Por que “Ligações Perigosas” ainda incomoda, lucra e volta ao debate em 2025
Em 2025, o Brasil não se sente moderno porque inovou — sente-se moderno porque incorporou completamente o teatro do poder. Cada episódio legislativo, cada escândalo, é uma encenação revisitada em loop nas redes. A recente CPI do INSS tornou-se segmento viral da TV fora da TV; políticos transformam intervenções em roteiros encenados para o X (Twitter), exibindo códigos visuais, frases de impacto e mobilização emocional. Não está longe a impressão de que o que se disputa hoje é menos o voto e mais a narrativa.
Esse Brasil é o palco ideal para revisitar o clássico Ligações Perigosas, escrito em 1782 por Laclos. No romance epistolar, a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont não lutam com armas, mas com signos: cartas que ferem, rumores que matam reputações. O poder ali não se exerce pela força, mas pela manipulação simbólica. Se Laclos escrevesse hoje, seus instrumentos seriam stories, print screens e trending topics.
O cinema, por sua vez, legou material magistral dessa lógica: Dangerous Liaisons (1988), de Stephen Frears, com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer, é uma aula de encenação aristocrática. Produzido com US$ 14 milhões, faturou US$ 34,7 milhões globalmente (Box Office Mojo), conquistou três Oscars (entre eles Roteiro Adaptado) e ostenta 94% de aprovação no Rotten Tomatoes. A elegância dos trajes, a precisão dos diálogos, a atmosfera construída: tudo funciona como um signo deliberado, que diz “poder”.
Uma releitura que fracassou foi Valmont (1989), de Milos Forman — orçado em US$ 33 milhões, faturou míseros US$ 1,1 milhão nos EUA. Quem perde controle simbólico desaparece. A versão juvenile Cruel Intentions(1999), por outro lado, ressignificou a trama para o universo teen e faturou cerca de US$ 75 milhões, provando que o signo se reinventa e encontra novos públicos.
No Brasil, uma adaptação foi exibida pela Globo em 2016: Ligações Perigosas, com Patrícia Pillar e Selton Mello, atingiu média de audiência de 22,3 pontos em SP (na casa dos 1,5 milhão de espectadores por capítulo nos principais mercados), e hoje está disponível no Globoplay. Mesmo sem grande franquia nacional, o signo continua operando: a obra de Frears circula em Amazon Prime Video, Apple TV e Oldflix mantendo seu alcance simbólico vivo no streaming.
Culturalmente, o Brasil de 2025 está absolutamente imerso no regime dos signos. O deputado ensaia viral; o “print” se torna prova-valor; o cancelamento virtual é punição política — tudo isso ressoa diretamente com os jogos laclosianos. A semiótica, segundo Barthes, mostra que o signo carrega múltiplos sentidos; e Eco acentua que quem domina o código domina também sua interpretação e impacto. Brasília hoje é trama viva dentro do romance e do cinema.
Para completar o panorama, vale destacar os dados da indústria cultural brasileira: segundo a Ancine, em 2024, filmes nacionais representaram cerca de 12% de participação no total de sessões, mas só 3,5% da renda, expondo o fosso entre volume e valor simbólico — enquanto Ligações Perigosas permanece simbólico mesmo sem grande presença econômica.
No fim, a lição permanece brutalmente atual: o poder raramente se impõe pelo fato — ele se impõe pela narrativa que convence, pela construção simbólica, pela forma. O Brasil de 2025 é o palco moderno dessa peça que começou com cartas em pilhas de sedução, virou cinema de prêmios e agora circula nas timelines como realidade política. Para domar esse palco, é preciso entender o signo — e Ligações Perigosas continua sendo o manual perfeito dessa lógica.