Manifestações de 3 de agosto: mais ruído do que força? Sociólogos analisam o real alcance dos atos pró-Bolsonaro

Manifestações de 3 de agosto: mais ruído do que força? Sociólogos analisam o real alcance dos atos pró-Bolsonaro
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 4 de agosto de 2025 4

As manifestações realizadas no domingo, 3 de agosto, convocadas por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorreram em ao menos 23 cidades brasileiras, com foco em pautas como anistia aos presos de 8 de janeiro, críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e defesa da liberdade de expressão. Apesar da mobilização digital intensa e da presença de parlamentares da direita, os atos tiveram adesão modesta e pouco impacto prático.

Segundo levantamento do Poder360, o público foi menor do que em mobilizações anteriores. Em cidades como São Paulo, Brasília, Palmas e Salvador, os registros por drones e mídias locais mostraram grupos pequenos e dispersos, com clima de comício político regional, sem grande presença popular.

O principal discurso do dia veio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que atacou diretamente o ministro Alexandre de Moraes com a frase:

“Sem a toga, Moraes não é nada.”

A declaração foi amplamente compartilhada nas redes e celebrada por influenciadores conservadores, mas também gerou reação de juristas e parlamentares que classificaram o tom como ofensivo e institucionalmente perigoso.

O que dizem os sociólogos?

Cláudio Couto, cientista político e sociólogo da FGV, avalia que os atos de 3 de agosto funcionaram como “gesto de sobrevivência simbólica”. Em entrevista ao Nexo Jornal, Couto afirmou que a direita mantém base organizada, mas cada vez mais desconectada da capacidade de mobilização de massas:

“Os atos mostraram que há base ideológica organizada, mas sem força de multidão. Foi um gesto de reafirmação interna.”

Para ele, o uso de símbolos religiosos, o hino nacional e o discurso antissistema reforçam identidades conservadoras, mas não ampliam a base política.

Já o sociólogo Yuan Zhang, coautor de um estudo publicado em abril de 2024 sobre incivilidade e mobilização digital durante as eleições brasileiras, defende que atos como o de 3 de agosto são extensões do campo simbólico digital.
No artigo “Incivility and Political Engagement in the 2022 Brazil Election” (arXiv.org), Zhang e equipe analisaram mais de 5 milhões de tuítes e identificaram que a radicalização do discurso nas redes serve para mobilizar bolhas ideológicas, mas tende a não se converter em presença física duradoura.

 Mobilização limitada e desgaste institucional

Em Palmas (TO), o ato contou com a presença dos deputados Vicentinho Júnior (PP) e Eli Borges (PL), além do pastor Nelcivan Costa, mas atraiu um público reduzido, segundo registros locais. O mesmo padrão se repetiu em outras capitais do Norte e Nordeste, com baixa presença popular e foco na reprodução de pautas já conhecidas da base bolsonarista.

A ausência de figuras centrais, como o próprio Bolsonaro, somada ao fato de que grupos empresariais e militares não participaram de forma visível, reforça a ideia de que o bolsonarismo atual segue ativo, mas retraído e restrito ao campo simbólico e digital.

O silêncio da esquerda e o cálculo político

Diferentemente de outros momentos de confronto político, a esquerda optou por não responder diretamente aos atos. Não houve convocação de manifestações, nem declarações contundentes do presidente Lula, que manteve silêncio sobre o tema.

Fontes do Planalto, ouvidas pela Agência Brasil, afirmam que a ordem foi “não dar palco” e tratar os atos como parte do barulho previsível de um ano pré-eleitoral. A estratégia, no entanto, tem gerado críticas entre setores mais combativos da base progressista, que veem no silêncio um sinal de ausência comunicacional.

Barulho para dentro da bolha

As manifestações de 3 de agosto deixaram um recado claro: a direita bolsonarista segue ativa, mas limitada. Com baixa adesão, ausência de novos discursos e forte dependência das redes sociais, os atos serviram mais para alimentar a base fiel do que para conquistar espaço político real.

A análise dos sociólogos mostra que a disputa atual ocorre cada vez mais no campo simbólico, onde o ruído, a repetição e a reafirmação de identidades valem mais do que a quantidade de pessoas nas ruas.

A pergunta que fica é: até onde o discurso sozinho sustenta uma força política real? No dia 3 de agosto, o Brasil viu mais um capítulo dessa narrativa — sem virada, mas com ruído.

Notícias relacionadas