Entre inflação, tarifas e serviços: como as famílias brasileiras e tocantinenses estão enfrentando a pressão no orçamento
A alta da inflação, o aumento de tarifas e o custo dos serviços formam uma combinação que está comprometendo o orçamento das famílias brasileiras. No Tocantins, a situação segue a mesma tendência nacional, mas com especificidades locais que mostram tanto resiliência quanto vulnerabilidades diante das mudanças econômicas.
Segundo o IBGE, o IPCA nacional subiu 1,31% em março de 2025 — a maior alta para o mês desde 2003. O grupo de alimentos e bebidas, essencial no orçamento doméstico, avançou 0,70%, com destaque para aumentos no café, nos ovos e no arroz. Estudo do Pacto Contra a Fome aponta que famílias de baixa renda chegam a destinar até 61% de sua renda para a alimentação, o que as torna extremamente sensíveis a variações de preço.
No Tocantins, o cenário é semelhante. Dados da sobre o custo de vida no Tocantins mostram que, em abril, alimentos e gás de cozinha foram os principais vilões da inflação no estado, pressionando o custo de vida em cidades como Palmas e Araguaína. Apesar disso, levantamento do Porto Rápido indica que apenas 3,88% dos domicílios tocantinenses vivem abaixo da linha de pobreza, percentual inferior ao de outros estados do Norte e Nordeste.
O peso do “tarifaço”
A conjuntura interna foi agravada pelo chamado “tarifaço” internacional. O aumento de tarifas de importação dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode provocar, segundo estudo da Cebrasse, a perda de até 146 mil empregos e uma redução de R$ 2,74 bilhões na renda das famílias nos próximos dois anos.
Projeções do Ministério da Fazenda estimam crescimento do PIB em 2,5% para 2025, mas analistas alertam que setores exportadores — incluindo o agronegócio tocantinense — podem sentir o impacto com queda nas vendas externas.
Além disso, tarifas internas também contribuem para o aperto. Em São Paulo, o fim de um regime especial de ICMS para bares e restaurantes provocou alta imediata nos preços de refeições, segundo dados da Abrasel-SP. Especialistas alertam que medidas semelhantes em outros estados podem ter efeito semelhante sobre serviços essenciais.
O que dizem especialistas e consumidores
Para o economista João Marcelo Dias, “a combinação de inflação persistente e tarifas altas pressiona especialmente quem vive de renda fixa ou depende de benefícios sociais. No Tocantins, embora a taxa de pobreza seja menor que a média regional, o peso da alimentação no orçamento é muito elevado, o que limita a capacidade de absorção de choques”.
Consumidores ouvidos pela reportagem relatam mudanças nos hábitos. A aposentada Maria das Graças, moradora de Araguaína, afirma que reduziu a compra de carne bovina, substituindo por frango e ovos, e passou a cozinhar mais em casa para evitar refeições fora. Já o agricultor José Raimundo, de Gurupi, teme os efeitos do “tarifaço” no preço de insumos agrícolas: “Se o custo de produção subir e a gente não conseguir exportar, sobra menos para investir na lavoura”.
Comparativo nacional e local
No plano nacional, a inflação segue pressionada por fatores externos e internos, com previsão de encerrar o ano em 4,9%, acima da meta. No Tocantins, embora os indicadores sociais sejam mais positivos, a realidade no supermercado e no botijão de gás mostra que o bolso do consumidor local sofre impactos semelhantes aos de grandes centros.
Caminhos e desafios
Analistas defendem que, para aliviar a pressão sobre as famílias, é preciso combinar políticas de estímulo à produção de alimentos, revisão tributária para serviços essenciais e proteção a setores estratégicos do comércio exterior. Enquanto isso, consumidores seguem ajustando o orçamento, cortando gastos não essenciais e buscando alternativas mais baratas para manter a qualidade de vida.