R$ 6.200 por mês! Vida em Palmas dispara e salário mínimo não cobre nem metade do básico, diz DIEESE
Você conseguiria viver com dignidade em Palmas, no Tocantins, com o salário mínimo atual? Segundo o mais recente levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), a resposta é um sonoro “não”.
Para bancar uma vida minimamente digna na capital tocantinense, o morador precisaria receber R$ 6.200 por mês — mais do que o triplo do salário mínimo oficial, fixado em R$ 1.412. A conta inclui moradia, alimentação, transporte, energia, saúde, educação, vestuário e lazer. Ou seja: o básico virou um luxo.
O aluguel virou o vilão
Na prática, a maior parte do orçamento some logo no início do mês. O aluguel, em Palmas, disparou nos últimos dois anos. Segundo o DIEESE, os valores variam entre R$ 850 nas regiões mais afastadas e R$ 2.600 em bairros valorizados, como Plano Diretor Sul, Taquaralto e Arse 112.
O problema é que, para a maioria da população, mais de 30% da renda vai só para a moradia — patamar considerado crítico pelos próprios pesquisadores. Isso cria um efeito dominó: sobra pouco ou nada para alimentar a família, pagar transporte, ou manter uma criança na escola.
Comer virou desafio diário
A cesta básica em Palmas custa entre R$ 700 e R$ 800, dependendo do mês. Ou seja, mais da metade do salário mínimo desaparece só com comida.
Itens como arroz, feijão, óleo de soja, carne e pão tiveram aumentos consecutivos desde 2023. O leite ultrapassou R$ 7 o litro em redes de supermercados populares. Não é exagero dizer que milhares de famílias vivem no fio da navalha.
E não se trata apenas de vulneráveis extremos. Servidores públicos de baixa remuneração, vendedores do comércio, atendentes, diaristas e trabalhadores informais também relatam dificuldade em manter as contas em dia.
A conta não fecha
Com base no estudo, o salário mínimo cobre apenas 22% da renda necessária para viver com dignidade em Palmas. E esse cálculo é conservador: não leva em conta imprevistos como remédios, conserto do carro, mensalidade escolar ou alimentação fora de casa.
O DIEESE atualiza mensalmente o chamado “salário mínimo necessário” com base em dados regionais. Palmas é uma das capitais onde o descompasso entre renda real e custo de vida mais cresceu no último ano.
A explicação está na combinação de três fatores:
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Explosão no valor dos aluguéis com pouca oferta de imóveis acessíveis;
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Inflação de alimentos acima da média nacional;
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Aumento da informalidade e estagnação salarial.
“Viver com dignidade está virando privilégio”
Moradores ouvidos pela reportagem descrevem o cenário como “angustiante”. Muitos têm deixado regiões centrais e migrado para bairros mais distantes, com infraestrutura precária, para tentar equilibrar as contas.
“A gente trabalha, trabalha e não vê o dinheiro. É só aluguel e comida. Qualquer imprevisto, você já entra no cheque especial”, diz Viviane Santos, auxiliar de cozinha e mãe solo de dois filhos.
Especialistas em orçamento familiar alertam que o comprometimento excessivo com moradia e alimentação leva ao endividamento estrutural e ao adoecimento emocional.
E o que diz o poder público?
A prefeitura de Palmas ainda não se manifestou sobre o estudo. Em nota genérica divulgada há dois meses, o município afirmou que avalia a criação de “políticas habitacionais de caráter emergencial” e que pretende “fortalecer parcerias com o setor privado”.
Já economistas ouvidos pela reportagem alertam: não há como enfrentar esse cenário sem ações coordenadas entre município, estado e governo federal.