Saúde: Mounjaro – o que pode e o que não pode?
O medicamento Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, tornou-se nos últimos meses um dos fármacos mais comentados dentro e fora dos consultórios médicos. Produzido pela farmacêutica Eli Lilly, ele pertence à classe dos agonistas duplos de GLP-1 e GIP, atuando no controle da glicemia e na redução do apetite. A pergunta que se impõe é: afinal, para que serve, o que a ciência reconhece e onde estão os limites do entusiasmo?
Aprovação da Anvisa
No Brasil, a Anvisa autorizou inicialmente o uso da tirzepatida para o tratamento do diabetes tipo 2 em adultos, associado a dieta e exercício físico. Em 2025, a agência ampliou a indicação para sobrepeso e obesidade, em pacientes com IMC a partir de 30, ou acima de 27 quando há comorbidades como hipertensão, apneia do sono ou pré-diabetes. O uso, porém, exige prescrição e acompanhamento médico.
O que não está autorizado
Apesar da popularização em redes sociais, não há aprovação regulatória para o uso do Mounjaro em distúrbios psiquiátricos como ansiedade, pânico ou depressão. Psiquiatras ouvidos pela Sociedade Brasileira de Psiquiatriaressaltam que não existem ensaios clínicos robustos que comprovem eficácia nesses casos. O uso off label, fora das indicações oficiais, é considerado arriscado e não substitui terapias comprovadas como psicoterapia e antidepressivos.
Estudos em andamento
Pesquisas internacionais sugerem que pacientes com obesidade e diabetes tratados com tirzepatida relatam melhora indireta do humor, atribuída à perda de peso, maior saciedade e melhora do controle metabólico. Especialistas alertam, porém, que esses benefícios não configuram indicação psiquiátrica formal. “É diferente observar melhora secundária da qualidade de vida e prescrever como tratamento para depressão”, afirma o psiquiatra fictício João Mendes, consultor da reportagem.
Efeitos adversos
A bula lista efeitos comuns como náusea, diarreia e vômitos. Casos de hipoglicemia também podem ocorrer, sobretudo em associação com insulina. Há ainda relatos de refluxo, indigestão e reações no local da aplicação. A própria Anvisa alerta que a segurança do uso a longo prazo ainda está em avaliação, o que reforça a necessidade de prescrição controlada e receita retida para fármacos desta classe.
Comparação com outros medicamentos
Em relação a concorrentes como o Ozempic e Wegovy, estudos indicam que a tirzepatida pode promover maior redução percentual de peso corporal, mas também tende a provocar mais efeitos gastrointestinais. No Brasil, especialistas apontam ainda para um desafio de acesso: o custo elevado, que ultrapassa a faixa de milhares de reais mensais, limita o alcance a grande parte da população.
Conclusão
O Mounjaro representa um avanço significativo no tratamento de diabetes e obesidade, com respaldo científico e regulatório. Contudo, extrapolar seu uso para transtornos de ansiedade e depressão é precipitado e pode trazer riscos. O consenso entre médicos e autoridades de saúde é claro: a tirzepatida não substitui tratamentos psiquiátricos convencionais e só deve ser utilizada nas indicações reconhecidas pela Anvisa.