Liderança feminina no mercado de trabalho: como a linguagem ajuda a combater o assédio

Liderança feminina no mercado de trabalho: como a linguagem ajuda a combater o assédio
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 30 de setembro de 2025 10

A comunicação estratégica tem se consolidado como ferramenta de liderança no ambiente corporativo, sobretudo entre as mulheres. Em um mercado ainda marcado por desigualdades, a forma de se expressar pode ser determinante não apenas para conquistar respeito, mas também para se proteger de situações de assédio.

O professor e advogado especialista em redação jurídica e normativa, Carlos André Pereira Nunes, referência nacional no ensino de linguagem clara, afirma que a escolha das palavras é capaz de mudar o lugar social ocupado pelas mulheres dentro das empresas. “A linguagem não apenas reflete nosso lugar, ela pode redefini-lo. Quando as mulheres comunicam com clareza estratégica, não apenas falam: lideram”, explica.

Assédio segue recorrente no ambiente de trabalho

A Pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2024, conduzida pela KPMG, mostra a dimensão do problema. Nos últimos 12 meses, 30% dos profissionais brasileiros relataram ter sofrido assédio, sendo 41% dos casos no ambiente de trabalho. O assédio moral é o mais recorrente (46%), seguido pelo assédio sexual (14%). A pesquisa aponta ainda que 92% das vítimas não denunciaram os abusos, principalmente por medo de retaliação.

Outro levantamento, realizado pela Catho sob o título Mulheres 2024 – Desafios, tendências e comportamento da mulher no mercado de trabalho, reforça esse cenário: 78% das mulheres brasileiras já enfrentaram assédio no trabalho. Em 21% dos casos, a denúncia não gerou qualquer consequência prática.

A linguagem como escudo e como liderança

professor Carlos André Pereira Nunes explica como estratégias de linguagem podem transformar reuniões em espaço de protagonismo.
Professor Carlos André Pereira Nunes explica como estratégias de linguagem podem transformar reuniões em espaço de protagonismo.

Para Carlos André, a comunicação clara pode atuar ao mesmo tempo como proteção e como instrumento de liderança. Ele exemplifica com estratégias simples: diante de uma interrupção em reuniões, responder com firmeza “Gostaria de concluir meu ponto”; ao iniciar uma apresentação, usar frases como “Meu objetivo hoje é…” para estabelecer clareza de propósito; e diante de comentários inapropriados, reagir com uma pergunta objetiva: “Poderia explicar como isso contribui para nossa pauta?”.

Esses mecanismos linguísticos ajudam a reduzir a vulnerabilidade e a fortalecer a presença da mulher em espaços de poder. “Quando uma mulher organiza os argumentos, define a pauta e usa o tempo dela com propósito, ela passa do status de participante ao de protagonista”, resume.

Mudança cultural

Mas, segundo o especialista, não se trata apenas de escolher palavras: há um componente de postura. “Não é apenas o que você diz, mas como se posiciona ao dizer. A linguagem clara é armadura e passaporte: protege e abre portas”, avalia. Reformular frases comuns — como trocar “se não for incômodo” por “antes de prosseguirmos, preciso concluir meu ponto” — é uma forma de comunicar autoridade.

O impacto da comunicação estratégica

O uso consciente da linguagem, avalia o professor, não apenas garante espaço de fala, mas transforma o ambiente corporativo em si. Ao conquistar autoridade e ocupar seu tempo com clareza, as mulheres tornam-se menos suscetíveis a práticas de exclusão e assédio.

“A comunicação estratégica é capaz de transformar reuniões em palco de protagonismo. Mais do que se defender, é uma forma de ocupar o lugar que já é delas por direito”, conclui Carlos André.


Notícias relacionadas