Hamas aceita pontos do plano de Trump; Israel reage com cautela e analistas alertam para impasses
O grupo Hamas anunciou nesta sexta-feira (3) que aceita elementos centrais do plano de paz apresentado pelo ex-presidente Donald Trump, sobretudo a liberação dos reféns ainda mantidos em Gaza. Porém, deixou claro que pontos sobre o futuro político e militar do território continuam em aberto. A informação foi divulgada pela AP News.
Em resposta, o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que Israel está pronto para “a implementação imediata da primeira fase” do acordo, que prevê a libertação dos reféns, mas sem garantir um cessar-fogo pleno. Segundo o governo israelense, “se o Hamas cumprir sua parte, Israel está pronto para executar o plano conforme acordado”, como noticiou o New York Post.
O que foi aceito pelo Hamas
O Hamas declarou que aceita entregar todos os reféns israelenses, gesto considerado central para destravar o diálogo. Contudo, rejeitou abrir mão do controle político em Gaza ou se comprometer com desmilitarização total — dois dos pontos mais controversos da proposta de Trump.
De acordo com a Al Jazeera, o grupo afirmou em nota que “as questões relativas à administração futura de Gaza e aos direitos palestinos devem ser resolvidas dentro de uma Mesa de Negociação Palestina”.
A posição de Israel
O gabinete de Netanyahu recebeu a decisão como positiva, mas ainda insuficiente. O premiê israelense declarou que não aceitará “soluções parciais” que deixem o Hamas armado em Gaza. Para ele, a libertação dos reféns é “apenas o começo” de um processo que exige compromissos mais firmes.
O The Guardian destacou que Trump chegou a ordenar a Israel que suspendesse temporariamente os bombardeios em Gaza para permitir o avanço das negociações. O gesto foi visto como forma de garantir a segurança dos reféns e abrir espaço diplomático.
Especialistas apontam desafios
Para o cientista político Hassan Barari, professor da Universidade da Jordânia, o anúncio do Hamas “representa um cálculo pragmático diante da pressão militar e diplomática, mas não significa que o grupo abrirá mão de sua posição estratégica em Gaza”.
Já a pesquisadora Yael Aronoff, especialista em política israelense na Universidade de Michigan, avalia que Israel vê a aceitação como um avanço, mas teme que seja apenas “um movimento tático do Hamas para ganhar tempo e reconstruir sua capacidade militar”.
O analista H.A. Hellyer, do think tank Royal United Services Institute, alertou em entrevista que “o grande obstáculo será a implementação: Israel exige garantias de desmilitarização, enquanto o Hamas não aceita desarmar. Isso pode levar a um impasse antes mesmo da fase final do plano”.
O prazo e a pressão internacional
Trump havia dado ao Hamas até domingo, 6 da tarde, para aceitar o acordo integralmente ou enfrentar “todas as consequências”, em suas palavras, como reportou o Politico.
A pressão internacional também pesou: organizações humanitárias alertaram para a crise em Gaza, onde mais de 30 mil pessoas morreram desde o início do conflito em outubro de 2023. A aceitação parcial foi vista como uma tentativa de aliviar a pressão diplomática e humanitária.
A decisão do Hamas de aceitar parte do plano de Trump abre uma janela rara de negociação, mas especialistas alertam que as divergências sobre desarmamento e o futuro político de Gaza permanecem sem solução. Israel, mesmo disposto a iniciar a primeira fase, mantém postura cautelosa, reforçando que a prioridade é impedir que o Hamas continue operando como força armada.
Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha de perto os próximos dias, que serão decisivos para determinar se este anúncio será o início de um processo de paz ou apenas mais um capítulo de impasses no conflito.