Trump volta a ameaçar o comércio internacional, e governo Lula estuda reação diplomática
Ex-presidente dos EUA promete tarifas contra países emergentes e ameaça revisão de acordos comerciais. Planalto monitora cenário e articula reação via Mercosul e OMC.
A possível volta de Donald Trump à Casa Branca reacendeu o alerta em gabinetes diplomáticos e econômicos em todo o mundo. Em um comício realizado na Flórida no último domingo (3), o ex-presidente dos Estados Unidos afirmou que, se reeleito, irá “rever acordos comerciais com países que exploram a indústria americana”, em referência a Brasil, China, México e Vietnã. A fala provocou forte reação nos bastidores do Itamaraty e levou o governo Lula a convocar uma reunião interministerial nesta segunda-feira para discutir medidas preventivas no campo comercial e diplomático.
“Estamos assistindo, de novo, a uma retórica protecionista com potencial de desestabilizar o comércio global”, avaliou um diplomata brasileiro ouvido sob condição de anonimato.
Trump promete nova onda de tarifas
Durante o evento, Trump criticou o Acordo de Paris, classificou o Mercosul como “acordo injusto com os trabalhadores americanos” e prometeu implementar tarifas automáticas de 10% sobre todas as importações, além de restrições específicas sobre aço, soja e minerais estratégicos.
As falas ocorrem a três meses das eleições presidenciais nos EUA e fazem parte da estratégia eleitoral de Trump junto à base industrial do chamado “cinturão da ferrugem” — região onde tarifas contra países latino-americanos têm forte apelo eleitoral.
Analistas do Council on Foreign Relations alertam que, caso Trump seja eleito, os EUA poderão se retirar de estruturas multilaterais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o que traria “impacto sistêmico sobre países em desenvolvimento”.
Governo Lula prepara reação diplomática
No Brasil, o Planalto reagiu com cautela, mas não com passividade. Segundo apuração do Diário Tocantinense, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que os ministérios da Fazenda, Relações Exteriores e Indústria e Comércio apresentem, até o fim de agosto, um plano de contenção de riscos comerciais.
A proposta inclui:
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Fortalecimento de acordos bilaterais com a União Europeia e China;
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Reativação de canais de diálogo com os EUA via Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos;
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Possível acionamento da OMC caso tarifas extrabilaterais sejam aplicadas;
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Coordenação com o Mercosul para apresentação conjunta de protesto diplomático.
A ministra do Planejamento, Simone Tebet, declarou nesta segunda-feira que “o Brasil não aceitará ser penalizado por um protecionismo eleitoral” e que eventuais tarifas unilaterais violariam cláusulas do GATT, base legal da OMC.
Impactos no Brasil: soja, aço e veículos na mira
Em 2018, quando Trump aplicou tarifas sobre aço e alumínio brasileiros durante seu primeiro mandato, as exportações brasileiras do setor caíram 28% em doze meses. O setor automobilístico também sofreu com a elevação de custos de insumos e perda de competitividade.
O temor agora é que a nova proposta tarifária atinja produtos como:
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Soja e milho, em disputa com o cinturão agrícola norte-americano;
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Ferro e aço, usados na construção civil dos EUA;
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Veículos e autopeças, que integram cadeias produtivas no México e Brasil.
Segundo o economista André Perfeito, “o discurso de Trump aponta para uma tentativa de relocalização industrial forçada, o que pode gerar rupturas nas cadeias logísticas latino-americanas.”
O que dizem os aliados de Trump
Durante o evento, o senador J.D. Vance, cotado para vice na chapa republicana, afirmou que países que “manipulam moedas e subsidiam produtos agrícolas” devem “pagar um preço”. A fala foi vista como indireta ao Brasil, que atua fortemente no mercado global de soja com apoio estatal ao agronegócio.
O discurso também mira a China, mas analistas acreditam que os países latino-americanos são alvos mais vulneráveis, pela menor capacidade de retaliação e dependência comercial dos EUA.
Com as eleições americanas se aproximando, o tom nacionalista de Donald Trump reacende incertezas sobre o futuro do comércio internacional. O governo brasileiro adota postura de cautela, mas começa a se movimentar nos bastidores para proteger setores estratégicos da economia. O desafio será equilibrar a reação diplomática com a manutenção de canais abertos, evitando o isolamento comercial num momento em que o Brasil busca protagonismo global.