Trump mira o café brasileiro, mas crise é maior para os EUA: preços disparam e torrefadores sofrem
Em agosto de 2025, os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras de café. A medida, parte do pacote “tarifário 2.0” do governo Donald Trump, foi anunciada como estratégia para proteger produtores locais e pressionar parceiros comerciais. Mas os efeitos já mostram um resultado inesperado: enquanto o Brasil redireciona parte de sua produção para outros mercados, quem mais sofre são os consumidores americanos, que enfrentam aumento nos preços e falta de cafés especiais.
O impacto imediato no Brasil foi relevante: em agosto, as exportações caíram para 3,1 milhões de sacas de 60 kg, uma retração de 17,5% em relação a 2024. Para os EUA, a queda foi ainda mais drástica: –46% nos embarques em agostoe –20% adicionais em setembro.
Apesar disso, exportadores brasileiros conseguiram redirecionar parte da produção para a Europa e a Ásia, principalmente para Alemanha, Japão e China. Já os Estados Unidos, dependentes do café brasileiro para compor cerca de 20% do seu consumo anual, enfrentaram preços em alta: supermercados e cafeterias reportaram elevação de até 30% nos cafés especiais e 20% nos blends convencionais.
Os cafés premium brasileiros, presentes em cafeterias de Nova York, Los Angeles e São Francisco, praticamente desapareceram do mercado americano. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), houve retração de até 70% nos embarques de cafés especiais para os EUA em agosto.
Enquanto o Brasil encontrou espaço no Japão e na Europa para absorver parte desses microlotes, torrefadores americanos foram obrigados a buscar origens alternativas, de menor qualidade ou com custo mais alto, o que encareceu ainda mais a xícara no varejo.
A safra brasileira de 2025/26 deve alcançar 65 milhões de sacas, sendo 40,9 milhões de arábica e 24,1 milhões de robusta (conilon). Essa expansão dá ao Brasil poder de barganha no mercado internacional.
Outros fornecedores — como Colômbia, Vietnã e Peru — aumentaram participação nos EUA, mas não conseguiram suprir a lacuna do Brasil sem elevar preços. Em nota publicada pela Revista Agronegócios, o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, foi categórico:
“O recente anúncio de aumento das tarifas por parte do governo americano atinge toda a cadeia produtiva do café no Brasil e impõe custos adicionais ao consumidor norte-americano, com reflexos inflacionários que afetam diretamente o poder de compra da população dos Estados Unidos.”
Ou seja, além de prejudicar produtores brasileiros, a decisão repercute diretamente no bolso dos americanos, transformando um insumo culturalmente essencial — o café — em alvo de inflação.
Pressão interna no Brasil
No campo brasileiro, os efeitos também são sentidos: exportadores seguram estoques, produtores sofrem com liquidez e o crédito rural já enfrenta pressão. No entanto, a capacidade de diversificação para outros mercados suavizou o impacto.
A economista agrícola Carla Bacha (USP/ESALQ) alerta: “o produtor médio é o elo mais frágil. Sem liquidez, fica refém de prorrogações bancárias e de programas emergenciais. O risco é transformar um choque externo em crise social no interior”.
No Congresso americano, parlamentares tentam incluir o café em listas de exceção tarifária, mas sem avanço até agora. O Itamaraty intensificou o lobby diplomático e o setor privado aposta em três frentes:
-
diversificação de mercados (Alemanha, Japão e China em destaque);
-
expansão do robusta;
-
pressão internacional contra a tarifa.
Exportações brasileiras de café – Agosto 2025
-
Total: 3,1 milhões de sacas
-
Variação: –17,5% vs 2024
-
Queda para os EUA: –46%
-
Nova queda em setembro: –20%
Principais destinos do café brasileiro (2024)
-
Europa (Alemanha, Itália, Bélgica): 42%
-
EUA: 19%
-
Ásia (Japão, China, Coreia): 12%
-
Outros: 27%
Safra prevista 2025/26 (USDA)
-
Total: 65 milhões de sacas
-
Arábica: 40,9 milhões
-
Robusta: 24,1 milhões
Linha do Tempo
-
2024: Brasil exporta US$ 1,94 bi em café para os EUA.
-
Agosto/2025: Trump anuncia tarifa de 50% sobre o café brasileiro.
-
Agosto/2025: Exportações caem –46% para os EUA; preços disparam no varejo americano.
-
Setembro/2025: Nova queda nos embarques; torrefadores recorrem a origens mais caras.
-
Outubro/2025: Pressão de congressistas e cafeterias americanas contra a tarifa.
O tarifaço de 50% atingiu o Brasil, mas o efeito foi ainda mais devastador para os Estados Unidos. O Brasil, com sua capacidade de diversificação, encontrou novos compradores. Já os consumidores americanos, sem alternativas equivalentes, passaram a pagar mais caro por cafés de menor qualidade. O gesto político de Trump acabou se transformando em um tiro no pé: em vez de fragilizar o Brasil, expôs o próprio mercado americano a inflação e insatisfação popular.