brasil foram contemplados com espaços em estatais e autarquias. Parlamentares do PP e do Republicanos, por sua vez, reforçaram o apoio ao governo em votações recentes na Câmara e no Senado, sinalizando boa vontade diante das novas ofertas do Planalto. A distribuição de cargos foi acompanhada pela promessa de liberação de emendas de relator e recursos do novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), com foco em áreas que interessam eleitoralmente às bancadas.
“O que Lula está fazendo agora é o mesmo que todos os presidentes fizeram desde a redemocratização: compondo com o Centrão para garantir estabilidade”, explica o cientista político Pedro Vasconcelos, da Universidade de Brasília (UnB). “Mas o que chama atenção é o momento — ele busca essa blindagem antes de o clima eleitoral de 2026 se acirrar, e antes mesmo das disputas municipais de 2024”.
CPIs e tensão com o Congresso: risco reduzido
Nos últimos meses, a ameaça de CPIs com potencial de desgaste para o governo — como a CPI do MST e a CPI das ONGs na Amazônia — pairou sobre o Congresso. A consolidação da base com o Centrão, no entanto, tem minado o ímpeto da oposição em emplacar essas investigações. O governo conta agora com maioria suficiente para barrar requerimentos de instalação e também para controlar comissões permanentes estratégicas, como Constituição e Justiça (CCJ) e Fiscalização e Controle.
Além disso, a costura política inclui uma espécie de pacto de não agressão: em troca do apoio político, o governo evita embates públicos com partidos do Centrão e flexibiliza a agenda econômica e social para acomodar interesses regionais e parlamentares. O resultado tem sido uma redução nas tensões entre o Planalto e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e uma maior fluidez nas votações.
Eleições de 2028: Lula mira fortalecimento nos municípios
A antecipação das alianças com o Centrão não tem apenas o objetivo de garantir paz legislativa. No radar do presidente está também a eleição municipal de 2024. O governo avalia que ampliar sua presença nos diretórios municipais de partidos como PP, União Brasil e Republicanos pode ser decisivo para reverter a hegemonia bolsonarista em cidades estratégicas do país — especialmente nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul, onde o PT ainda enfrenta resistência.
A estratégia envolve permitir que os partidos do Centrão comandem obras e programas federais nas cidades onde desejam lançar candidatos, gerando capital político. “É uma lógica pragmática: Lula cede agora para garantir palanques e alianças fortes em 2024, o que repercutirá diretamente no clima eleitoral de 2026”, avalia a socióloga e pesquisadora política Maria Luísa Ribeiro.
Governabilidade até 2026: o que está em jogo
A consolidação de uma base com o Centrão é uma tentativa de neutralizar os fatores que desestabilizaram os governos petistas anteriores, como o “mensalão” e a fragilidade nas relações com o Congresso em momentos críticos. A leitura do entorno de Lula é que a estabilidade política será condição indispensável para manter programas como o PAC, o Minha Casa, Minha Vida e a reindustrialização em curso.
Além disso, com a inflação sob controle e o crescimento econômico moderado, o Planalto quer evitar desgastes que atrapalhem a narrativa de recuperação e de “volta à normalidade” após o bolsonarismo. O governo também aposta que, com o Centrão em sua órbita, será mais difícil para adversários plantarem pautas ideológicas extremas ou ressuscitarem denúncias frágeis com viés eleitoral.