20 deputados e ex-deputados do Tocantins destinaram R$ 38 milhões a empresas investigadas por desvio de cestas básicas
Operação Fames-19 da Polícia Federal revela rede de repasses que somaram quase R$ 100 milhões; lista inclui parlamentares com mandato, ex-deputados hoje em cargos no Executivo e prefeitos eleitos.
A segunda fase da Operação Fames-19, deflagrada pela Polícia Federal em 3 de setembro, expôs o envolvimento de 20 deputados e ex-deputados estaduais do Tocantins em um esquema de desvios milionários de recursos públicos. As investigações apontam que, entre 2020 e 2021, emendas parlamentares foram utilizadas para contratar empresas responsáveis pelo fornecimento de cestas básicas e frangos congelados — bens que, segundo a PF, não chegaram integralmente à população.
O tamanho do esquema
De acordo com documentos obtidos pela PF, os contratos somaram R$ 97 milhões, com prejuízo estimado de R$ 73 milhões aos cofres públicos. Planilhas da investigação mostram que R$ 72,4 milhões foram repassados diretamente às empresas fornecedoras, sendo R$ 34,6 milhões oriundos do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza (Fecoep) e R$ 38,2 milhões provenientes de emendas parlamentares.
Os valores, segundo os investigadores, teriam financiado não apenas o esquema, mas também a compra de gado, construção de empreendimentos de luxo e despesas pessoais de beneficiários.
Decisão do STJ e impacto político
A operação ganhou ainda mais força após decisão do ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que determinou o afastamento por seis meses do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e da primeira-dama Karynne Sotero. Nesse contexto, os deputados citados entraram no foco direto da apuração.
Quem destinou recursos e quanto
Entre os parlamentares ainda em exercício, os maiores repasses partiram de Valdemar Júnior (Republicanos), com R$ 3,5 milhões, e Olyntho Neto (PSDB), que destinou R$ 3,2 milhões. Também aparecem na lista Nilton Franco, Cleiton Cardoso, Amélio Cayres, Cláudia Lelis, Leo Barbosa, Jair Farias, Jorge Frederico, Ivory de Lira e Vilmar de Oliveira, com valores que variam entre R$ 1 milhão e R$ 2,5 milhões.
Já entre os atuais deputados federais que exerceram mandato na Aleto no período, estão Antonio Andrade e Ricardo Ayres, que juntos destinaram quase R$ 4 milhões às empresas investigadas.
Ex-deputados também aparecem em destaque: Eduardo Siqueira Campos (Podemos), hoje prefeito de Palmas, repassou R$ 2,1 milhões; Fabion Gomes (PL), atual prefeito de Tocantinópolis, destinou R$ 1,8 milhão; e Issam Saado (Republicanos), presidente da Jucetins, transferiu mais de R$ 1,6 milhão. Outros nomes da lista incluem Valderez Castelo Branco (PP), hoje secretária estadual, e Amália Santana (PT), ex-parlamentar sem mandato.
O que dizem os citados
Parte dos envolvidos se manifestou. Eduardo Siqueira Campos, Valderez Castelo Branco, Olyntho Neto e Ricardo Ayres enviaram notas com versões de defesa, negando irregularidades e alegando que todas as emendas seguiram os trâmites legais.
A Assembleia Legislativa do Tocantins divulgou nota oficial afirmando ter colaborado de forma “total e irrestrita” com a Polícia Federal e o STJ, entregando documentos e equipamentos solicitados. A Casa informou ainda que sua Procuradoria não teve acesso aos autos e, portanto, desconhece os fundamentos que embasaram os mandados de busca e apreensão.
O que vem a seguir
O caso deve se prolongar nos tribunais superiores e pode alterar o cenário político tocantinense. Além de colocar sob escrutínio nomes centrais da base governista e da oposição, a Operação Fames-19 reabre o debate sobre o uso de emendas parlamentares e o controle de sua execução.
Analistas políticos avaliam que, mesmo antes de uma decisão final da Justiça, o desgaste provocado pelas investigações já compromete a imagem pública dos parlamentares citados e pode influenciar diretamente as eleições municipais de 2026.