Pacote de tarifas dos EUA atinge calçadistas, fruticultura e têxteis do Ceará; prejuízos podem somar milhões

Pacote de tarifas dos EUA atinge calçadistas, fruticultura e têxteis do Ceará; prejuízos podem somar milhões
Donald Trump anuncia novas medidas sobre comércio, imigração e direitos civis em coletiva na Casa Branca.
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 7 de agosto de 2025 2

O novo pacote tarifário anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já está causando forte repercussão entre exportadores brasileiros. As novas medidas impõem tarifas de até 50% sobre cerca de 36% das exportações brasileiras para os EUA, o que representa um total de US$ 14,5 bilhões em produtos afetados, segundo levantamento do The Wall Street Journal.

Embora produtos como café tenham sido retirados da lista final, setores-chave para a economia do Ceará foram diretamente atingidos: calçadistas, fruticultura (principalmente suco de laranja) e o têxtil regional.

Calçadistas cearenses sob impacto direto

A indústria calçadista do Ceará vinha apresentando retração mesmo antes das tarifas. Em 2024, o estado exportou cerca de 6 milhões de pares a menos que no ano anterior — uma queda de 17,5% no volume. A nova tarifa compromete ainda mais a competitividade do setor, já pressionado por concorrentes asiáticos, como mostrou o portal Datamar News.

Em entrevista à Reuters, líderes sindicais afirmaram que “uma peça de 100 dólares sendo taxada em 50 se torna inviável para o consumidor norte-americano”. Fabricantes projetam suspensão de turnos e cancelamentos de pedidos internacionais.

Fruticultura: suco de laranja no centro do furacão

No setor da fruticultura, o impacto mais grave está no suco de laranja, cujas exportações têm os EUA como principal destino. Cerca de 42% da produção brasileira é absorvida pelo mercado norte-americano, segundo dados da CitrusBR. Com a nova tarifa, os produtores estimam prejuízos de até US$ 792 milhões por ano, como revelou o The Wall Street Journal.

A cotação da caixa de laranjas no mercado interno já sofreu queda de até 50%, segundo o índice Cepea, da USP. Para muitos pequenos produtores no Nordeste, isso representa colapso financeiro iminente.

Têxteis pressionados por efeito dominó

Embora menos dependente diretamente do mercado norte-americano, o setor têxtil cearense também pode ser atingido em cadeia, principalmente nos segmentos de moda praia, tecidos funcionais e confecção de base exportadora. A elevação do custo de exportação pode levar a um desvio de pedidos para polos asiáticos com menores tarifas e custos.

Estimativa de perdas para o Ceará e o Nordeste

Conforme estimativa do governo federal, 35,9% das exportações brasileiras para os EUA estão diretamente sujeitas às novas tarifas (Reuters). Para o Ceará, que tem nos EUA um dos seus principais destinos comerciais, a estimativa inicial é de redução entre US$ 200 milhões e US$ 500 milhões no faturamento exportador anual.

Outros estados nordestinos também sentirão os impactos. A Bahia, com sua produção têxtil e frutífera, e Pernambuco, que exporta couros e derivados, enfrentam riscos semelhantes, como destacou a Rio Times.

Reação do governo Lula e possíveis retaliações

Em resposta, o governo brasileiro anunciou que acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar as tarifas, alegando violação dos acordos multilaterais e da cláusula de nação mais favorecida. A ação foi confirmada pela AP News.

O presidente Lula também declarou que não irá se submeter ao que chamou de “humilhação de telefonar para Trump” e que buscará diálogo direto com líderes como Narendra Modi (Índia) e Xi Jinping (China), conforme reportado pelo Economic Times.

Entre as possíveis retaliações, especialistas apontam a ativação da Lei Brasileira de Reciprocidade Econômica, que permite suspensões de direitos comerciais e sanções estratégicas — incluindo propriedade intelectual — de países que impuserem barreiras tarifárias abusivas, segundo análise da Covington & Burling LLP.

Notícias relacionadas