Acesso à creche: 23% das crianças até 3 anos no Ceará ficam fora por falta de vaga; Goiás e Tocantins também têm déficit acima da média
No Ceará, 23% das crianças de até 3 anos — o equivalente a cerca de 110,4 mil — estão fora da creche por dificuldade de acesso: falta de vaga, distância da unidade ou recusa de matrícula por idade. Os dados são de um levantamento do Todos Pela Educação, com base na PNAD Contínua/IBGE, que revela um cenário semelhante em Goiás e Tocantins, ambos com déficits acima da média nacional de 19,7%.
Em Goiás, a taxa de crianças fora da creche por falta de acesso chega a 23,5%, e a escolarização total nesta faixa etária é de apenas 28,7% — índice um terço menor que o registrado no Ceará. O dado estadual foi confirmado pelo IBGE e aponta para um gargalo histórico na oferta de vagas, especialmente nas regiões metropolitanas de Goiânia e Entorno.
No Tocantins, 17,5% das crianças até 3 anos enfrentam barreiras de acesso, enquanto a taxa de atendimento é estimada em 33%, segundo dados compilados pelo TPE. Embora o índice de exclusão seja menor que nos outros dois estados, a meta legal estabelecida no Plano Nacional de Educação (PNE) — de atender ao menos 50% das crianças nessa faixa etária — ainda está distante.
Impacto no desenvolvimento infantil
Pesquisadores alertam que a ausência de vagas em creches não é apenas um problema educacional, mas também de desenvolvimento humano. O Harvard Center on the Developing Child aponta que a falta de estímulo nos primeiros anos de vida pode comprometer habilidades cognitivas e socioemocionais, além de aumentar a exposição ao chamado “estresse tóxico”, que afeta negativamente a saúde ao longo da vida.
Além disso, estudos recentes do National Bureau of Economic Research (NBER) mostram que o acesso à educação infantil de qualidade está diretamente relacionado ao aumento da renda familiar no futuro, redução da evasão escolar e maior inserção das mães no mercado de trabalho.
Desigualdade regional
O levantamento do TPE evidencia diferenças significativas entre regiões. Enquanto a média nacional de escolarização em creche é de 41,2%, os estados nordestinos como Ceará têm desempenho melhor que Goiás, mas ainda ficam aquém da meta. No Tocantins, a cobertura é maior que em parte do Centro-Oeste, mas desigualdades entre áreas urbanas e rurais permanecem marcantes.
Em muitos municípios tocantinenses e goianos, a fila de espera por creche chega a ultrapassar 12 meses. No Ceará, a concentração de vagas na capital e nas grandes cidades dificulta o acesso para famílias em localidades menores.
O que dizem os especialistas
Para a consultora em políticas educacionais do Todos Pela Educação, Carla Santos, a solução exige “planejamento territorial, aumento de investimento e parcerias com instituições conveniadas, desde que com padrões de qualidade e acompanhamento pedagógico rigoroso”.
O Unicef Brasil, em nota, reforçou que “a primeira infância é a janela de oportunidade mais importante para quebrar ciclos de pobreza” e defendeu que estados e municípios priorizem a ampliação da rede física e a formação de educadores.
Meta distante
O PNE prevê que 50% das crianças de até 3 anos estejam matriculadas em creches até o fim de sua vigência. Hoje, nenhum dos três estados atingiu essa meta. Especialistas lembram que, sem avanços significativos, o país pode repetir o descumprimento registrado no plano anterior, encerrado em 2024, quando a cobertura nacional era inferior a 40%.
