Portelinhando Crônicas: O Silêncio dos Inqueridos

Portelinhando Crônicas: O Silêncio dos Inqueridos
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 31 de outubro de 2025 20

Autor: Portelinha I Opinião do Leitor- Há momentos na política em que o barulho das palavras não supera a força do silêncio. Em meio a câmeras que capturam cada gesto e olhares que buscam confissões, a sala de uma CPI pode se transformar no palco mais intrigante da democracia — aquele onde falar demais põe em risco, mas calar demais revela ainda mais. Nesta edição de Portelinhando Crônicas, exploramos a dramaturgia invisível das investigações públicas, onde o silêncio se torna estratégia, discurso e até denúncia, enquanto os holofotes transformam parlamentares em personagens de uma cena que, muitas vezes, é menos sobre justiça e mais sobre espetáculo.

E assim, diante de olhos atentos e câmeras afiadas, escolhem não dizer nada. Não porque faltem palavras — mas porque, naquele jogo político-judicial, o silêncio é mais seguro do que qualquer frase.

Enquanto isso, no outro lado da mesa, deputados encontram o palco perfeito. Não basta questionar. É preciso marcar posição, lançar farpa, construir narrativa. A CPI, que deveria ser instrumento de investigação, vira vitrine eleitoral. Entre um ataque partidário e um discurso inflado, cada um luta não pelo esclarecimento, mas pelo corte perfeito para circular nas redes, para ecoar nos corredores do poder, para agradar a torcida.

E o público? Assiste. Uns indignados, outros entediados, muitos já descrentes. É curioso notar como, nesse teatro, o silêncio dos investigados fala mais do que as palavras dos parlamentares. Um silêncio que incomoda, que provoca, que denuncia — ainda que não diga.

Porque há dois tipos de silêncio: o que esconde, e o que revela. No palco da CPI, os dois convivem. Entre olhares firmes, papéis empilhados e microfones ligados, a verdade não está apenas no que é dito — mas, sobretudo, no que é evitado.

Talvez, no fim das contas, a CPI seja mesmo isso: um grande teatro onde cada ato tem sua intenção, onde o direito encontra a política, onde a lei convive com a estratégia e onde o público tenta, a cada cena, entender o que é justiça e o que é encenação.

E, como sempre, o povo — plateia fiel e paciente — tenta decifrar o que está nos bastidores, atrás dos discursos e dentro dos silêncios.

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