Por trás das câmeras da COP30: bastidores, inusitados e quem esteve por lá
Na capital paraense Belém, onde acontece a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o clima vai muito além dos debates oficiais. Nos corredores, nos pavilhões externos e até nos acessos restritos, o evento revela um microcosmo de poder, exclusão e diplomacia ambiental.
Enquanto as autoridades discursam sobre metas de descarbonização e transição energética, a cidade vive uma rotina paralela — marcada por filas para transporte, hospedagens lotadas, seguranças atentos e banheiros de uso limitado a quem carrega credencial dourada.
A COP30 transformou Belém em um laboratório de convivência entre o global e o local: ministros, ex-chefes de Estado, ativistas indígenas, jornalistas estrangeiros e curiosos dividem calçadas, restaurantes e espaços de convivência improvisados.
“A COP é, ao mesmo tempo, um evento técnico e um espetáculo. E como todo espetáculo, há os bastidores que ninguém vê”, comenta um diplomata brasileiro ouvido pelo Diário Tocantinense.
Banheiros restritos e a diplomacia dos crachás
Um dos assuntos mais comentados entre voluntários e visitantes é a hierarquia invisível das credenciais. O acesso a determinados espaços — inclusive banheiros — é restrito a delegações oficiais, ministros e representantes da ONU.
Nos pavilhões laterais, voluntários relatam longas caminhadas sob o calor amazônico até áreas liberadas. “Há banheiros que só podem ser usados por quem tem o crachá prateado ou dourado. O público geral precisa andar até outro bloco”, contou uma estudante que atua na organização.
O cenário revela como, mesmo em um evento que prega inclusão e sustentabilidade, há barreiras de classe e privilégio. O Diário Tocantinense apurou que mais de 40 mil credenciais foram emitidas, entre autoridades, jornalistas, ONGs e representantes da sociedade civil — cada cor indicando um nível de acesso diferente.
Ministros, ex-presidentes e o “turismo da diplomacia verde”
Nos corredores do Hangar Centro de Convenções, onde está sediada a cúpula principal, o trânsito de figuras internacionais é intenso. Entre os nomes já vistos em Belém estão o ex-presidente francês François Hollande, o ministro do Meio Ambiente da Noruega Andreas Bjelland Eriksen, e a ex-ministra colombiana Ingrid Betancourt, hoje ativista climática.
Além das autoridades, a COP30 atraiu celebridades do cinema e da música engajadas em causas ambientais, como o ator Joaquin Phoenix e a cantora Anitta, que participou de painéis sobre arte e sustentabilidade.
O fenômeno é conhecido nos bastidores como “turismo da diplomacia verde” — a presença de personalidades internacionais que ampliam a visibilidade das pautas climáticas, mas também elevam os custos e a complexidade logística do evento.
Protestos, indígenas e a outra COP
Do lado de fora, o contraste é visível. Caravanas indígenas e movimentos ambientais chegaram a Belém de barco e ônibus vindos de várias partes da Amazônia. Vestindo cocares e segurando faixas contra o desmatamento, eles ocupam a região da Estação das Docas e áreas próximas ao Ver-o-Peso, levando à COP uma narrativa que não cabe nas salas refrigeradas.
“A COP é feita por quem tem crachá, mas a floresta é feita por quem vive nela”, afirmou a ativista Juma Karipuna, uma das líderes do movimento indígena presente no evento.
Os protestos também destacam as tensões entre os discursos de sustentabilidade e a realidade local. Comunidades tradicionais reclamam da falta de voz em negociações sobre créditos de carbono e financiamentos verdes, frequentemente dominadas por grandes corporações.
Logística complexa e hotelaria em colapso
A escolha de Belém para sediar a COP30 trouxe desafios de infraestrutura inéditos. Hotéis, pousadas e até residências foram adaptados para receber visitantes. A rede hoteleira opera com 100% de ocupação, e muitos moradores alugam quartos via plataformas digitais.
Nos primeiros dias do evento, filas de credenciamento e problemas de transporte marcaram a rotina. Delegações relataram espera de até três horas entre deslocamentos e checagens de segurança.
O governo do Pará, em parceria com o Ministério do Turismo, anunciou linhas especiais de ônibus elétricos e pontos de recarga solar. Apesar disso, a circulação ainda é lenta, e o tráfego intenso tornou-se tema recorrente entre participantes.
“Belém se transformou numa cidade-sede global, mas ainda enfrenta gargalos estruturais”, observou a jornalista ambiental Cláudia Moura, que cobre a COP há mais de dez anos.
O olhar dos bastidores: quem faz a COP acontecer
Por trás dos telões e discursos, mais de 2 mil voluntários e técnicos locais garantem o funcionamento diário da conferência. São tradutores, profissionais de logística, estudantes de Relações Internacionais e até guias turísticos bilíngues.
João Guilherme, de 22 anos, estudante da UFPA, conta que a experiência é “exaustiva, mas transformadora”:
“A gente vê ministros, empresários e ativistas conversando lado a lado. É uma mistura de poder, pressão e esperança.”
Entre os curiosos, chamam atenção também os stands de startups ambientais, que apresentam soluções tecnológicas para o desmatamento e a energia limpa, e as instalações artísticas que misturam arte amazônica e consciência climática.
Diplomacia climática e a imagem do Brasil
A COP30 é considerada uma das mais estratégicas conferências da década, por ocorrer em território amazônico e às vésperas da COP31 em Dubai, onde serão avaliados os compromissos firmados pelo Brasil e outros países emergentes.
O governo federal aposta no evento para reafirmar a liderança climática do país, destacando metas de neutralidade de carbono até 2050 e redução do desmatamento em 80% até 2030, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.
A ministra Marina Silva tem participado ativamente dos painéis diplomáticos e reforçado a importância da cooperação internacional para o financiamento da transição ecológica.
“A COP em Belém é simbólica. Mostra que a Amazônia não é um tema distante — é o coração das negociações globais sobre o clima”, afirmou a ministra durante coletiva à imprensa.
Curiosidades e momentos inusitados
Os corredores da COP também renderam episódios curiosos:
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Um ministro europeu se perdeu entre os pavilhões e precisou ser escoltado por voluntários;
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Um grupo de estudantes do Amapá improvisou uma roda de carimbó ambiental para atrair atenção ao seu projeto;
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Um painel sobre “moda sustentável” terminou em aplausos após indígenas apresentarem roupas feitas com fibras amazônicas recicladas;
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Uma celebridade estrangeira foi flagrada tentando acessar o espaço restrito de líderes, sendo educadamente conduzida de volta.
Esses episódios reforçam o tom híbrido e humano da conferência, em que a pauta ambiental se mistura a encontros improváveis e situações que escapam ao protocolo.
A COP que acontece fora das câmeras
Enquanto os chefes de Estado assinam documentos e negociam compromissos, a verdadeira COP acontece nos bastidores — entre as filas, os corredores, os voluntários e os manifestos.
Belém se tornou o retrato vivo de um mundo em transição: entre a diplomacia e a desigualdade, o discurso e a prática, a COP30 expõe tanto o avanço da pauta climática quanto as contradições da própria governança global.
O Diário Tocantinense seguirá acompanhando os bastidores e as histórias humanas que fazem da conferência um dos eventos mais emblemáticos já realizados na Amazônia.
Veja também:
– Marina Silva fala sobre compromissos climáticos do Brasil na COP30
– Lideranças indígenas denunciam exclusão nos debates oficiais da conferência
– Infraestrutura de Belém é posta à prova durante COP30