O que aprendemos (ou não) com a pandemia: desafios atuais e futuros para o Brasil e o Tocantins

O que aprendemos (ou não) com a pandemia: desafios atuais e futuros para o Brasil e o Tocantins
Este estudo focou apenas nos casos mais graves de COVID-19, classificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave e, portanto, não reflete a magnitude total de casos e óbitos por COVID-19 no Brasil. Esses casos provavelmente foram extremamente graves e esses pacientes também eram particularmente frágeis, o que reduz o escopo inferencial de nossos resultados. Crédito: Ministério da Ciência e Tecnológia)
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 12 de agosto de 2025 3

Quase cinco anos após o início da pandemia de COVID-19, médicos, gestores e pesquisadores ainda avaliam quais lições foram incorporadas aos sistemas de saúde — e quais seguem ignoradas. No Tocantins, dados mostram avanços em vacinação e segurança hospitalar, mas também apontam fragilidades diante de novas ameaças, como o avanço da dengue e a possibilidade de epidemias de gripe.

Sistemas de saúde: avanços e lacunas

A pandemia expôs deficiências estruturais na rede pública: carência de leitos de UTI, falta de insumos básicos e sobrecarga de profissionais. Ao mesmo tempo, acelerou a implantação de protocolos de segurança, integração digital para notificação de casos e estratégias emergenciais de ampliação de atendimento.

Para o diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa, “o principal aprendizado foi a necessidade de sistemas ágeis, com cadeias de suprimentos garantidas e capacidade de resposta rápida, inclusive para novas ameaças”.

No Tocantins, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o monitoramento contínuo de síndromes respiratórias é hoje uma prioridade, com reforço na vigilância e na testagem em períodos críticos.

Vacinação: ponto forte no Tocantins

O estado se destaca nacionalmente por manter, há 24 anos consecutivos, cobertura vacinal contra tuberculose (BCG) acima de 90% da população-alvo, segundo o Anuário VacinaBR. Durante a pandemia, essa base sólida facilitou a logística e a adesão às campanhas contra a COVID-19.

O infectologista Carlos Lima, da UFT, avalia que “o histórico de vacinação no Tocantins é uma vantagem estratégica para conter surtos, mas é preciso manter o engajamento da população, especialmente diante da desinformação”.

Novas ameaças: dengue e gripe

O Brasil vive, em 2025, uma das maiores epidemias de dengue já registradas. Segundo o Ministério da Saúde, a projeção é de 4,2 milhões de casos até o fim do ano, após ultrapassar 1 milhão no primeiro trimestre de 2024. No Tocantins, o cenário segue a tendência nacional, com aumento de internações e pressão sobre hospitais regionais.

A gripe também preocupa. Embora os casos de COVID-19 tenham caído drasticamente — de 4.254 em fevereiro de 2024 para 411 no mesmo período de 2025 —, especialistas alertam para o risco de coinfecção e sobrecarga dos serviços nos meses de inverno.

Estrutura hospitalar: Tocantins acima da média nacional

Relatório da Anvisa sobre segurança do paciente mostrou que 83% dos hospitais tocantinenses com UTI participaram da Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente em 2024 — índice acima da média nacional, de 71%.

Para a coordenadora estadual de segurança do paciente, Mariana Pires, “a adesão indica compromisso dos hospitais em reduzir riscos e prevenir eventos adversos, um passo fundamental para melhorar a resposta a crises sanitárias”.

Desafios que permanecem

Apesar dos avanços, especialistas destacam três pontos críticos:

  1. Vigilância contínua – É preciso manter sistemas de alerta precoce e integração entre municípios para identificar surtos antes que se tornem epidemias.

  2. Combate à desinformação – A resistência vacinal, alimentada por fake news, ameaça conquistas históricas.

  3. Investimento constante – A pandemia mostrou que cortes em saúde têm efeito multiplicador negativo em crises.

Para a epidemiologista Luciana Andrade, “o maior risco é esquecer rapidamente o que vivemos. As emergências sanitárias continuarão acontecendo; a questão é se estaremos preparados para agir melhor do que antes”.

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