Por que é tão importante fazer terapia? Cresce no Brasil a busca por saúde emocional
Com o aumento de casos de ansiedade, depressão e burnout, a terapia se consolida como caminho de equilíbrio, autoconhecimento e prevenção. Profissionais alertam: cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo.
A busca por saúde emocional nunca foi tão alta no Brasil. Dados do Conselho Federal de Psicologia (CFP) indicam um crescimento expressivo na procura por atendimento psicológico em todas as regiões do país. A pandemia, o aumento da pressão no trabalho e o isolamento digital transformaram o cuidado psicológico em demanda essencial de saúde pública.
A escalada da demanda por terapia
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as sessões de psicoterapia em planos de saúde cresceram 208% entre 2019 e 2023. Paralelamente, os atendimentos psiquiátricos aumentaram 115%.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o número de consultas com psicólogos também disparou: foram 13,9 milhões de atendimentos psicológicos apenas no primeiro semestre de 2024. Apesar disso, apenas cerca de 5% da população afirma fazer terapia de forma contínua, segundo levantamento do CFP.
Em Palmas, psicólogos observam um aumento expressivo de novos pacientes desde 2022, principalmente entre jovens de 20 a 35 anos. “A geração mais conectada está começando a entender que buscar ajuda não é fraqueza, é autocuidado”, explica a psicóloga Marina Saldanha, especialista em terapia cognitivo-comportamental.
A terapia como ferramenta de equilíbrio
A terapia é apontada por profissionais como uma das principais estratégias para enfrentar transtornos como ansiedade, depressão e burnout. Ela ajuda o indivíduo a compreender suas emoções, reconhecer padrões de comportamento e desenvolver mecanismos de enfrentamento.
A psicóloga Camila Duarte, afirma que “a terapia oferece um espaço seguro para pensar sem julgamentos. O paciente aprende a lidar com suas emoções e a se enxergar com mais clareza”.
Para Rafaela, 34 anos, servidora pública em Palmas, o início da terapia coincidiu com um período de exaustão profissional. “Eu estava sobrecarregada e não conseguia entender o que estava acontecendo. Depois de alguns meses, percebi que a terapia me ajudou a identificar meus limites e a reorganizar minha rotina emocional.”
Outro caso é o de Leonardo, 29 anos, empresário em Gurupi, que enfrentou crises de ansiedade. “Tinha medo de não dar conta de tudo. A terapia me ensinou a respirar, delegar e aceitar que não dá pra controlar tudo o tempo todo.”
A digitalização do atendimento
Com a ampliação dos serviços online, a terapia se tornou mais acessível. A Resolução nº 11/2018 do CFPregulamentou o atendimento psicológico a distância, abrindo espaço para plataformas seguras e profissionais que atendem pacientes de qualquer parte do país.
O formato remoto ganhou força após a pandemia e consolidou-se entre quem busca flexibilidade. A psicóloga Luciana Prado, que atua em Brasília e Palmas, explica que “o atendimento online ampliou o acesso de pessoas em cidades menores e facilitou a continuidade do tratamento”.
Barreiras e tabus ainda persistem
Apesar do crescimento, o estigma ainda é um obstáculo. “Muitos pacientes chegam pela primeira vez dizendo que achavam que terapia era coisa de gente ‘louca’. Depois entendem que é, na verdade, um processo de educação emocional”, diz Camila Duarte.
Os custos também pesam. Embora os atendimentos públicos e universitários tenham avançado, o valor médio de uma sessão particular no Brasil varia entre R$ 100 e R$ 250.
Há, ainda, uma nova tendência: o uso de terapia digital e assistentes virtuais para apoio emocional. Estima-se que 12 milhões de brasileiros já recorreram a aplicativos de suporte psicológico. Especialistas, porém, alertam que essas ferramentas não substituem o acompanhamento humano.
Resultados e benefícios
Pesquisas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que programas de tratamento psicológico reduzem em até 40% os sintomas de ansiedade e depressão em pacientes com acompanhamento regular.
Segundo o psiquiatra Dr. Felipe Almeida, do Hospital de Amor (TO), a terapia é mais efetiva quando combinada com hábitos saudáveis: “Sono adequado, boa alimentação e atividade física ajudam o cérebro a responder melhor às intervenções psicológicas.”
A estudante Ana Paula, 22 anos, de Araguaína, conta que começou terapia após uma crise de pânico. “A psicóloga me ajudou a entender o que eu sentia e por que sentia. Hoje, sei que posso pedir ajuda antes de chegar ao limite.”
Por onde começar
Para quem deseja iniciar o processo terapêutico, especialistas recomendam:
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Buscar profissionais com registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP);
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Definir o objetivo do tratamento (autoconhecimento, ansiedade, relacionamento, etc.);
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Avaliar se prefere atendimento online ou presencial;
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Verificar clínicas-escola e programas gratuitos oferecidos por universidades e prefeituras;
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Manter a constância: os resultados aparecem ao longo do tempo, com regularidade nas sessões.
O Conselho Federal de Psicologia mantém uma lista de profissionais habilitados e orientações sobre abordagens terapêuticas no site cfp.org.br.
Conclusão
A terapia, antes vista como um tabu, se tornou parte da rotina de autocuidado emocional no Brasil. Ela não se resume ao tratamento de transtornos, mas amplia a consciência sobre quem somos e como reagimos ao mundo. Em um país com índices recordes de ansiedade — o maior da América Latina, segundo a OMS —, cuidar da mente é também um ato de saúde pública.